peguei pesado 2


Tesão à Primeira Vista

Eu tava na Tequila,

Era mais uma noite tranquila,

Observando o movimento, observando a fila,

Volume no máximo, eu no capô do jaguar,

Eu ainda não tinha ido jantar,

Parecia que o rolê gritava a me chamar,

Seria uma lástima se alguma coisa acontecesse,

Seria uma pena se meu coração partido ainda doesse,

Mas há muito amortecido, jazia esse.

Eu tava na caipirinha,

Uns moleque no tapa como galo de rinha,

E eu ali, acompanhada, mas completamente sozinha...

Foi quando tudo parou,

O sinal abriu e fechou,

O olho azul piscou,

E eu sempre tão lerda,

Em uma súbita e úmida queda,

Derramei mais do que vodka sobre as pernas.


 

Tipo Shawn Mendes

 

Estou no Chão,

Pelo menos eu queria que estivesse,

Essa deidade é o pão

Pelo qual minha fome padece.

É uma raridade, não se acha,

O Cupido acertou antes mesmo de mexer na aljava.

Uma rima perfeita em mim ele encaixa,

Como o pedaço que faltava.

Como pode eu estar tão obcecado

Deixando tudo para trás

Chorando pelos acordes e o teclado?

Eu nunca mais poderei dormir em paz.

Muito mais do que um nível acima,

Você está voando nas alturas,

E eu aqui, nesse clima,

Entre chamas, mãos e amarguras,

Por quê? Por que você me deixa tantas sequelas?

Eu nunca serei bom o suficiente

Eu te vejo e toco a tela,

Como eu queria que fosse diferente...


 

Uva-Veneno

 

Em mesa para dois,

Geralmente o copeiro

Serve ambos os copos,

Jamais hesite em me oferecer

Um gole de seu vinho maltês

De Uva-Veneno, oh desaforo,

Mon Amour, é tiriqueda,

Antes mesmo de eu perceber,

Sua língua terá sido cortada,

Por si mesma, gosto de fel,

Não é preciso dizer

Que a causa da morte

Foi ter sido envenenada.

 

Ou talvez seja efeito

Do próprio ferrão.

Contra mim, nada além de

AMOR & ACEITAÇÃO

Parece surtir efeito.

 

Quem usa o artifício

De diminuir um ou dois degraus

Do próximo

Para sentir-se superior,

É porque não garante estatura,

Porque tem autoestima

Mergulhada em amargura,     

Porque não consegue

Atingir o orgasmo

Sem antes

Proferir profanação.

 

Cobra faz bem para a nação

Quando engole rato,

No seu caso,

Deve estar mordendo o próprio rabo.

 

Com fogo, arde fênix,

Em luz e esplendor,

De inveja morre a falsa,

Quebra o dente,

Suja a boca

E então

Rasga cotovelo de dor.


 

E a pia, como é que tá?

 

Que tipo de pessoa

Bem à toa

Essas que criam peleia

Por ciscar na vida alheia.

 

Uma investigação

Rasa de profunda

E descobrimos quem são:

Não merecem nenhuma tunda.

 

É só perguntar:

E a pia, como é que tá?

Cheia de louça pra lavar.

 

Que tipo de gente

Bem aguardente

Essas cujo nariz

Chega duas horas antes pro chamariz.

 

Boca cheia de urtiga,

Oh criatura burra,

Puxa-se a ficha: longa e antiga,

Não precisa de nenhuma surra!

 

É só perguntar:

E a pia, como é que tá?

Cheia de louça pra lavar.


 

Banho

 

Difamam-me

Sem nenhum ganho,

Mas sei que no fundo, amam-me,

Ligo a água e tomo banho.

 

Quando denigrem

A minha imagem,

E abre-se brecha para que opinem,

Penso: "Sacanagem!"

 

Mas não faço nada,

Ando alinhado ao rebanho,

Porque sei que gritar é furada,

Então apenas tomo banho.

 

Falar mal é o mal

Da humanidade

Seria muito formal

Conviver em irmandade?

 

Que caia chuva!

Que caia chuva!

Que eu tome banho!

 

Caiu como uma luva!

Caiu como uma luva!

Lavar-se não tem tamanho!


 

Eu sei que me amas

 

E ele saiu e esbanja em voz alta,

Como quem para o mundo não faz falta:

 

Eu sei, eu sei,

Eu sei que me amas

Mas fica pagando de santinha.

 

Eu sei, eu sei,

Você é a melhor das tramas,

Do clímax, a rainha.

 

Eu sei, eu sei,

Nenhuma das outras camas

Mata a saudade da minha.

 

Eu sei, eu sei,

Você diz que me engana,

Mas eu estou dentro de você até quando está sozinha.

 

Eu sei, eu sei,

Sei que nunca estou na lama,

Pois sempre tem alguém na minha.

 

Eu sei, eu sei,

E eu sou o mais sacana,

Mas são os sacanas que te deixam m*lh**inha.

 

E ela responde, criança peralta,

Dando risada, uns pulinhos ela salta:

 

Eu sei, Eu sei,

Sei que tens saído com Marias, Paulas e Anas

E o meu lugar? Com certeza não é na cozinha.

 

Eu sei, Eu sei,

Ainda sinto saudade da tua cama,

Mas também gosto da utilidade básica da minha.

 

Eu sei, Eu sei,

Você tem fumado muita grama,

Se envolvido em briga e picuinha...

 

Eu sei, Eu sei,

Sei que eu não sou rica nem tenho fama,

Mas prezo a saúde da minha calcinha.

 

Eu sei, PORRA, EU SEI!

Eu não mereço pivete que não evolui, desgrama!

Eu me esforço, e isso é o suficiente. Já sou grandinha.


 

Pudim

 

Te como que nem pudim,

Do início até o fim,

Aquele doce de gostim.


 

Atentar

 

Ficar quietinho de braços cruzados

Enquanto sou chifrado...?

Nã-ã ,

Eu gosto é de atentar!

 

Querido, eu vou lá

E mostro que vim pra ficar!

Se bem que ninguém vai me chifrar,

Porque quem me tem,

Tem garantia para ostentar.

 

Aqui é fogo, menina!

Aqui é fogo!

Semo tudo loko!

Nada me domina.

 

Eu to na intenção,

Sempre na tentação.

Tem como dizer não?

 

Ficar sentado e ver tudo acontecer,

Todo mundo saindo ao anoitecer?

Nã-ã,

Eu gosto é de atentar!

 

Querido, eu vou lá

E mostro que para comigo ficar

Vai ter que rebolar,

Porque quem me tem,

Tem que se por no lugar!

 

Aqui é fogo, menina!

Aqui é fogo!

Semo todo mundo loko!

Que comece a chacina!

 

Não que eu vá trair, mas eu não venho com coleirinha, mermão,

Experimenta só dar uma de vacilão...


 

Corpinho Público

 

Comentou na fotinho do rapazinho,

“Lindo” e ainda por cima coraçãozinho?

Me perdeu.

Azar é teu, e não meu.

Visualizou e não respondeu,

A fila correu.

Desculpa, não gosto de bebezinho,

O maternal já passou e você nem percebeu.

 

Eu nem te queria mesmo,

A verdade é que muito eu tenho ouvido falar

Sobre seu corpinho público,

Mas seria uma judiaria sobre isso comentar,

Oops!... Já aconteceu.

 

Se eu não der valor a mim mesmo,

Quem é que vai dar?

Todo mundo! Eu também sou de gosto da maioria,

Mas não do mesmo jeito que você,

Oops! Eu os deixo querendo na fila,

Você chega com sede e faz trenzinho.

Oops! Eu os deixo querendo na fila,

Você se vende por um troquinho.

 

Mas, mon amour,

Nessas alturas do campeonato,

Sou eu quem como,

Você só limpa o prato.

Se for para se juntar com alguém,

Tá liberada!

Vá lá com os outros ratos.

 

Traia-me novamente

Com todos os meus futuros e exes,

Eu até te perdoo,

Mas não a mim mesmo por ser tão demente,

Obrigado pela lição,

Vou tentar não ser trouxa mais vezes.


 

Ela é afrontosa, ela

 

Uui, olha só como ficou irritada!

Ela é afrontosa, ela!

Tadinha, sente-se machucada,

Pobrezinha da Cinderela!

 

Ela é Patricinha,

E eu sou cadela.

 

Ela tem chicote na língua

E eu, na bunda.         

Ela fala quinhentas línguas

E eu, só uma.

 

Que eu bem me lembre é português,

E ela carcareja,

Ronca, vomita de cerveja,

Muge, sibila e rasteja,

Mas que fique entre a gente,

Só estou falando para vocês.

 

Uui, olha como a bi ficou brabinha!

Ela é afrontosa, ela!

Tadinha, oh, tadinha,

Sabe o cartão de crédito?

Liga pro banco e cancela!

Vai ficar sem comer por um mês,

Mas talvez seja bom

E acabe com as dívidas de vez.

 

Ela é Patricinha,

Mas eu poderia ser a mãe dela.

 

Ela tem chicote na língua,

Eu carrego o meu na mão.

Ela fala quinhentas línguas,

Eu falo tiro e lacração.


 

Se não for pra...

 

Se não for pra dispararem

Com medo de bala perdida

Toda vez que eu chego,

Eu nem saio de casa,

Do meu aconchego,

Porque aqui é tiro atrás de tiro, querida.

 

Se não for para abrirem alas

Quando me faço presente no recinto,

Eu nem sequer me levanto,

Tenho escolta para não cegar com meu brilho.

 

E sabe o que mais?

Dizem que eu me acho,

Mas se não for para eu me achar,

Tudo bem, eu não preciso nem piar.

Sempre vai ter alguém para fazer isso por mim.

 

Eu estou até planejando

Mandar abrir uma rua com o meu nome,

Pois o que eu mais tenho é fome

De dar uns beijinhos e sair andando.

 

BERRO!

O alvo é pequeno, mas a mira eu não erro.

Hot clima, Lacre na certa,

Meninas, fiquem espertas!

E quando aquela falsiane de nariz empinado,

De muitos namorados

Passar por mim na festa,

Pode deixar, miga, eu te vingo

E mostro pra ela quem é que não presta.

 

Se não for para derrubar a cozinha inteira,

E não só o forninho,  

Eu nem saio da cadeira,

Honey, Pisa menos,

Que meu punho ainda tá doendo.


 

Obrigado Por Não Me Querer

 

Obrigado por não me querer,

Por plantar sua semente e ir embora,

Obrigado por me fazer entender

Que certo tipo de gente não colabora.

 

Você busca alguém que seja tão ligeiro

Quanto a gota que cai, do seu choro, no café,

Você não quer um companheiro,

Quer um pai. E pai você já é.


 

Cara de Tubarão

 

Você e essa sua cara de tubarão,

Cheia de dentes...

O que eles farão?

Me apertar até que eu arrebente?

 

Você e essa sua cara de vítima,

Cravando-me no peito uma estaca,

E o pior é que essa culpa legítima,

Não se mostra, não se destaca.

 

Você partiu-me ao meio,

Cheguei a pensar em desistir,

Mas a vida ainda me deve, eu creio,

Desisti de você e não do meu florir.

 

E quando eu te ver, da próxima vez,

Vou elogiar sua barba e até o tênis que calça.

Vou contar até três,

E devolver na mesma moeda, sua falsa.


 

Já Era

 

Somos jovens, não dá nada,

Amar é conto de fada,

Não vale a pena viver a vida estressada,

Vamos nos rebelar de uma só tacada.

 

Vamos para um quarto,

Esqueça as DSTs e o parto,

Hoje é noite de estômago farto,

Beba, fume, vamos ter um infarto.

 

Hah, não sei quem foi mais idiota,

Ele por propor ou eu por aceitar a proposta,

Agora quando ele passa, eu viro as costas,

E afundo na sombra dele, como mamãe gosta.

 

Eu deveria era ter fugido,

Escutar o grito interior, o rugido,

Eu não estou de coração partido,

E é aí que reside o mal: entreguei-me a um bandido.


 

Peguei Pesado (O Prelúdio)

 

Se eu pego pesado

Naquilo que eu falo?

Meu filho, eu pego o machado

Todo o dia e muito trabalho.

 

Se eu pego pesado

Naquilo que eu acredito?

Honey, eu tenho me esforçado

Para fazer o povo rir e só assim, já irrito...

 

Se eu pego pesado

Naquilo que eu luto?

Pego, porque com machista desgraçado

Defendendo estupro, eu fico p*to!

 

Se eu pego pesado,

É porque uma voz interior

Me diz que precisa ser erradicado

O opressor.

 

Se eu pego pesado

É porque ainda tem quem derrube minha autoestima,

E para lidar com o sorriso desse arr*mbado,

Amo a mim mesmo através da rima.

 

Se eu pego pesado

É porque é preciso,

Se ainda tem homem tarado,

Tem que arrancar os dentes e deixar os sisos.

 

Mas o meu pegar pesado

Não é de violência nem artilharia,

Nem de rebater o recalque mandado,

É de reproduzir na arte, a arte da ironia.

 

E quem não entender a ironia,

Não precisa nem ler este livro,

Porque quem defende a dinastia,

Não serve para amigo.


 

Muito Curto Para Título

 

Amor?

Não, muito obrigado.

Eu não acredito em

Mentiras.


 

A Máscara

 

Drama e Comédia,

Nenhum deles me serve mais,

Cai a ilusão de rede social da diva que pisa,

Lacra e samba, humilha...

Eu sou sensível, eu choro à noite,

Eu sou feia, eu sou gorda,

Que tipo de pessoa eu sou?

Eu tenho valor?

Pelo que eu luto?

Pelo que pensam de mim ou por mim mesma?

Eu tento, tento e tento,

Tento ser o que não sou,

Vou aos clubes, me jogo na pista,

Eu gosto da música. É alegre, me dá vontade de viver,

Mas eu também gosto do que não posso ter,

E isso dói. É de por dentro, se corroer.

E eu não quero mais que insista,

Deixo cair a máscara, deixo abaixar a crista.


 

Pedras

 

Se alguém por uma pedra o seu caminho,

Lembre-se de que pedra

É algo que você pisa em cima

Todo dia.


 

Homens Nus

 

Os homens não deveriam

Andar sem camisa na rua

Assim como as mulheres

Não podem

Andar com os seios à mostra.

A tensão sexual é a mesma.

Pergunte-me.


 

Tipos de Pessoas

 

Seja qualquer tipo de pessoa,

Menos aquela

Que esquenta o banco

Pra bunda dos outros.


 

Perdão se não concordo

 

I

 

Perdão se não concordo

Com tuas extremidades religiosas,

No barco da vida, a estibordo,

Não passam de vozes maldosas.

Todos os dias, gurizada inocente

Tem seus direitos revogados;

Só por serem diferentes,

Enquanto o mal é exaltado.

De suas moradias são expulsos,

Indignos aos olhos do condado,

E muitas vezes, heróis sem pulso,

Para gritar pelo que lhes foi arrancado.

Não é possível que se pregue dor,

Julgamento e outras ações penosas,

Os céus gemem: Deus é um mentor,

Não um juiz de crianças pecaminosas.

Toda vez que se prega um discurso,

Não consigo relacionar com meu bom Deus,

Pois Ele não nos tira nenhum recurso,

E não lhe coroa a verdade nos veredictos teus.

Deus é o amor em si e a convivência,

Santíssima trindade que ensina o respeito,

Perseverança e paciência,

Ele é contra qualquer preconceito.

Natureza, Vida e Amor,

Sabem que não foi escolha delas,

Essas crianças que vivenciam o horror,

E por amar acabam em tuas celas.

 

II

 

E elas enchem a boca

E com toda razão

Ao dizer, em meio à multidão louca,

Mas de coração:

“Todos nós queremos ser tratados

Como os humanos que somos,

Temos direito de amar e sermos amados,

Independente de nossos cromossomos.

Não somos maus, nem formamos quadrilhas,

Somos todos iguais ao teu ser,

Não destruímos famílias,

É na diversidade que as vemos crescer.

Não se trata de ser depravado,

Por opção transgredir esta provação,

Não se escolhe ser diariamente espancado,

Não se escolhe passar por tamanha ridicularização.

Que tipo de pessoa gosta de ser agredida?

Nenhuma alma sequer tem por intenção

Se sentir inferior, a cada segundo ofendida.

Entenda: Nada disso é opção!

Não é vivência ou comportamento,

Desde guris, sátiras por causa do trejeito;

Não é devassidão ou das leis naturais infringimento,

Longe de ser um erro, de se estar com defeito.”

 

III

 

Coloque-se no lugar,

E veja o quão difícil é o dia a dia,

Por algo que não se pode mudar,

Por algo que tira toda a “simpatia”.

Eles não querem mais brigar,

Liberdade e paz a todo instante;

Eles querem apenas se livrar,

De todo o ódio e insultos constantes.

Um dia, se Deus quiser,

A humanidade entenderá a maldade que fizera

E distribuirá o máximo de amor que puder,

Viva a nova era!

Arrepender-se-á por deixar leis infundadas

Varrerem a compaixão de sua mente,

Ao deixar que vidas inócuas fossem arrancadas,

Sem qualquer mal ou nocividade evidente.

 

IV

 

Perdão se em meu seio, não suporto

Suas extremidades adorativas,

Por amor, olhares tortos,

Será que o inigual é força destrutiva?

 

No amor, diversidades florescem,

Sobretudo, nas paixões incondicionais,

Orgulho-me de ver o bem que nelas crescem,

Mesmo que não sejam tratadas como pessoas normais.

 


 

Por tudo o que é mais sagrado

 

O que tu acabas de dizer

É só um farelinho diminuto,

Mas tudo o que você disse,

Quem disse não foi só você,

Só hoje, à mercê,

Recebi muitas dessas migalhas,

O suficiente para encher

De uma bigorna por minuto

Meu peito com o sofrer.

 

Deus, eu só queria entender

Por que há de tanto doer,

Por que gente que eu nem conheço

Tem de se intrometer

E me dizer o que eu devo fazer,

Ou quem devo ser,

Se eu jamais tive qualquer

Escolha?

 

Deus, eu só queria poder

Um dia me distrair,

Esquecer-me completamente

De que sou gente,

E voltar a sorrir,

Mas o que agora vou dizer

Talvez não seja apenas eu a escrever,

Mas milhares de jovens

Que todos os dias veem-se perder

Sem que ninguém jamais venha a os compreender:

Às vezes oro para logo morrer.

 

Por tudo o que é mais sagrado,

Será que a saída é desaparecer?

Por vezes, só quero ser enterrado,

Para não ser mais tragado,

Todo dia humilhado

Por ditas palavras mal ditas,

Sem jamais entender

O motivo de tanto ódio,

Vai chegar um ponto em que minha face

Não vão mais secar

De tanto entristecer.

Todas as minhas flores vão murchar

E todo meu jardim,

Que eu levei anos para construir,

Vai perecer.

 

Deus o que eu tenho que fazer

Para voltar a viver?

Que cores tenho de ver,

Se o arco psicodélico que vejo

É justamente a causa de meu corpo apodrecer?

 

Ah, mas se tem uma coisa

Que impulsiona meu ser

É no fundo saber

Que se o mundo está cheio de ódio

E rancor,

É minha missão e dever

Compartilhar aquilo que quero sentir,

E o que eu quero em meu seio receber

É amor,

Simplesmente amor.

 

Ah, se tem uma coisa

Que impulsiona meu viver

É saber que ao transmitir meu crer

Vou despertar

Alguém que assim como eu,

Está diariamente um pouco a desvanecer,

E mostrar para todo mundo

Que para o ódio ser curado,

É amor que eles têm que ver.

 

Por tudo o que é mais sagrado,

Já não tenho mais vontade

De fenecer,

Anseio liberdade

E não vou me conter

Até que todos entendam

Que nada mais sou

Do que, como vidro frágil,

Um adolescente a alvorecer.

 

Volto a repetir,

O amor é a melhor moeda

A se devolver.

De minha vida, por eles não vou desistir,

Vou me equilibrar

Ao evitar, de outros a queda,

E juntos vamos todos nos reerguer.

Juntos vamos todos crescer.

 

Por tudo o que é mais sagrado,

Por tudo o que é mais sagrado,

Não me deixarei ser levado,

Juntos vamos todos vencer.


 

Nothing Is Ever Enough (Nada Nunca É Suficiente)

 

Ele só queria bater

O carro num tronco

Engolir gasolina

E deixar queimar

Ele só queria deitar

Na água sem máscara

E destruir cada bloco

Do concreto da ponte

De dentro para fora

Ele só queria dormir

Ao som de cordas

E folhas farfalhando

Ele só queria detonar

A bomba-relógio do peito

E tirar das costas

A bigorna da guerra

Ele só queria bater

Em si mesmo

E gritar enquanto

Quebra garrafas de vodka

Na própria cabeça

Ele só queria apanhar

E acabar com toda

Essa tristeza...

Ele só queria dormir

Ao som de cordas

E árvores balançando.


 

Eu Me Odeio

 

Eu odeio a mim mesmo,

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou me odiando,

Eles disseram:

Lukas, os teus pais não estão se orgulhando

Dessa voz fina.

Na redenção Divina

CREMOS,

E não queremos

Andar com um "voz de menina".

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou me diminuindo,

Eles disseram:

Nossa, Lukas, você está quase sumindo,

Quem é que vai gostar de um cara seco?

Ainda bem que nóis num semo!

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou me depreciando,

Eles disseram:

Nossa, Lukas, você está engordando,

Tem que se cuidar mais!

Mas que diabos de dieta você faz?

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou a me tirar todo o brilho.

Eles disseram:

Lukas, esse seu cabelo é um empecilho!

Alisa, corta, lava esse teu estilo de rua,

Quem vai contratar olhando para uma cara como a sua?

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou a me detonar na frente dos outros,

Eles disseram:

O Lukas não consegue emprego,

Vive no computador o dia inteiro,

Jamais vai conseguir se tornar um engenheiro.

Eu odeio a mim mesmo.

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou me reduzindo em todos os níveis!

Eles disseram:

Lukas, para de chorar! Você tem amigos incríveis,

Nem parece homem!

(Ah, que incríveis!)

Nem sequer sabem que uma chama, vivo me consome,

Que eu odeio a mim mesmo...

 

Eu odeio a mim mesmo,

Mas não fui eu quem começou com isso,

Eles me olharam, analisaram a gosto próprio e disseram

Que não gostavam disso, disso e disso,

Tantas vezes que se eu desse um sumiço,

Morreriam de prazer os olhos das madames de vidro.

 

E no fim, o pior de tudo,

É que eu não os odeio,

Eu não odeio o mundo,

Eu odeio a quem eles me ensinaram a odiar,

Eu odeio a mim mesmo.


 

Lótus (Versão 2.0)

 

A flor de lótus nasce

Em meio ao lodo

Em meio ao lodo.

 

E o brilho estampa a face

Simples como um todo.

 

A flor de lótus nasce

Em meio ao lodo

Em meio ao lodo.

 

Mas não deixa que se enlace

A feiura do todo.

 

Quando eu deixo que a raiva me abrace,

Eu não mais explodo,

Eu não mais explodo.

 

Assim, antes que a nuvem o mal trace,

Eu vou e escondo,

Eu vou e escondo.

 

Porque a maldita flor de lótus

Resolveu de nascer no lodo,

E viveu linda, sem se misturar ao todo.

Politicamente...

 

É tão difícil admitir

estar errado...

Ao mesmo passo

em que é tão difícil

estar correto...


 

Canto de Estresse ao Brasil

 

Minha terra tem Palmeiras,

Santos, Flamengo, Corínthians

E lhes parece que só.

Aves, aqui nem gorjeiam,

São tão fraquinhas de fome,

Sopram cá, a vuvuzela.

Então parte o coração,

Vá, corra atrás de uma bola,

Vá, corra atrás do São Paulo,

Saúde? Educação?

Nos subúrbios ou em São Paulo...?


 

Deixa

 

Deixa,

Hoje vocês me cospem,

Riem, fazem queixa,

De críticas me entopem.

 

Deixa,

Hoje vocês me olham

E falam com a boca fechada,

Hoje vocês me molham

E na tormenta deixam-me à deriva sem jangada.

 

Deixa,

Hoje não dão nada pra mim,

Me acham só um moleque

Fazem piada de meus fins

E tentam me dar um breque

Riem e apunhalam meus rins,

Tentando acertar minhas asas leves.

 

Deixa,

Ah, deixa… Um dia eu brilharei tanto

Que todo e qualquer pranto

Me será nada menos que um espanto,

Bem no fundo, lá no canto,

De minha mente,

E toda essa coisa entre a gente,

Terei desfeito,

De modo que tudo o que haverá entre nós

Será desatar os nós

E demonstrar mútuo respeito.


 

Cabeças de Girassol

 

Você já tem tanto...

Como pode qualquer coisa

Que você ainda não tem,

E talvez nunca tenha,

Roubar tanto tempo

Do teu pensamento?


 

A doce e pura alma que cantava no ônibus

 

Sete da manhã, nem isso,

Ônibus lotado,

e uma doce e pura alma,

cantarolando feliz da vida.

De repente,

Todos os assentos pareciam afundar,

Tornando-se pequenas prisões,

Mas não o daquela senhora,

O dela cheira à luz do sol,

pasto e pássaros.


 

Manequim

 

Olha lá, ossos de plástico

Fingimento entusiástico,

Não é de fato sarcástico?

Ah, você não pode estar falando sério!

Braços e coxas de minério,

Os freis seguem as leis

Do monastério.

Mais uma agulha

E vai parar no cemitério,

Mais uma fagulha,

Come on, não tem mistério!

 

Coloca um cadeado

No próprio rosto,

Quem se sentir baleado,

É encosto.

 

Vai, animação,

Sai, assombração.

É aquele São Silvestre

Que vem do coração.

Mas sabe o que me parece?

Objetificação.

 

Você prefere uma fotografia

Ou ao vivo?

Em uma sociedade fodida e fria,

Esse é o objetivo!

Acene e sorria!

Faça de conta que não é apelativo.

 

E nesse mundo

De câmeras e cabines,

Ninguém sai, já entra mudo

E vê os netos surgirem e tudo

Por detrás da vitrine.


 

Maquiagem

 

Tem ratos fora da despensa

Na rua, por todo lado,

Por cabeça a recompensa,

O diálogo se dispensa

E acaba baleado,

Acha que o tráfico compensa,

Na visão, um mundo extremamente embaçado.

 

Mas será que é ir longe demais?

Jogos, jogos mortais,

No berço da miséria,

Sem consideração,

Aponta e atira, coisa séria,

Um Bebê com uma pistola na mão.

 

Mas ela tem um bom coração,

Vai para casa com o 3-21 na mão,

Mas com a mente tranquila

Assoviando uma bela canção.

 

Tem ratos comendo muito mais que queijo,

Tem homens roubando muito mais que beijos,

As paredes cinzas

E o musgo sombrio,

No chão sangue e cinzas,

Mas nada tira do cidadão comum,

De modo algum, o brio.

 

Acorde, Margarida,

Abra os olhos para a vida.

 

Em algum lugar desta terra ferida,

Nascem flores floridas,

De cores trazidas.

Para quem escolhe ver só o reboco,

Que as faces sejam traduzidas

E a verdade seja dita.

 

Mas ela tem um bom coração,

Vai para casa com o 3-21 na mão,

Mas com a mente tranquila

Assoviando uma bela canção.

 

Abra seus olhos, Margarida,

Abra seus olhos.

 

Em algum lugar desta terra fedida,

Brotam inteligências

E muitas e muitas sapiências,

Que nenhum bolso maior terá na vida.


 

Estratégia

 

O leão mostra os dentes,

Você corre e vira almoço,

Luta até a morte

Ou dá comida e escapa

de fininho?


 

O Sistema

 

Ligando todos os pontos,

Cada cabeça é um alfinete,

Todos aqui são tontos

Por não erguerem seus porretes.

Olha que bonita a minha vida,

Estudei o que não queria,

Namorei, casei, fui uma margarida,

Reproduzi, e morri um pouco por dia.

A joia mais incrível

É a trena para que se meça,

Porque quanto mais exaurível,

Menos vale a remessa.

Não é de fato intrigante

Como todos aceitamos?

Não deveríamos ter visto antes

Que rivais de todo mundo nos tornamos?

 

E o ciclo se repete,

Eles o fazem repetir,

E todos sentem que fede,

Mas quem vai impedir?

 

Sabotagem!

Sabotados desde antes de nascer,

A classe do dar e nada receber,

Entregar-se até morrer,

A verdade é que

Somos jovens demais

Para sermos só mais uma engrenagem

Girando e girando,

Suando e desgastando,

Sem parar jamais.

 

Competidor, o mundo já te fez pronto,

Esse é o macete!

A-D-M, direito, contábeis, odonto…

Quanto mais se bebe, maior será a sede.

Contentamo-nos com presença sofrida,

Livros em branco, alma vazia,

E só pra dar uma conferida,

Vamos dividir a nação e eleger a primazia.

O dinheiro é só o combustível

Da máquina de todas essas peças

E não o final impossível

Que nos fazem acreditar à beça.

Por que tudo parece tão semelhante,

Em cinquenta, noventa, mil anos?

Será que ninguém vê o semblante

Por debaixo dos panos?

 

E o ciclo se repete,

Eles o fazem repetir,

E todos sentem que fede,

Mas quem vai impedir?

 

Sabotagem!

Sabotados desde antes de nascer,

A classe do dar e nada receber,

Entregar-se até morrer,

A verdade é que

Somos idosos demais

Para vivermos como uma engrenagem

Girando e girando,

Suando e desgastando,

Sem parar jamais.

 

Eis aí a aspiração dos maiores,

Sugar todas as condições de vida melhores,

Eis aí a aspiração dos maiores,

Sugar todas as condições de vida melhores,

Eis aí a aspiração dos maiores,

Sugar todas as condições de vida melhores.

 

Sabotados desde antes de nascer,

A classe do dar e nada receber,

Entregar-se até morrer,

A verdade é que

Somos idosos demais

Para vivermos como uma engrenagem

Girando e girando,

Suando e desgastando,

Sem parar jamais.

 

Sabotagem,

Sabotagem,

Somos bem mais

Que ração e lealdade.


 

Asas Para Que Te Quero

 

Ato I – Da Rocinha para o Mundo

 

Carlos Alberto, humilde, carpinteiro,

Nasceu, cresceu e viveu o tempo inteiro

Na maior favela do Brasil,

E nessa vida dura que Deus o deu,

Perdeu muitos companheiros

Nas mãos de um fuzil

E por tudo aquilo que se sucedeu,

Foi ele quem se partiu.

 

Carlos Alberto só tinha oito

Quando bem a sua frente,

O pai foi morto,

Passou os anos seguintes de servente,

Engraxando sapato,

Ganhando o suficiente para ratos,

Das seis à meia-noite, batendo ponto.

 

Aos treze teve de optar pela educação

Ou por matar a fome,

Escolheu trazer pão pros seus irmãos,

Se esforçou, manipulado de mão em mão,

Forçaram o menino a ser homem.

 

Carlos Alberto, humilde, guerreiro,

Lutou, padeceu, mas permaneceu faceiro.

Trabalhou pelo que nenhum empregador

Jamais trabalharia,

A vida é bem mais que dinheiro,

E só se aprende com a dor,

Desde pequeno já sabia,

Mas seguiu com seu ardor.

 

 

Ato II – Tentação

 

Aos vinte, desistiu do requinte,

E foi aí que veio a notícia,

Ligaram para sua pobre mãe,

Era da polícia!

Foram eles, foram os cães

Que orquestraram o rebuliço,

Mataram um filho e uma filha

No caniço.

 

Aí veio, veio o declínio,

Sua velha entrou em depressão,

Um ano depois veio o tumor.

Metástase no coração,

Estruturar e recompor,

Ou cair na perdição?

 

Carlos Alberto sumiu por dois dias,

Não sabia nem onde estava,

Caramba, agora ele jazia,

Na parede onde o corpo de seu pai

Pouco a pouco apodrecia.

 

Voltou, pôs-se nos eixos,

Perfume, roupa nova,

Caprichou, fez o currículo direito,

Oportunidade bateu na porta.

 

Comprou remédio todo mês

Pra mãe fraquinha,

Bolsa de estudos e mais cursinho de inglês,

Aumentou a vaquinha.

 

Mas o que a vida de favela dá,

Ela toma de volta,

A linha reta começou a curvar

Até morrer torta.

 

 

Ato III – Racismo

 

Comprou um celular novinho,

E não quis levar a nota

Para não saberem quanto custou,

Mas logo que saiu da loja,

Tropicou pelo meio-fio:

Alguém correu e o empurrou.

 

E aí veio a velha lesada

Que não via mais que um palmo a frente,

Olhou para a cor e não para a cara,

Carlos Alberto se viu no xadrez, de repente,

Carimbaram réu primário,

Jogaram-no no espaço de um armário

E tudo o que ele pensava era ter deixado a família carente.

 

Provaram a inocência

Ele ganhou a indenização,

Mas já era tarde, na jaula, a convivência

Era abuso sexual à noite e de dia esfoliação.

 

 

Ato IV – Declínio

 

Carlos Alberto sugou a depressão da mãe para si

Quando ela veio a falecer,

E foi a partir daí,

Que seu mundo começou a se contorcer.

 

Doze de outubro de mil novecentos e noventa e nove,

Ele sentiu a energia que move

O universo,

E ao mesmo tempo, o inverso,

Vinte e quatro anos, descobriu que ia ser pai,

Foi quando descobriu que quem na cadeia o abusava

Era o mesmo cara que segurava a arma

Do tiro que levou os irmãos e a raiva sobe à cabeça e não sai.

 

Uma dia como outro qualquer,

Ouviu falar do abuso de uma mulher,

E bateu a característica,

O canalha ou foi solto ou fugiu,

Tá na hora de enfrentar a logística,

Possesso e revolto, de casa saiu.

 

Ele estava sem emprego,

Fazendo bico como sempre fez desde cedo,

E foi numa conversa na cidade baixa,

Que soube que o desgraçado

Era também o mesmo mascarado

Que havia derrubado

Seu pai morto em cima da cama

Onde Carlos Alberto havia se refugiado,

Ah, mas que coincidência da desgraça!

 

 

Ato V – O Plano

 

Jurou Vingança,

Pelo tempo perdido desde criança,

E aí caiu na matança.

 

Conseguiu uma pistola

No beco do Brizola,

Partiu como quem parte em cima da hora.

 

A chuva inundava em poças

Dava para cheirar a leptospirose,

Um cara esfaqueado na esquina,

E na outra esquina, uma moça,

Carlos Alberto do outro lado do morro da psicose,

A parte em que todo dia chovia chacina.

 

Avistou de longe o covil do bandido,

E no peito dilacerado e ferido

Tudo o que sentia era um terror,

Na mão um tremor,

Quase deixando cair a justiça.

 

Entrou devagar,

Quase que a porta enguiça,

Cheiro de sangue no ar,

Não batia sol nem polícia.

 

E na porta do quarto, à entrada,

Dois capangas de mão armada,

Identifique-se!

Justifique-se!

 

 

Ato VI – O Plot Twist

 

“Eu vim para me aliar

Quero trabalhar

Para o tal Gavião Edgar”.

 

“Oh, chefe, chega aê”,

E nada do chefe responder,

Eles só se olharam,

O silêncio no ar fétido,

Clima muito mais do que gélido,

Alguma coisa havia acontecido!

Por que o chefe estaria tão tranquilo?

 

Então a porta arrombaram,

E quando ela se abriu,

PUTA QUE PARIU!

 

O velho estava na verdade ocupado,

De saco estourado,

Com pelo menos dez trabalhadoras do lado,

Saco murcho, pelado.

EIS A DEIXA!

AGORA NÃO TEM QUEIXA

QUE CHEGUE A TEMPO.

O homem ficou descontrolado

Doze tiros, alguém se lembra de ter contado,

Fora os desviados pelo vento.

 

Carlos Alberto deitou também,

Mas no concreto frio e com desdém,

Do chão para o além.

Abriu os braços em asas,

Desejou não ter tido tanta ira,

Queria ter ficado em casa,

Mas era tarde, queimava como pira.

 

Carlos Alberto sorriu

Mas seu peito não floriu,

A primeira coisa que pensou

Foi no filho,

Carlos Alberto se vingou,

Mas apertou o gatilho,

O tiroteio veio de tudo que é lugar,

Carlos Alberto acertou na testa do Gavião Edgar,

E seus capangas vieram então a o fuzilar.

E com uma sádica expressão no rosto,

Deitou num tombo,

Não havia mais encosto,

Matou de sua vida, o assombro,

Mas também a vida, deixou de reinar.

 

Fez errado.

Fez errado.

A loucura agora o deixava, estirado.

 

E a história se repete, abandonado,

Mais um filho que cresceu sem um pai do lado.

 

Seis corpos,

Sangue empoçado atraindo mosca,

Carlos Alberto era mais um entre tantos mortos,

Virou mais um número para a mídia tosca,

E com manchete em tantos noticiários,

Carlos Alberto abandonou,

Deixou o filho e família para trás,

Nunca nem viu o espírito do pai ou o do vigário,

Morreu. Acabou. Terminou.

E nem assim alcançou a Paz.


 

Mão-de-Obra Barata

 

Eu não sou sua mão-de-obra,

Tenho duas mãos e faço minha obra,

Mas a partir do momento em que me cobra,

Sem razão de sobra,

Saiba que sou orgânico,

Calma, calma! Não entre em pânico!

Você vai ter de aceitar

Que sou feito de carne e pele,

Meu corpo cansa, morre, apodrece, fede,

E ninguém que fique no meu lugar

Também será só mão-de-obra,

Não terá minhas mãos,

Nem terá minhas obras.

Eu não sou substituível,

Não sou peça de teu plano infalível,

E ninguém é, não!

Cada um tem duas mãos,

E cada um faz suas obras.

Eu não sou descartável,

Tudo se extingue, tudo acaba, tudo é findável,

Minha vida não é em vão,

Eu faço minhas obras,

Graças às minhas duas mãos.

Agroglifos, Ignorância, Milho e muita Palha Assada

 

A vida é um trator

Lavrando uma roça eterna,

Cada peça, o motor,

O cano e a fuligem,

As engrenagens, a cisterna,

Nem alvo nem origem,

É o ser humano,

Calejando, se escalavrando,

Suando e apanhando

Para manter o sustento,

E que calor calorento!

O sol cozinhando,

Câncer ao vento,

E em cima dessa geringonça,

Não é Deus, não! É a onça!

Sente só, que responsa,

É o sistema.

 

A vida é um trator

Lavrando uma roça sem fim,

E sem nenhuma trégua propor,

Entrega nas mãos robóticas

O dinheiro, o lucro ou algo assim,

Mas olhando por esta ótica,

Não é o ponto, é engano,

É só a gasosa alimentando

E com o tanque aumentando,

As pecinhas sorriem,

Voltam a ser virgens,

Produtividade avuando,

Renovadas, vertigem,

E o esperado final da colheira,

Nenhuma parafuso espreita,

Só quem avista é quem dirige e assenta,

É o sistema.

 

A vida pode até ser um trator,

E cada peça, é certo, será substituída

Antes de qualquer motim impor,

Podem até jamais sair de casa,

Estragando antes de ver a saída,

Mas enquanto muito pobre defasa,

Lá está o governo no volante,

Muito mais atento que adiante

Num campo tão vasto e distante,

Há tantas possibilidades de máquinas...

Fazer o que com a massa? Mate-a!

O trator velho segue reto, avante!

Qualquer fuselagem mais rápida,

É deixada a dispor,

Enquanto ao lado, em pleno vigor,

Nem encosta no chão, tanto disco voador,

Tanta opção de sistema.


 

Conspiração

 

Solta o hahaha bem alto,

O poder acha que é descer do salto,

Que a gente é cobaia, cobalto,

Mas só porque é favela, não precisa ser assalto,

Então pega, se senta, e segura esse auto.

 

Capitalismo, Socialismo,

Olha aqui, eu sou nobre, exibicionismo,

Mas eu vejo por trás da cortina,

Visão de raio-X,

Eu vejo o seu ocultismo,

Sangue nas mãos, chacina,

Bate no escravo e quer que ele peça bis.

 

Salta o hahaha, meu chapa,

Abre a jaula e encaçapa,

O pai que rouba o pão

Para alimentar o filho,

Tira, faz sumir do mapa,

Esconde o corpo no alçapão,

Tortura, é massa, é empecilho.

 

Comunismo, Imperialismo,

Olha onde nasci, sou pobre, mente-abertismo,

Pode tirar minha casa,

E o meu direito à água e comida,

Leve até o último cisco,

Pode estabelecer uma educação rasa,

Eu vejo a população e a contrapartida.

 

Solta o hahaha, camarada,

A alta sociedade está estragada,

Eu vejo os ternos discutindo política,

Mas a propina gruda e ninguém solta,

Olha só que virada!

A vida é cíclica

E ela sempre volta!

 

Hahaha, pra eles não valemos 1 real,

Ratinhos na esfera, num ciclo infernal,

Mas gente, cai na real!

Eles podem estalar os dedos e nos dar um final,

Mas ninguém tira o amor de um coração leal.


 

Volta Pra Cuba, Comuna!

 

Todo bebê no ventre da mãe é igual,

Tem as mesmas necessidades,

As mesmas paixões no ponto inicial,

E quando nascem, nos campos ou cidades,

Aí é que se tornam um ser individual,

Fruto do meio e não da casualidade,

É aí que vai ficando legal.

 

E quando eu vejo

Aquele pequeno lampejo,

Tão minúsculo com apenas um desejo,

Comida, carinho e um beijo,

É aí que eu despejo...

 

“Volta pra Cuba, Comuna,

Direitos humanos pra que?

Só para bandidos defender?”

Ih, olha só que lacuna,

Minha melhor resposta a você

É que na Terra e no homem

Habita fortuna.

 

Todo bebê, com ou sem pai, é igual,

Todo bebê nasce com dignidade,

Quem é você para tirá-la no final?

Volta para o seu lugar, divindade,

O direito é de todos, não só criminal,

E para o crime, não deve haver impunidade,

Mas do mesmo modo, emoção não deve superar o racional.

 

E quando eu vejo

Aquele pequeno lampejo,

Tão minúsculo com apenas um desejo,

Comida, carinho e um beijo,

É aí que eu despejo...

 

“Volta pra Cuba, Comuna,

Direitos humanos pra que?

Só para bandidos defender?”

Ih, olha só que lacuna,

Minha melhor resposta a você

É que na Terra e no homem

Habita fortuna, habita fortuna.


 

Um dedo aponta, três despontam

 

Roubar, matar, estuprar,

Tudo isso é crime,

Mas sabe o que também se enquadra no regime?

Você. Quando esnoba o pedreiro,

Mas passa sob a sombra da casa o dia inteiro.

Você. Quando acha que se tornar costureira é coisa pouca,

Mas se enche na moda, de roupa.

Você. Quando joga o papel no chão,

“Só para o gari garantir o pão”.

Você. Quando quer ser o primeiro,

Mesmo que passe por cima de uma mulher, do sacoleiro,

Do gay, do pobre, do sofrido, do “macumbeiro”...

Eu quero que a pena seja menos branda,

Sim, eu quero,

Eu não desejo que o crime se expanda,

Eu desejo é que se corrija o errado

Pelo certo.

Eu quero que todos leiam e escrevam,

Que todos se alimentem e cresçam,

Que todos tenham tetos e crenças,

Que a ética, a moral e o respeito prevaleçam,

Acima de qualquer cabeça.


 

Injustiças

 

Injustiças,

Faça com o diabo.

 

Se fizeres comigo,

Será muito

PIOR.


Bônus: O Conceito de ‘Peguei Pesado’

 

Peguei Pesado é uma obra literária do gênero poesia (experimental) e que pode ser conceituada metaforicamente como uma máscara e o que há por trás dela. Ou seja, trata-se daquilo que as pessoas desejam mostrar ao mundo e aquilo que elas realmente são por baixo dos panos deste falso semblante.

O livro inicia-se com uma série de poemas agressivos, afrontosos e narcisistas que conduzem o leitor a uma única e lógica conclusão: estamos falando de uma alma miserável e egoísta, que ao sentir-se encurralada, precisa atacar e rebaixar o próximo. ESTA é a máscara e representa tudo aquilo que se vê nas mídias atualmente, nas redes sociais, nas músicas e até mesmo entre personalidades públicas. As pessoas querem ter razão de tudo, querem se sentir poderosas, escondendo-se atrás de uma falsa coragem, que nada mais é que um reflexo dos próprios medos e sofrimento. E assim, geram briga, discórdia, ódio e guerras.

À medida que o livro se desenvolve, percebe-se uma brusca mudança de tom. Agora o eu lírico está falando sobre uma tristeza e um legítimo vazio que corrói por dentro. As camadas estão se desfazendo rapidamente, do mesmo jeito que o dia passa a ser noite e o sol troca de lugar com a lua. O ser humano começa então a entender que nada além de amor e aceitação parece surtir efeito, e assim, passa a ser mais compreensivo com o próximo e suas causas, quando finalmente percebe que a luta é de todos, e assim, resolve fazer sua parte. Nesta segunda etapa, é perceptível uma grande clareza na visão social, mostrando que toda a maldade pode ser convertida e que por trás de todo coração furioso, há uma mágoa e um buraco a ser preenchido.

Por fim, a própria mente por trás do eu lírico arrependido pergunta para si mesma: “Você quer ser destemido?”, convocando esta pessoa, que muito julgou e apostou na ilusão terrena da superioridade a lutar e pegar pesado por causas que realmente valem a pena, e a discutir coisas que realmente importam e fazem a diferença, não só na vida dela, como na de muitas outras pessoas.


Bônus: O Conceito da Capa

 

A capa de “Peguei Pesado” esconde muitos segredos e estes estão relacionados diretamente com o conceito do livro:

Primeiramente, é possível ver diversas selfies do autor ilustrando um fundo de cor única, que é uma referência direta ao egocentrismo que muito se vê na falsa ideia de pessoa, apresentada nos primeiros poemas da obra. Ora, se o mal da geração de hoje é a depressão, é culpa do narcisismo visto nas mídias sociais, onde curtidas e comentários em uma foto valem ouro.

Este emaranhado de autorretratos também representa o conceito de “Quadros de Sá” como um todo: ou seja, diversas feições ou realidades de diversas pessoas. É possível ver, por exemplo, uma selfie do nariz arrebitado dos primeiros poemas e outra que claramente lembra as feições da personagem explorada no poema “Louco”. Assim, cada fotografia representa “um quadro” de um “sá” distinto;

Quanto ao título do livro entrecruzado, que aparece diversas vezes em diferentes tamanhos, tons e sentidos, esta é a voz na cabeça da persona, que diz que ela precisa pegar pesado com coisas que realmente valham a pena e tenham sentido. Por vezes, gritos, por vezes, sussurros, quase que levando este indivíduo à completa loucura.

Na contracapa, podemos ver claramente “o coelho” do poema de mesmo título. Há mais um apanhado de autorretratos, incluindo aqui o erotismo também presente na gênese da história do livro. Por fim, calçados com os cadarços de cores diferentes, novamente uma referência ao poema “Louco”, que é o momento de maior clareza, sobriedade e libertação das influências carnais e terrenas em Peguei Pesado.





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