Pensando na questão da reprodução, eu produzi mais um corpo-capítulo, intitulado “Foto de Família” e emoldurado no aplicativo para smartphones “Frame It”, (figura 15). Trata-se de uma imagem gerada pela ferramenta de inteligência artificial Adobe Firefly de um retrato de família com cinco membros, de diferentes faixas etárias, na qual editei para substituir os rostos da família pelo meu rosto a partir de diferentes selfies. Para fazer esta substituição, utilizei a ferramenta online de face swap da Remaker AI. Por tratar-se da versão gratuita da IA, precisei realizar o procedimento de forma separada, trocando um rosto por vez, para que cada rosto da família fosse substituído por uma selfie diferente. Depois uni cada um dos rostos em uma imagem única por meio de edição, conforme a figura 33.
O retoque final se deu quando eu legendei a “foto” com os nomes de meus possíveis “filhos”. Já que não posso me reproduzir, então que estes filhos sejam as minhas criações, minha pesquisa, minha arte, minhas formas de contribuir para com a sociedade. A legenda se dá em retângulos amarelos vibrantes, uma referência a histórias em quadrinhos (HQ’s) ocidentais, nas quais se usa este recurso para fazer uma narração “fantasma” ou o pensamento de um personagem que não está presente na cena, que no caso, sou eu, o progenitor de uma família inteira gerada pela união entre escárnio e inteligência artificial.
Os nomes escolhidos para os filhos meninos foram Boche (de deboche), Casmo (de sarcasmo) e Ideio (de ideia). Os nomes das filhas meninas foram Conceituelen (de conceito) e Doce (de docência, afinal, este é um curso de Licenciatura). E para “es filhes menines”, escolhi “Audácie” e por fim, mas não menos importante, “Arte”. O corpo-capítulo, por mais que visualmente tenha sido gerado por uma máquina, uma mera ferramenta de programação, partiu de minhas ideias e exercitou algo em mim que talvez eu nunca vá pôr em prática que não através de um trabalho artístico: o ato de escolher nomes para filhos. Da mesma forma, se algum dia eu quiser ter um filho biológico, precisarei de um recurso artificial, de uma “máquina” ou “tecnologia” para que isto aconteça, pois como mencionado anteriormente, o requisito mínimo para a reprodução é sentir atração sexual pelo gênero oposto, e com este requisito, eu não cumpro.
A ideia para este corpo-capítulo surgiu após uma publicação da digital influencer brasileira Jessica Diniz em seu instagram (@jedinizm) na qual ela criava justamente um retrato de família no qual todas as pessoas tinham o seu rosto (figura 34). Diniz é conhecida por sua atuação, na qual ela interpreta diferentes personagens, tecendo críticas sobre as relações tóxicas em ambientes corporativos. Ver a própria representando diferentes pessoas, de diferentes idades e gêneros me fez imaginar como seria uma família construída (literalmente) a partir de minhas características fenotípicas faciais, ou seja, do meu próprio rosto, e assim surgiu o corpo-capítulo “Foto de Família”.
Outro trabalho que trago aqui como referência é “Retrato de Casamento”, do artista mexicano Nahum Bernabé Zenil, uma litografia impressa em papel datada de 1992 (figura 35). Um artista gay declarado, Zenil utiliza sua própria imagem para investigar conceitos de identidade masculina no México, sentimento de pertença e relações íntimas. Ao combinar sua aparência com ícones e emblemas tradicionais do México, ele questiona o conceito de "homem macho" e sua conexão com a cultura mexicana. Na obra em questão, todos os convidados do casamento possuem o rosto de Zenil, sem levar em conta a idade, o gênero ou a condição familiar, tal e qual faço em “foto de família”, apesar da linguagem empregada ser totalmente diferente.
Parte do meu interesse por pesquisar a (não) reprodução e a relação entre a comunidade LGBT+ e a descendência biológica vem de um profundo descontentamento que eu tenho com a igreja, por conta do discurso apoiado e endossado pela extrema direita de que gays e lésbicas estão “destruindo a família tradicional brasileira”. Nesse sentido, eu me sinto imensamente irritado, pois a formação de famílias com estrutura alternativa não impede, de maneira alguma, que a família tradicional seja destruída. Não é de meu interesse e, pressuponho que também não é o interesse da maioria das pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ destruir famílias. Pelo contrário, é expandir a noção antiga e ultrapassada, obsoleta, de que uma família é exclusivamente composta por um homem, uma mulher, e os filhos.

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