NAÏVE RØSAEL (Série)

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”
— Simone de Beauvoir em O segundo Sexo (1949)


"NAÏVE RØSAEL" é uma série de obras de autorretrato conceituais na linguagem do desenho, flertando com o surrealismo e a arte naïf ao mesmo tempo em que aborda temáticas de gênero, em especial, a teoria Queer mediante da percepção deste que vos escreve.


O Conceito:

Dizem que um artista jamais deve explicar a sua arte, pois direciona o olhar do leitor, interferindo em sua percepção primeira. Mas aqui, utilizarei de alguns argumentos e referências bibliográficas para justificar o que foi feito, como foi feito e por que foi feito.


A Palavra "Naïve": Vem do francês e significa inocente ou ingênuA. Sim, com "a", pois se trata de um adjetivo feminino, questionando a construção ou convenção social de gênero e indo de encontro às asas de fada vistas em grande parte das obras. As fadas são seres mitológicos com frequência retratados como femininos, senão na maioria das vezes, embora Røsael claramente seja um indivíduo do sexo biológico masculino, dada as genitálias à mostra, indo ao encontro do que diz a teoria queer: que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de um construto social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, antes formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais..

O masculino de naïve é naïf, o que também é remete à arte naïf, marcada pelo desconhecimento ou recusa das regras acadêmicas ou clássicas de composição e técnica, incluindo uso de proporções anatomicamente corretas e perspectiva espacial tridimensional. Está ligada ao autodidatismo. O artista naïf quase invariavelmente não aprendeu com ninguém, ou pelo menos nunca numa escola formal de arte, mas descobriu sozinho uma forma de expressão pessoal. A arte naïf também é caracterizada pela originalidade e espontaneidade, sendo que o artista naïf tem uma linguagem plástica que é só sua, inconfundível, algo que tento criar nesta série: um "estilo único".

Embora eu utilize certas estruturas formais estudadas academicamente, tal como o pontilhismo, as hachuras e as estamparias, faço isso de forma totalmente intuitiva, ou seja, sem me preocupar em errar. Sem prover tal técnica "adequadamente" conforme o padrão acadêmico exige.


O Nome "Røsael": De "Rosane" e "Rafael", nome daqueles que me deram a vida. A fusão de ambos os nomes simboliza a origem da vida, a origem deste organismo que se porta como artista. Ademais, nomes de anjos (seres mitológicos frequentemente referenciados nas obras que compõem a série) geralmente terminam com "-el", vide Miguel, Gabriel, Uriel, Cassiel, Salatiel, entre outros...


O Nu: Além de uma forma de valorizar minha própria silhueta, com curvas deveras questionáveis diante do padrão de beleza masculino imposto pela sociedade no século em que vivo, serve também como uma forma de auto apreciação, em especial com relação às "mamas", parte do meu próprio corpo ao qual geralmente tenho aversão, mas que aqui, desenhadas e trabalhadas da maneira que são, ajudam-me a aceitar melhor a casca onde habito.


Horror ao Vazio: A ideia de preencher exageradamente as formas e o fundo com grafismos, hachuras "mal feitas" e pontilhismo vem inicialmente da exposição da excentricidade presente em minha personalidade, do querer se mostrar e ser mostrado, do adornar-se, do tentar atrair olhares. Também indica, no entanto, um horror ao vazio tanto literal (quando estamos falando da composição em si) e metaforicamente (quando estamos falando do sentimento de vazio existencial).


As Asas: Para Voar... Símbolo de Liberdade. Røsael é uma personagem criada a partir da auto percepção de quem eu sou, enquanto artista, enquanto ser humano. Aqui, no entanto, as asas também adquirem outro significado: enquanto asas de borboleta, da fragilidade dita exclusivamente "feminina", da sensibilidade, do saber sensível, da poética e da arte de que me alimento todos os dias; já enquanto asas de anjo, da inevitabilidade da queda do paraíso, do julgamento, seja externo, seja interno. Da condenação e da redenção, da conexão com o Universo enquanto força maior e do desejo de levantar voo, rumo a um mundo menos doloroso de se viver.


Preto e Branco: É tudo ou nada. Viver é intenso, pelo menos para mim. É muito, muito bom, e muito, muito ruim. É muito, muito feliz, e muito, muito triste. A vida é contraste: uma hora se está por cima, outra hora por baixo. E a escolha de não utilizar cores aqui reflete esta angustiante intensidade com que vivencio meus sentimentos, numa busca por sublimar a dor e o desejo, transformando-os em algo concreto, físico, ao tirá-los de dentro de mim através da ponta de uma caneta técnica (nanquim).



RØSAÉIS ELEMENTAIS (5)

Trata-se de uma "sub-série" dentro de NAÏVE RØSAEL que aborda a multiplicidade de estados de espírito do artista através dos elementos da natureza segundo a ciência medieval: o fogo (da iluminação), a água (da fluidez), a terra (da firmeza), o ar (do preenchimento) e o éter (do que está para além). Questiona as relações de gênero e da fragilidade masculina, do sentir poético e do saber sensível. Do conectar-se a palavras, desenhos, pinturas, obras de arte no geral e, não menos importante, do saber colocar-se no lugar do outro.







ANJO RØSAEL (2)

Trata-se de uma "sub-série" dentro de NAÏVE RØSAEL que aborda a auto crítica, a auto condenação e a percepção da própria imagem.




RØSAEL POR DENTRO (1)

Trata-se de uma "sub-série" dentro de NAÏVE RØSAEL que aborda a imposição das emoções sobre o corpo, da imprevisibilidade e da falta de controle.



ESBOÇOS E DESCARTES (1)

Apenas esboços e obras descartadas da grande Série NAÏVE RØSAEL.





Referências:

D'Ambrosio, Oscar Alejandro Fabian. Um mergulho no Brasil Naif: a Bienal Naifs do Brasil do SESC Piracicaba: 1992 a 2010. Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2013, pp. 12-18

Grochoviak, Thomas. Pintura naïve. Institut für Auslandsbeziehungen Stuttgart, 1988, pp. 6-15

BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, 1990.

Machado, Jacivaldo Gomes. Pintores e pintoras Naïf no Museu de Arte da Bahia e no Museu de Arte Moderna da Bahia. Universidade Federal da Bahia, 2017, pp. 20-50

Rimsa, Charly. "Naïve art". Encyclopaedia Britannica online.

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