A Era das Espaçonaves — Capítulo 01


Imagine dormir e acordar daqui a cento e oitenta anos...

            Foi exatamente o que aconteceu a Antony Carter, em uma cidadezinha reclusa do estado da Geórgia, Estados Unidos.

 

            Era noitinha no ápice do verão de 1948, mês de agosto nos limites de onde hoje concentra-se Savannah, a quinta maior cidade do estado localizado no condado de Chatam, América do Norte. As donzelas já haviam se recolhido em seus aposentos, e as flores avivavam agradecidas pela chegada da lua após uma infindável tarde escaldante. Quem quer que ousasse quebrar o silêncio e a calmaria do pós-calor correria um grande risco de ser crucificado.

E era no sótão relento e cheio de buracos de goteiras de uma casinha humilde, atolada na simplicidade da pobreza, que um jovem de dezoito anos dormia profundamente. Antony mal tinha dinheiro para comprar lonas para cobrir a parte interna das telhas contra as intempéries regionais. Para falar a verdade, era tão miserável que não tinha tido condições de uma boa educação formal, mas fazia de tudo para compreender o mundo onde estava inserido. Esta, para falar a verdade, era a razão de estar vivendo no sótão. O menino decidira abandonar o chão apertado da cozinha, que dividia com mais cinco irmãos — O único outro cômodo da casa além do banheiro era algo que nem sequer dava para se chamar de quarto e era exclusivo para tratar da saúde do pai acamado, mas mais parecia um armário. Parando para pensar, talvez nem fosse uma boa ideia deixar o velho ali... —, com o intuito de conquistar seu próprio espaço mais próximo das estrelas, ainda que isso fosse um problemão quando chovia.

            Acordou-se bruscamente com uma batida violenta à porta de madeira que separava o pequeno alojamento superior entre o teto e o telhado, ou melhor... Entre o teto que era o chão para ele, e a peneira, que era um enfileirado de telhas muito velhas e delicadamente prestes a se partir no menor dos toques, além de ser o lar de uma família de morcegos frugívoros. Levantou em um pulo de sua cama escorada por tijolos também muito rudimentares e abriu a tampa que dava para o resto da casa.

            Espiou para baixo. Não viu ninguém. Já sabia quem era. Sem sair do quartinho, olhou para fora através de uma janela muito velha, cujos vidros não refletiam muita coisa além de sujeira acumulada de anos e anos atrás. A janela estava aberta para fins de ventilação. Do lado de fora, um senhor pouco mais velho, trajando um jaleco branco estava se preparando para atirar mais uma pinha dentro do quarto do garoto pelo alto da janela — o que produzira o som que o acordou.

            O cara era boa pinta. Tinha aparentemente uns quarenta anos e era professor, a julgar pelo “Senhor Smith” bordado no bolso com uma caneta, localizado sobre o peito.

            Ao vê-lo, o jovem transbordou de alegria, esbanjando um sorriso que dificilmente alguém com muito dinheiro seria capaz de expressar em uma vida inteira. É verdade, uma conta gorda era capaz de comprar condições de vidas muito melhores que aquelas que seus pais haviam ficado desde a maldita crise de 1929, mas nenhum dinheiro no mundo era capaz de comprar o conhecimento. E Antony era assim. Faminto por conhecimento.

            — Senhor! — Gritou da janela, muito polido como sempre. — Desço em um minuto!

            Vestiu umas calças sociais muito antigas (dormira só de cuecas), uma camisa de gola e botões amarela, um suspensório e uma boina típica da época. Desceu pela comporta, puxando uma escada que dava na parte debaixo da casa e foi ao leito de seu pai. Deu um beijo no rosto do velho, cujos olhos estavam abertos, mas muito distantes dali, sem piscar nem emitir nenhum sinal de vida. Talvez já estivesse morto há muito tempo, só ainda não tinha se dado conta. E por fim, o menino Antony saiu pela porta dos fundos, encontrando-se com seu velho mestre.

            — Pronto para as observações de hoje? — Perguntou o professor, lançando um olhar que muitos reconheceriam como pena, exceto pelo próprio Antony, dos pés à cabeça.

            — Pronto, senhor! — Fez um sinal de continência que aprendera no pouco tempo em que ficara no exército, e seguiu os passos do homem até uma enorme casa de alvenaria toda pintada de branco, no fim da rua. À porta, uma placa novinha, com tinta reluzente em um tom preto de grafia pré-fabricada, dizia: Laboratórios Smith.

            Apesar de todo o profissionalismo, até mesmo para aquele senhor cujo diploma de graduação em física encontrava-se pendurado logo na entrada do estabelecimento, as práticas laboratoriais eram puro amadorismo. Mas o que havia entre aqueles dois era um fascínio absurdo que ligava mestre e discípulo a um único objetivo: conduzir observações com telescópios não muito bons ao magnífico céu noturno.

            — Boa Noite, Senhora Smith. — Cumprimentou o garoto, que caminhava no corredor, ao passar por uma porta que dava na cozinha, onde uma bela senhora afro americana conduzia o aromático preparo de um jantar.

            — Boa Noite, Tony! Bons estudos! — Desejou ela.

            E os dois avançaram até um quarto escuro com uma enorme luneta ultrapassada — Na época, tecnologia de ponta — e vários outros telescópios menores espalhados pela sala, todos apontados em direção à noite. Através da janela do Senhor Smith, muito purificada com doses diárias de álcool sobre o vidro, para tirar todas as sujeiras, era possível ver uma vastidão infinita de estrelas, cintilando no preto eterno dos céus antigos, que não eram tão poluídos como os de hoje e, portanto, tinham melhor visibilidade.

            — Que dia é hoje? — Perguntou o doutor.

            — Vinte e dois de janeiro de mil novecentos e quarenta. — Respondeu o aprendiz, enquanto seu mestre tomava as anotações. Não era o dia de fato. Eles estavam em dois de agosto de quarenta e oito, mas Antony respondera aquela data porque estavam reconstituindo um evento astronômico que acontecera bem na época em que a segunda guerra mundial estava em sua fase inicial.

            — Movimentação na constelação de Ursa Maior. — Proferiu o professor, colocando uma pequena lente avulsa como um monóculo no olho esquerdo enquanto fechava o direito para tentar enxergar melhor o que escrevia no escuro. Debruçava-se sobre uma escrivaninha cheia de lápis e provas para corrigir (ele dava aulas em uma escola particular em uma cidade vizinha durante o dia) enquanto, inspirado, transcrevendo todas as ocorrências observadas no céu naquele período, enquanto seu discípulo ditava a partir de garranchos e rabiscos feitos rapidamente a lápis em um guardanapo de papel.

            Uma gota de suor escorria pela têmpora do Senhor Smith, mas ele não se cansava. Mesmo após um dia cheio de trabalho e estresse, ele ainda tinha tempo para ajudar seu amado aprendiz. Na verdade, Antony era quem o ajudava. Era um verdadeiro assistente, até ganhava alguns trocados no fim da semana pelos auxílios prestados. Mas claramente, o cérebro pensante ali era o Sr. Smith, que tinha sérios problemas em anotar as coisas em qualquer lugar e depois ter que gastar horas e horas passando a limpo. E era exatamente o que faziam todas as noites: Passavam as coisas a limpo para depois, quando a lua já estava bem lá no alto, finalmente apontarem os telescópios aos céus para passarem horas e horas de observação. Às vezes Antony dormia por lá, após um delicioso jantar da Sra. Smith. Era tão comum que os dois se distraíssem olhando para o céu, que já era até considerado normal o garoto aparecer somente pela manhã em casa ou pouco antes do sol raiar.

            Para falar a verdade, isso era culpa do Senhor Smith. Milton Smith, para falar a verdade. Os últimos anos haviam sido complicados. A guerra não foi fácil para nenhuma família. Por pouco, Antony não foi para as forças armadas. Mas o filho de Milton, Jerry, não teve a mesma sorte. Morreu na guerra. Era tão parecido com o pequeno Tony, que o professor simplesmente não conseguia deixar de lecionar para ele, mesmo que fossem altas horas da noite e ele estivesse extremamente moído de suas atividades na escola.

            Milton fazia de tudo para passar um tempo perto de Tony e então, aquele olhar pesaroso sobre os ombros do menino parecia fazer sentido.

            A Senhora Smith, Donna Smith, entendia a dor do marido, mas era a que mais cedo havia seguido em frente. Para Milton, isso era muito difícil. Ele amava ensinar o jovem Jerry sobre as estrelas e as constelações.

            E foi num dia de céu muito claro que ele esbarrou com o vizinho Antony, convidando-o para participar de uma observação noturna em seu laboratório. No começo, ele nem tinha muita vontade em aprender, mas depois que Milton começou a ensiná-lo sobre o vasto espaço sideral, com muito amor e carinho, ele começou a amar, de modo que frequentar a casa do Senhor Smith tornou-se um hábito extremamente saudável.

            E para Milton, isso era muito importante. Sofria de depressão e sabia que o pai de Antony estava em uma situação difícil. Para falar a verdade, toda a família dele estava. Então contratou o menino para ser seu assistente, e assim começou uma parceria que já dura mais de um ano e meio.

            Mas naquela fatídica noite em questão, algo aconteceu que o Senhor Smith não previa. Enquanto Milton anotava e anotava no escuro, prestando atenção nas letrinhas miúdas com o monóculo minúsculo e não muito útil na obscuridade daquele ambiente, ele perdeu a concentração e não prestou atenção em um detalhe muito importante: o próprio aprendiz. Talvez o que ele precisasse fosse um pouco mais de foco. Não, não foco no seu trabalho, porque isso certamente era impecavelmente inquestionável. Mas foco nos arredores. Ou talvez nem isso... Talvez nem isso fosse capaz de ajudá-lo.

            Milton não escutou nem o barulho do corpo caindo no chão. Ele estava distraído finalizando uma linha de apontamentos na papelada quando perguntou:

            — Qual o semieixo maior?

            Mas não obteve resposta. Pensando que Tony não havia escutado, perguntou de novo. Mas nada além de silêncio e um estranho ar gélido de percorrer a espinha adveio do local.

            Ao virar-se na cadeira para procurar pelo jovem assistente, um choque desceu por todo o corpo do Senhor Smith. Com um grito de horror, ou melhor... Um berro totalmente terrificado que chamou não só sua esposa Donna, da cozinha, como também atraiu a atenção do velho beagle batizado de Rex, acorrentado no pátio.

            Em meio a latidos e gritos de socorro, a vizinhança toda logo em seguida ficou sabendo, quando o carro do médico particular do professor chegou às pressas à casa.

            O corpo estirado de Antony no chão, sem nenhum sinal vital ativo foi extremamente perturbador. Primeiro porque a cena da morte do filho Jerry repassou pela cabeça de Milton, como uma segunda dolorosa despedida. Segundo porque ninguém esperava que Antony pudesse ficar igual ao seu pai, ou talvez até pior.

            E assim antes fosse. O pai de Antony respondia a sinais, mantinha os olhos abertos, se alimentava, se queixava de dor, mas ainda assim, por pior que fosse seu estado vegetativo, nada se comparava ao do seu filho.

            Coma.

            Coma profundo.

            E a causa? Ninguém sabe. Para falar a verdade, ninguém nem viu acontecer. Ao menos foi o que alegou o Senhor Smith às autoridades. Mas o coitado não tinha culpa de nada. Muito pelo contrário. Por ele, Antony estaria recuperado há muito tempo... Mas o que aconteceu... Ah, o que aconteceu nada tinha a ver com a ciência primordial e bárbara do Século XX. Se Milton estivesse vivo hoje para apreciar a engenhosidade da mente humana no papel de Deus, talvez tivesse surtado muito antes com a possibilidade. Ninguém poderia prever nem compreender como um jovem entrando na fase adulta em perfeitas condições de saúde parecia ter ficado sem nenhuma resposta motora de uma hora para outra...

E foi assim que Antony Carter encerrou sua trajetória na era do esquecimento.

E como muitos fins, eis que este se revela um novo começo...

 

A ERA DAS ESPAÇONAVES

Capítulo 1 – Era uma vez, um corpo

 

Do outro lado das armadilhas da consciência, Antony viu-se despertar em um lugar de muita claridade sem nenhuma janela ou lâmpada. Para falar a verdade, era como se as próprias paredes fossem modernos aparatos de iluminação, cobrindo toda a estrutura da sala. A luz advinha delas.

O corpo de Tonny estava dormente e mal adequado à cama em que se deitava. Parecia ser maior que o leito. Não conseguia enxergar direito, estava tudo embaçado e a luz de cor branca era tanta, que lhe ardiam as pupilas.

— Argh! — Exclamou diante da dor lancinante que era tentar mover o pescoço. Onde estava? Que lugar era aquele, com aquela luz sinistra de origem desconhecida, em abundância por sobre sua face, cegando-o completamente?

— Funcionou! Funcionou! — Comemorou uma distante voz de mulher muito aguda e estridente. Antony ouvia tudo com ecos. Ainda não estava perfeitamente em condições de compreender o ambiente ao seu redor. Era como se estivesse sob a influência de narcóticos, deixando-o tonto e completamente desorientado. Ele já tivera a oportunidade de ficar bêbado antes, mas nada se comparava a isto. Ele nunca havia se sentido tão mal em toda a sua vida, como se estivesse prestes a morrer.

Sentia fios ligados a seu peito, braços e dedos, e alguma coisa parecia flutuar por sobre seu corpo, mergulhando-o em mais luz como que em uma sondagem. Ele estava confuso e não conseguia mover os braços ou as pernas. Estes, por sinal, estavam amarrados à maca, que mais se parecia com uma mesa do que com qualquer outra coisa. O que diabos era aquilo? Seria um hospital? Algo lhe dizia que não, fazendo o coração acelerar de tensão.

Olhou para baixo. Estava com o peito completamente nu, exceto pelas dezenas de fios e apetrechos conectados a ele, mas das pernas para baixo, estava coberto com um lençol muito branco que parecia recém-saído de fábrica. Seus pés estavam congelando, quase como se tivesse ficado morto por algum tempo e agora estava acordando novamente para a vida.

Olhou para o lado sem movimentar muito o pescoço, porque doía mais que tudo, e avistou alguma coisa que fazia um “bip-bip” muito irritante para seus ouvidos que recém despertavam. Era uma espécie de televisão a cores só que sem tubo, e com números e símbolos que ele desconhecia por completo e que mudavam constantemente. Seus olhos não focavam muito bem, mas ele sabia que aquilo era um aparelho eletrônico de avançada tecnologia. Algo inimaginável para um garoto que nascera na época em que o mundo ainda desconhecia computadores e aparelhos celulares.

Sua cabeça parecia que estava prestes a explodir, mas Antony estava consciente de que estava vivo e por algum motivo cósmico desconhecido, sabia que por muito pouco.

Levou algum tempo para estabilizar.

Ele só foi se sentir melhor e mais desperto quando uma mão doce e gentil percorreu a maca, desatando seus braços e pernas, permitindo-o ter mais um pouco de liberdade.

Antony fechou os olhos em pequenas fendas para poder focar direito. Até o mais simples dos gestos parecia ser difícil de executar. O que estava acontecendo?

Ele avistou o rosto de seu herói. Ou melhor, sua heroína. Era uma jovem mulher de pele negra tão escura quanto a noite, com longas tranças no cabelo (na altura das nádegas) e feições muito belas. Talvez a mais bela menina a quem ele já conhecera. Não parecia ter muito mais que vinte anos. Vestia uma roupa cor-de-laranja extremamente justa e extravagante, confeccionada com um material semelhante a látex, só que não tão viscoso, que lhe cobria todo o delineado corpo, como um macacão. Uma das mãos vestia uma luva sintética e a outra, que desfazia as amarras, estava descoberta. Ela estava em perfeita forma física e o corpo de Antony meio que sentia isso, ainda que outras funções menos constrangedoras como por exemplo, se mexer ou pronunciar o próprio nome, não estivessem surtindo efeito.

Antony olhou cuidadosamente para a mulher, que não se parecia nada com uma médica, mas deveria ser afinal, e avaliou: onde ele estaria?

Olhou para os arredores. Não havia nada além deles ali e dos aparelhos ao seu lado, senão um branco infinito, como se estivessem em um local sem janelas ou portas, em impecável higiene. Era um limbo ou um céu? Estaria o jovem Tonny morto?

De repente, olhando na direção contrária a si, para a parte detrás da cama, observou uma janela de vidro, por onde várias outras pessoas estranhas — Ou melhor, incomuns —, todas vestindo o traje laranja cafona, os observavam, cada uma mais diferente que a outra.

Enquanto Tonny observava o branco absoluto daquele lugar, a mulher ficou parada por uns cinco ou dez minutos ao seu lado, desligando as luzes por sobre o rosto do jovem paciente e mexendo nos aparelhos conectados ao corpo dele, verificando coisas como a pressão arterial, sinais de reflexo e movimentos. De repente, ela começou a falar, direcionando suas palavras ao enfermo.

— Johnny, é você? — Perguntou, com uma voz grave em um tom não muito esperançoso. Talvez até triste. Não era a mesma voz que ele se lembrava de ter ouvido anteriormente. Talvez a voz estridente feminina fosse de alguma daquelas pessoas do outro lado da janela. O sotaque da doutora não parecia ser americano, mas também não era britânico. Falava como que com gírias para Antony, dando um ar meio que informal à situação, apesar de toda seriedade.

— E-eu... Eu me chamo... Eu me chamo T... Tonny. — Respondeu, com muita dificuldade, a garganta seca, as cordas vocais raspando. A boca mal conseguia esboçar as articulações, sem deixar um vale de cuspe e baba inundar seu rosto. Optou pelo apelido, para encurtar a sensação de dor que era falar.

A moça fechou os olhos e respirou profundamente, como que preocupada e extremamente ressentida com a notícia de que aquele ali não se chamava Johnny. Não estava muito contente, mas ao mesmo tempo, lançou a Antony um olhar duro de quem não tem intimidade, quase que como em um ambiente profissional.

— Consegue falar? Como está se sentindo? — Perguntou ela, mecanicamente verificando o pulso dele pela terceira vez. Ela tentava esconder as emoções, mas dava para perceber quão abalada estava. Mas com o que?

— E-estou bem... Eu... Eu acho. — Respondeu o coitado, que mal conseguia manter uma conversação. Mas esforçou-se. Observando a moça, que parecia muito aflita, achou que seria bom conversar com ela, mantê-la calma. De onde vinha essa sensação, de que tinha de consolá-la de alguma maneira? Não sabia, mas resolveu seguir esse instinto.

— Sabe onde estamos? — Ela perguntou, mas o interrompeu prontamente antes de responder, observando as dificuldades apresentadas pelo paciente em se comunicar. — Eu quero que mantenha-se em repouso absoluto. Faça sinais com a cabeça para me responder. Se for muito doloroso, pode piscar os olhos, uma vez para sim, duas vezes para não. Tudo bem?

Antony nem tentou balançar a cabeça para responder com um sim. Sabia que não conseguiria tamanho o sofrimento. Apenas piscou uma vez.

— Ótimo. Você vai se sentir estranho por uns dois ou três dias... Johnny. — Ela pareceu hesitar por um momento, mas o chamou daquele nome... Johnny. Afinal, com quem diabos ela estava o confundindo? — As memórias vão retornar com o tempo, assim como todos os seus movimentos. Evite esforços, o seu corpo ainda está se religando, célula a célula ao sistema nervoso central e à... — Ela hesitou novamente e mudou de assunto. — Pode abrir a boca?

Tonny piscou uma vez e abriu a boca, ela colocou um palito lá dentro, depois ligou um pequeno feixe de luz em seus olhos, primeiro o direito, depois o esquerdo. O feixe advinha de uma espécie de apetrecho elétrico ligado a seu braço, como um relógio, só que muito estranho. Era uma pulseira preta reluzente, como se fosse feita de vidro ou... De uma tela. A médica também utilizava uns óculos transparentes que não pareciam ser de grau, mas mostrava letras e números e símbolos como hieróglifos pós-modernos. Estas eram as mesmas informações no aparelho adjacente que continuava fazendo o bip-bip chato, só que agora, Antony já estava acostumado com o barulho.

Tudo naquele lugar parecia ter muito investimento em tecnologia. Tanto dinheiro que Tonny jamais poderia imaginar com sua vida humilde e precária no interior. Mas mais inimaginável ainda era a tecnologia em si, que parecia ser de outro mundo.

— Você precisa descansar um pouco mais. Eu vou aplicar um sedativo que vai te ajudar a relaxar. Além disso, o processo de “religamento” funcionará melhor e mais rápido durante o sono. Está tudo ok?

Tonny piscou novamente em consentimento. Dormir talvez fosse a melhor opção para quem estava morrendo de dor por todas as partes. Ela então pegou uma seringa com um líquido branco muito suspeito e aplicou-o no tubo que estava ligado diretamente às veias do braço de Antony.

Ele podia sentir as pálpebras pesarem, e a mulher cada vez com um olhar mais triste. Antes que pudesse finalmente cair no sono, ele conseguiu estender o braço e pegar no pulso dela, delicadamente. De alguma maneira, sabia que precisava consolá-la, só não sabia o porquê.

— Q-qual... Qual é o seu nome? — Perguntou, a voz ficando cada vez mais distante e etérea, segundos antes de entrar em um transe psicodélico como efeito da droga injetada.

— Europa. — E esta foi a última coisa que ouviu antes de apagar.

 

 

Antony estava em um local muito escuro. Tudo era preto. Não havia contornos nem nada ao seu redor. Era como o branco do quarto de hospital onde acordara, só que ao contrário. Sob seus pés descalços, água cristalina, refletindo uma pálida luz distante. Seria o luar? Não... Ele não estava em um lugar físico, tinha essa sensação. O líquido transparente não parecia emitir nenhuma diferença de temperatura. Nem gelado nem quente nem nada, como se não houvesse água de fato. E o mais curioso de tudo: Ele estava nu. Completamente pelado, assim com veio ao mundo.

Ele parou e avaliou onde poderia estar, foi quando deu meia volta e se deparou com um homem também nu, loiro platina, olhos verdes, com uma cicatriz vertical descendo da testa, passando pelo olho esquerdo e terminando subitamente na bochecha. Havia outra pequena cicatriz no lado direito dos lábios superiores. Seus braços, abdômen e também as pernas eram muito musculosos, e ele era mais alto uns vinte ou trinta centímetros. Um verdadeiro monstro. Era mais velho um pouquinho, talvez uns vinte e quatro anos? Quem sabe vinte e seis? Mais ou menos esta faixa etária. Ele também estava descalço e pisava por sobre a água.

— Johnny... — Antony nem sabia como aquilo era possível, mas de repente sentiu que aquele era o homem a quem a moça... Europa... Havia se referido anteriormente.

— Escute, eu não tenho muito tempo. — Falou o loiro com uma voz de moleque, ainda. Ele também tinha um sotaque diferente e falava apoiado em gírias e neologismos como Europa. — Quando você receber esta mensagem, eu já terei partido. Isto é... Eu não estarei mais vivo. Eu só... Quero que cuide bem deste corpo. Ele seria seu, de uma forma ou de outra, então... Acho que saberá o que fazer.

— Hã? — Antony olhou desconfiado para o homem, sem entender nada do que ele estava falando.

— E eu... Eu quero que cuide bem dela... Europa. Ela teve que me sacrificar para te trazer de volta. Bom, ela sabe que nunca poderá me matar de verdade. As almas não morrem e tecnicamente... Você... Eu... Eu continuarei lá. Mas ela nunca irá se perdoar pela troca nem pelo que fez.

— O que aconteceu contigo? — Perguntou Antony naquele seu sotaque de mil novecentos e quarenta, quando ainda se conjugava na segunda pessoa.

— Você entenderá. Você poderá acessar as minhas memórias. Elas estão todas gravadas no meu cérebro carnal. Basta uma palavra-chave e você conseguirá encontrar o que procura. Pesquise na minha mente e você se salvará.

— Eu... Eu não estou entendendo! Do que o senhor está falando?

— Eu... — Uma pequena lagrimazinha marota escorreu pela face de Johnny, descendo e pingando na água abaixo de seus pés. A minúscula gota fez um eco colossal. — Eu sinto muito. Digo... Eu sinto muito a mim mesmo por não ter tido êxito nesta vida. Desculpa.

E quando Antony foi abrir a boca para perguntar o que estava acontecendo, levando a mão para tocar no homem que agora berrava em prantos, as lágrimas brotando e despencando pelo rosto e peito, ele desapareceu. Antony estava sozinho, tocando o preto vazio daquele local virtualmente imaterial.

Johnny havia ido embora. Estava morto e era isso o que todos temiam.

Tonny sentiu o coração acelerar e de repente o sonho mudou.

Estava em uma galeria, vestindo as mesmas roupas que na noite anterior na casa do Senhor Smith: a camisa de botões amarela, a boina com suspensório e as calças sociais. Conhecia o local, era na pequena vila onde morava. Andou passo a passo em direção ao fim do corredor, passando por mercadores e viajantes, vendedores de porta em porta, até chegar na parte mais pobre da cidade. Lá no final, afastado das outras casas, encontrou seu casebre, tão feinho, o coitado, mas era o lugar que tinha para chamar de lar. Correu até lá.

A porta estava aberta.

Entrou e logo encontrou todos os seus irmãos, os dois mais velhos e os três mais novos, além do pai, surpreendentemente de pé, ao redor de um corpo sem vida em uma cama improvisada no quarto-armário onde antes ficava o seu velho.

Todos choravam. Era Antony, sem o mínimo sinal de consciência. Coma profundo, sem nenhuma expectativa de vida.

— Pai! Pai! — Ele gritou, mas ninguém ouvia. Aliás, ninguém parecia notar que ele se fazia presente no recinto, para falar a verdade. — Eu estou aqui! Sou eu! O Tonny!

Mas o pai estava muito triste e surpreendentemente saudável. Olhou para todos os seus filhos ali presentes e eles consentiram com a cabeça. Albert e Bernard, os dois mais velhos, respectivamente, olharam de volta para o pai e disseram:

— Está tudo bem! Vai ficar tudo bem, pai.

— É a sua única opção. Não temos dinheiro para mantê-lo vivo.

E então Johnny entendeu. Com um aperto no coração, ele entendeu.

Tod, o caçula, berrou um não prolongado, mas mesmo os seus irmãos com pouca diferença de idade, Eduard e Edmond concordaram que aquilo precisava ser feito, abraçando e consolando o menino de cinco anos.

 As mãos do pai tremeram. Ele pegou um travesseiro e foi até o corpo em coma de Antony.

— Filho... Me desculpa. Eu te amo.

— PAI! NÃO! — Tonny tentou gritar, afirmando que estava vivo, mas não adiantou. O velho não ouviu. Antony correu e tentou segurar os braços do velho para impedi-lo de fazer o que tinha em mente, mas não adiantou. Ele o atravessou, como se fosse um fantasma e se debruçou por cima do corpo de Tonny na cama, impedindo-o de respirar com o travesseiro. O corpo inerte nem sequer mostrou nenhum sinal de resistência. Talvez já estivesse morto.

E enquanto gritava em desespero ao ver pela última vez sua família, o chão pareceu desmoronar, literalmente, se abrindo e engolindo o corpo de Antony. E enquanto estava caindo e berrando desesperadamente, abriu os olhos e sentou-se de vez na maca. Estava de volta ao quarto branco no meio do nada, sem nenhuma porta (e agora nenhuma janela) a vista.

Era apenas um branco infinito, e ele na maca.

 

— Por quanto tempo eu dormi? — Perguntou Antony à Europa, que chegou alguns segundos depois ao ouvir seu grito por uma porta que se materializou, abriu-se, deixou ela passar e depois sumiu novamente, após a doutora ter entrado no quarto.

— Desde o último sedativo? Oito horas. Desde a última vez que nos falamos? Cinco dias. Desde a última vez que... — Ela pareceu hesitar novamente e então se calou.

— Cinco dias? Caramba, eu dormi tudo isso desde que eu acordei aqui? Parece que eu fiquei fora de mim por só... Uns dez minutos, nem isso!

— Receio que a sensação de sono tenha nuances até você se acostumar com o novo... Enfim... Você precisa se conhecer... Novamente. — disse ela, verificando o pulso dele outra vez e notando que agora ele podia falar e se movimentar sem nenhum incômodo ou dor. — Você está bem?

— Estou... Ótimo. Só com um pouco de náusea. Há quanto tempo eu não como?

— Temos que retirar a sonda. — Ela falou e foi só então que Antony sentiu algo de errado nas partes inferiores. — Você ainda tem que ser apresentado à comida do Século XXII. Talvez seja difícil no começo.

— Comida do Século XXII? O que é isso, uma nova espécie de frango assado? — Perguntou Antony, desejando muito que fosse. Seu estômago até poderia estar um pouco revoltado, mas ainda sabia muito bem quando era hora de provar um delicioso jantar da Senhora Smith.

Europa pareceu recuar novamente ao tom da pergunta. Talvez tivesse falado demais...

Dessa vez, o olhar dela era mais pensativo, como se elaborasse um plano ou algo assim. Ainda parecia triste, mas menos que no dia em que se conheceram.

— Eu estou vivo, não é? — Perguntou ele, o que fez com que ela esboçasse um pequeno sorriso.

— Johnny... Você não muda nunca. — Murmurou ela enquanto retirava todos os aparelhos e fios ligados ao peito do paciente. — Aliás... Antony...? Antony Carter, certo?

— Em carne e osso! — Respondeu Tonny, sentindo-se muito bem agora. Totalmente saudável.

— Em... Carne e osso? Bom, talvez essa não tenha sido uma resposta feliz. — Ela estava estranha. Ela era estranha. A começar pelo nome... Europa então acionou um botão na pulseira eletrônica e a colocou próximo ao queixo, falando: — Torre de Comando Leste, Torre de Comando Leste! Compareçam na enfermaria, quarto 22/b. Agora.

Não demorou mais que dois minutos e todos já estavam lá. Eram as mesmas pessoas que estavam na janela no outro dia. E eram muitos. Seis ao todo, sem contar Europa.

A começar por uma moça também de pele muito escura, assim como Europa, com corte de cabelo bastante curto, um pouco rente à cabeça. Ela era muito igual à médica. Talvez fosse até irmã. As duas tinham a mesma altura, os mesmos olhos e a mesma boca. Usavam até a mesma roupa laranja-cheguei. Aliás, todos ali usavam.

— Esta é minha irmã-gêmea, Ásia Mbeki. — Apresentou Europa, com um braço estendido na direção de sua cópia-viva. — Na verdade, ela é meu clone. Ásia foi clonada a partir de meu DNA ainda no ventre de minha mãe, então ela nasceu um mês depois que eu, mas esteve durante oito meses comigo dentro da barriga. Então ela é minha gêmea, sim.

O que? Elas não esperavam que Antony acreditasse naquilo de primeira, esperavam?

— Nós somos filhas do presidente da África do Sul, Gwede Mbeki, e fomos designadas para comandarmos a primeira frota espacial em direção às colônias em Marte, para expansão da vida humana por lá. Falamos inglês fluentemente, a propósito.

Tonny olhou para elas sem esboçar nenhuma reação. Não sabia o que esboçar, se ria na cara delas, se chorava com saudade de casa ou se instigava a desenvolverem o assunto, a fim de se localizar melhor e entender tudo o que estava acontecendo. Contudo, lá no fundo, em seu mais íntimo interior, Antony sentia que já ouvira aquela história antes, como um déjà vu.

Europa e Ásia, que na verdade provém da África do Sul, trocaram rápidos olhares e então a irmã de tranças prosseguiu com as apresentações, certificando-se de que Antony havia ouvido e compreendido tudo o que havia sido dito até ali, pro mais bizarro que fosse.

O próximo era um cara muito branco. Até os cabelos escorridos que caíam pelos ombros não pareciam ter pigmentos e sua pele mostrava as veias e o sangue por debaixo. Era albino. Tinha uns dezessete anos por aí e era extremamente magro. Só os ossos, para falar a verdade. Estava cheio de aparelhos pelo corpo, usando pelo menos três das pulseiras que Europa tinha, um óculos igual ao dela e uma mochila de metal que continha dois tanques de oxigênio e alguns relógios ou bússolas — Tonny não conseguia distinguir de longe o que era, nem compreender por um segundo o que eram todas aquelas tecnologias.

— Este é Albino. Ele é o mestre da computação que vem rodando o sistema operacional Space Y, que é o supercomputador que opera esta nave. — Apresentou Europa, não dando a mínima se Antony estava compreendendo ou não. De alguma forma, ela sentia que o cérebro dele era capaz de absorver esta informação, mesmo não sabendo nem o que era um computador, afinal, ele nascera muito antes da popularização da Apple e dos computadores pessoais por Steve Jobs.

— O meu nome é Niels Bohr II, mas todos me chamam de Albino, por aqui. — Disse o estranho rapaz, falando em dinamarquês em uma de suas pulseiras, que traduziam instantaneamente para o inglês que Tonny era capaz de compreender, ainda que a linguagem fosse extremamente informal e... Futurista.

— Albino é um androide, modelo KX21, sendo o mais avançado modelo de inteligência artificial autoreconstrutiva que tínhamos no Século XXII. Ele é capaz de aprender coisas novas por si só, tendo alcançado o status de mais inteligente que o ser humano. — Europa despejou a informação na lata, e Antony só sabia piscar continuamente, tentando assimilar que a estranheza toda advinda daquela pessoa era porque... Não era uma pessoa de verdade. Mas... Espera aí! Como isso era possível? Ele nem sequer parecia ser sintético. Tinha pele, veias e tudo mais!

O próximo era um jovem um pouco mais baixo, de aparência e estatura normais, cabelo azul em cima e púrpura dos lados. Tinha brincos, alargadores e piercings por todos os lados. Usava sombra e delineador preto nos olhos. Talvez fosse o mais excêntrico, não combinando nem um pouco com o macacão laranja.

— Este é Afiador, nosso soldado da afiação elétrica. Ele vem da Espanha e é ele quem resolve todos os problemas elétricos e eletrônicos aqui dentro. Não sei o que faríamos sem ele. — Apresentou Europa.

Afiador levou a pulseira à boca e falou em espanhol, no que o equipamento traduzia simultaneamente:

— Muito Prazer, sou Santiago, o Afiador.

— P-prazer... — Gaguejou Tonny, espantado, sem entender como aquela tecnologia miraculosa funcionava.

Ao seu lado, um rapaz latino de aparentemente trinta anos, por aí. Este não tinha nada demais, nenhum adereço, nada. Apenas a mesma roupa de látex mega justa no corpo. Ele pegou o braço do Afiador ao seu lado e levou a boca em direção à pulseira do outro para falar. Este falava português:

— Johnny... Quer dizer... Tonny, o meu nome é Roberto, do Brasil. Eu sou só o administrador de recursos, faço a parte burocrática e de estoque de alimentos e combustível. Aqui dentro eu sou conhecido como o “Almoxarifado” ou “Almox”.

A próxima era uma jovem loira de corpo também muito magro, estilo top model. A altura inclusive confirmava isso. Esta carregava no colo uma bacia enorme também metálica, com uma enorme cápsula de vidro por cima. Do lado de dentro, uma plantinha nascendo em um solo árido e vermelho. Talvez fosse uma estufa em tamanho bebê.

— Eu sou Anne-Marie, mais conhecida como Jardineira (Não é um nome que eu normalmente escolheria, mas assim me designaram). — disse ela na própria pulseira. Falava alemão, mas novamente, o aparelho traduzia para o inglês com uma voz personalizada. — Eu sou responsável pela colonização vegetal e plantio de alimento para a terraformação de planetas rochosos com solo quimicamente instável para a vida, como Marte.

E por último, mas não menos importante, um autômato de verdade: uma máquina prateada com formato cilíndrico e rodinhas vagava de um lado para o outro no chão como se possuísse vida própria. Possuía braços de mola que se alongavam, com duas pinças na ponta e a sua “cabeça” era na verdade uma tampa preta com duas luzes azuis que indicavam os olhos e botões brancos mais abaixo, cujo design se assemelhava a uma boca eternamente sorrindo.

Europa estava prestes a apresentá-lo quando é subitamente interrompida por Tonny.

— Este robô é o...

— Aspirador. — Disse Tonny. — Aspirador... De... De onde eu tirei isso? C-como eu sabia disso? — Ele começou a se perguntar, muito perplexo.

— Johnny costumava chamá-lo assim. Você costumava chamá-lo assim. — Informou Ásia.

— Eu? — Antony ainda não era capaz de acreditar em nenhuma só palavra que saía da boca (ou melhor, da pulseira) daquelas pessoas.

— Ele se lembra! Ele se lembra de mim! — O robô não precisava de tecnologia além da própria para traduzir seus pensamentos. Ele falava inglês normal e fluentemente, com uma voz metálica.

Ao sentir-se lembrado, Aspirador começou a girar e girar pela sala, como se estivesse verdadeiramente... feliz. Como se máquinas pudessem ter emoções... O robô aspirador de pó era com certeza, cômico, mas melhor do que isso... Capaz de expressar sentimentos.

Antony olhou para todos eles, um por um, tentando reconhecer um rosto familiar e aparentemente... Já tinha visto todos eles, todas aquelas pessoas de uniformes justinhos, de alguma forma. Só não sabia como. Não se lembrava direito. Mas algo lhe dizia que estava tudo guardado dentro de sua cabeça, bastava um empurrãozinho para que voltasse à consciência. Como se estivesse na ponta da língua.

E por um momento, esqueceu-se completamente de tudo o que sonhara.

— Pessoal... Eu não sei se estou preparada... — Europa disse aquilo quase chorando. O que havia de errado? — Eu... Eu preciso me apresentar, só falta eu, afinal. Bom... O meu nome é Europa Mbeki, Capitã da frota interestelar de exploração de exoplanetas.

— O que? — Perguntou Antony, confuso.

— Para falar a verdade... Nós não estamos na base interestelar da ONU, estamos a bordo da Calisto Exploration, esta belezinha aqui. É a nave mais rápida que o ser humano já construiu, de 0,059% a 0,078% a velocidade da luz só com o combustível nuclear. Estamos... Ou melhor, estávamos a caminho da colônia em Marte e... — Ela disse tudo aquilo sem rodeios e no final, hesitou. Estavam indo para Marte? Era sério mesmo?

— Nós estamos... No espaço? — Perguntou Antony incrédulo.

— Tem mais uma coisa que você precisa saber... Nós... Nós estamos perdidos. Não em espaço, mas... Em tempo. — Informou Europa, visivelmente preocupada. — Talvez seja muito para você processar, mas... Quando deixamos a Terra estávamos em 2133, Século XXII. Talvez estejamos muito mais distantes agora do que imaginávamos.

— Tu estás tentando me convencer de que eu dormi por... Sei lá? Uns... Duzentos anos? — Perguntou Tonny, dando risada.

— Cento e Oitenta e Seis, para sermos mais exatos. — disse a réplica de Europa, Ásia, fazendo os cálculos.

— Mas talvez tenha sido mais... Muito mais. Nem sequer imaginamos o quão longe andamos no espaço-tempo depois que atingimos a velocidade da luz. — Informou a Capitã.

— Esperem, esperam! Isso é muita informação para a minha cabeça! — Antony fez um gesto de pare com as duas mãos simultaneamente, cessando a todos. — As senhoritas afirmam que eu dormi por quase dois séculos, que estamos no espaço indo para Marte e de repente atingimos a velocidade da luz e agora estamos totalmente perdidos no tempo?

— Basicamente, sim. — disseram Europa e a irmã ao mesmo tempo.

— Querem que eu acredite que esses dois aí — Apontou para Albino e Aspirador — são autômatos de verdade... E que todos vocês descendem de países diferentes, mas possuem tecnologia que traduz as suas falas para a minha língua?

— Sim. — Disse a Jardineira.

— E querem me dizer também que Ásia é clone de Europa, as irmãs continentes, e que nós estamos em um disco voador e que  já há uma colônia humana vivendo em outro planeta?

— Sim. — Confirmou Almox.

— Está bem, eu acredito. — Disse sinceramente Tonny, deixando todos boquiabertos. — De alguma maneira, eu não sei como, sinto que estão dizendo a verdade. É como... Como se eu já tivesse vivido isso. Só que... Eu não vivi. É como... Como se a minha cabeça confirmasse tudo o que vocês disseram, como se ela estivesse programada para acreditar em tudo isso.

— Veja por si mesmo. — disse Europa, que apertou um botão e uma janela se materializou no meio do branco, exibindo uma escotilha de vidro cujo lado de fora mostrava nada mais nada menos do que o espaço de pertinho.

— Incrível! — Exclamou Tonny, quase que sem palavras.

— E tem... Tem mais uma coisa. Talvez essa seja mais difícil de você acreditar... — Europa se abaixou e tirou de debaixo da maca de Antony um enorme espelho, colocando-o na frente do rapaz.

Tonny entrou em estado de choque. A pessoa refletida no vidro não era ele. O menino que antes era magrela, cabelos negros e espevitados, narigudo e sem nenhum senso estético agora era loiro, com fios de cabelo quase brancos em um corte buzzcut, rente à cabeça, musculoso, de olhos verdes e duas cicatrizes no rosto, uma cobrindo o olho esquerdo e a outra no lado direito do lábio superior. Exatamente como o cara nos seus sonhos. Exatamente como... JOHNNY!


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