Exaustão por Grito (1)

Aqueles dias de paraíso foram também dias de inferno
A fantasia repousou como em um sonho
E meu amor se perdeu nesse labirinto de oportunidades,
Oportunidades vazias
Águas que vêm e que vão
Corrompidas, grossas e sujas
As quais a sede te obriga a consumir
As cores se confundem num espectro cinza e bege de decepção
Estamos mesmo nos afastando?
Quanto mais eu corro, mais secos se tornam meus pulmões
Eu engasgo e grito por uma centelha de vida que esperneia bem lá no horizonte
Mas recebo uma paulada como resposta para me contentar com muito pouco
Aprendo a me reerguer depois de tropeçar
E aprendo a tropeçar depois de me reerguer
Nuvens carregadas transformam a paisagem
E a tempestade é tinta que mancha a cidade
O vendaval me destrói como quem chuta cachorro morto
Mas eu já não busco um porquê
Como todo texto anotado às pressas atrás de um guardanapo
eventualmente eu acabo ficando
Sem espaço para me expandir
Alguém trabalha
Eu faço as contas.
Quando o esforço de outrem me nutre
E a fome grita me fazendo implorar por mais
É aí que me encontro
Nesta terrível prisão de carne
Impedido de ser quem eu posso ser
Impedido de voar como posso voar
Não tenho mais idade para ser um fardo
Eu já não uso fraldas há um bom tempo
Mas o castigo eterno parece se arrastar
Ao passo em que a vida passa correndo.
Eu tento me ajustar,
Mas saio correndo.
Eu estou morando em meio ao caos
E não me conformo em acender a luz para conferir se em meus pés, calço os mesmos sapatos
Eu pio de dentro do ninho como um saco sem fundo
Só que barco parado eventualmente afunda
A vida me colocou no timão
Só me esqueceram de avisar
Ou talvez eu tenha me recusado a receber esta informação
Tarde demais. Tarde demais...

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