A Era das Espaçonaves — Capítulo 02

A ERA DAS ESPAÇONAVES

Capítulo I1 – Europa conta a Verdade

 

Antony acordou-se meio grogue e as memórias voltaram de uma só vez. Ele sentiu um aperto na garganta, quase como se uma mão fantasma se materializasse e o esganasse. Foi quando suas bochechas ficaram mais quentes, e as lágrimas de desespero transbordaram pela face. Ele agora habitava um corpo que não era o dele. Como isso parecia ser possível? Ele só queria ir para casa... Para sua pobre casa.

E pensar nela, não ajudou.

Tonny começou a relembrar do sonho que tivera de seu pai e seus irmãos, matando seu corpo já sem vida. Lembrou-se da comida que a Sra. Smith preparava com tanto carinho e das noites e madrugadas a fio observando as estrelas no laboratório do esposo dela.

Lembrou-se de toda a sua vida num piscar de olhos. Era tudo tão vívido, tudo tão real.

Mas assim que abria os olhos, olhava ao seu redor... Para aquelas sinistras paredes que projetavam luzes brancas como lâmpadas... E de repente, aquilo também pareceu tão vívido e tão real.

Mas... O que era real? Sua pobre vida como Antony ou a situação no qual se encontrava, supostamente perdido no espaço sideral com uma equipe de pessoas vestidas de laranja? Antony começou a se questionar se aquilo estava mesmo acontecendo ou se estava preso em um pesadelo. Talvez estivesse em coma, como no maldito sonho...

Ou talvez já tivesse falecido e estava, enfim, vivendo sua sonhada viagem espacial, coisa que imaginava todos os dias enquanto observava a luz das estrelas e das infinitas possibilidades de planetas a elas conectados pela força da gravidade, assim como a Terra estava para com o Sol.

A ideia de morte estava longe de ser aceita pela mente atordoada e perplexamente machucada de Antony. Ele era muito novo e muito saudável para ter morrido de uma hora para a outra, sem nenhum esclarecimento. Não. Isso não podia estar acontecendo. Não agora, que sua vida estava se encaminhando.

E foi nessa sopa de sensações inebriantes e alucinadoras, que ele começou a gritar em desespero, berrando, implorando para compreender, bem no momento em que tomou um susto, chamando-o de volta para a realidade, qualquer que fosse.

— Você dormiu mais um dia inteiro. — disse a voz fria e indiferente da mulher que o conduzira àquela experiência traumática: Europa. Antony nem sequer tinha percebido a presença dela, sentada ao lado de sua cama enquanto dormia.

            — O que é que está acontecendo? Tira-me daqui, tira-me daqui! — Implorou Tonny pela bondade da senhorita, engasgando-se entre soluços e mucos. Ele berrava com todo o fôlego de seus pulmões sob a pesada sensação de que havia chegado ao fim e não tinha mais solução. Vê-la o fez ter um desequilíbrio mental e fisiológico, o enjoo subindo-lhe as paredes do estômago.

            Antony inclinou-se para a beirada da cama e vomitou, enquanto Europa permaneceu rígida e imóvel no banco do outro lado da cama, sem piscar nem esboçar qualquer reação. Tudo muito... Profissional.

            — Eu vou lhe contar toda a verdade. — disse ela, enquanto Antony gritava e limpava a boca com o punho.

Levou um tempo para Antony Carter se acalmar. Ele só ficou mais confortável depois que uma das mãos de Europa, despida de luvas, tocou seu ombro e o empurrou rispidamente para a posição horizontal novamente, forçando-o a ficar deitado.

— Você vai se calar e ouvir tudo com muita atenção! — Ameaçou ela, com um a voz rude e de muita frustração. Ela estava chateada com ele. — Se você se recusar a ouvir, eu vou ser obrigada a fazer você-sabe-o-que, Johnny!

Mas era aí que ela se enganava. Aquele não era Johnny. Era Tonny. E ele não fazia ideia do que ela estava falando.

Europa era fria e intimidadora, de um olhar calculista. Mas por incrível que pareça, sua natureza extremamente bela e exuberante chamava a atenção de Antony e apesar de parecer tudo tão novo e tudo tão estranho, ele sentia que podia confiar nela, que ela lhe falaria a verdade, sempre.

Antony tentou engolir o choro. Foi a tarefa mais difícil de sua vida inteira, porque enquanto tentava fazer isso, seu peito enchia-se de fogo ao invés de ar, e seus olhos encharcavam como pântanos. A garganta seguia apertada pelas mãos invisíveis, mas dessa vez a pressão e a intensidade eram tantas que a impressão era de que espinhos estavam brotando e alfinetando a parte interna de todo o pescoço, gerando uma angústia extremamente profunda aliada ao medo, à vontade de fugir a ignorância frente ao desconhecido.

Todo mundo acha que pelo menos uma vez na vida já se sentiu verdadeiramente triste e com medo, com vontade de desistir e sem razões para voltar atrás, com essa intensidade. Mas era diferente. Era pelo menos dez vezes mais triste e mais apavorante do que isso. Qualquer que fosse o desfecho daquela história, Antony nunca mais seria o mesmo. Nunca.  Aquela imagem, do homem loiro e cheio de cicatrizes pelo rosto ainda o atormentavam, e olhar para baixo, para o corpo dele no lugar do seu... Era extremamente revoltante e fora do alcance de sua compreensão.

Mas ele foi forte.

Antony respirou profundamente, por mais que aquilo o matasse por dentro, e lutou contra sua própria sombra para poder manter a sanidade.

— Está melhor? — Perguntou Europa, pela primeira vez naquele dia parecendo um ser social.

— Não. — Poxa, a resposta era imediata e óbvia. Quem estaria bem sob a perspectiva do desconhecido, em uma vastidão de desesperança e falta de futuro? Antony não sabia onde estava, o que fazer, o que não fazer... Que caminho seguir... Antony estava abalado em um profundo estado de sono. Era como se estivesse dormente perante as coisas da vida, só assistindo a tudo acontecer com ele, sem nem ser capaz de dizer o que era melhor para si. Não sabia mais nem quem ele era!

— Foda-se! — E acredite ou não, essa foi a resposta sem nenhum tato ou noção de psicologia, dada por Europa ao pobre rapaz, agora em um estado de enfermo. Europa respirou profundamente e dentro de sua cabeça, transmitia para si mesma uma mensagem de aceitação: O que aconteceu, aconteceu. Está no passado e não pode ser mudado, aceite. — Vamos recapitular. Você se lembra de tudo o que a gente te disse?

— Os senhores... — Antony chorava agora em silêncio, as lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não emitia nenhum som. Tentava conversar normalmente. — Disseram-me que estamos presos em uma nave espacial (Qual o nome mesmo?) Disseram-me estarmos todos na velocidade da luz, mas... Isso não faz sentido! Como é possível?

O pior é que isso tudo fazia sentido para o cérebro de Antony. Foi nesse momento que ele percebeu que o conceito de alma realmente se aplicava. Enquanto sua Alma de Tonny dizia que ele deveria voltar para casa e impedir que seu verdadeiro corpo fosse sufocado até a morte, seu cérebro material e perecível, de Johnny, o dizia que todas aquelas informações eram verdadeiras, como se aquele híbrido de pessoas já tivesse viajado pelo espaço realmente em uma oportunidade anterior e até mesmo na circunstância atual.

— Não sabemos... — disse Europa, em um tom vazio quase de como alguém que já perdeu todas as esperanças.

Foi quando a cabeça de Antony se inclinou para o lado (ele achou que vomitaria de novo) e seus olhos passaram a admirar as paredes de luz. O que diabos era aquilo?

E quase como se lesse sua mente, Europa explanou:

— Condensado de Bose-Einstein, o quinto estado da matéria. — Ela pigarreou por um momento e relembrou de todos os conceitos de física que pareciam úteis a ser explicados para um acamado sem nenhuma noção de espaço e tempo. — Todo mundo sabe que a matéria possui quatro estados básicos: sólido, líquido, gasoso e plasma, correto?

Antony confirmou com um aceno de cabeça. Até aí, tudo ok.

— O chamado condensado de Bose-Einstein, um superfluido comumente referido como “luz líquida” é o que podemos considerar como o quinto estado da matéria. Estas condições geralmente só podem ser reproduzidas em temperaturas bem próximas ao zero absoluto, o que é mais ou menos -273ºC, mas elas podem ser perfeitamente reconstituídas artificialmente à temperatura ambiente com auxílio de polaritons e... Enfim, isso não vem ao caso agora. O fato é que o condensado é um superfluido que recobre todas as paredes internas da Calisto e é um produto direto de nosso combustível, também ajudando a proteger contra um tipo muito específico de radiação aqui no espaço.

Parecia ser demais para a mente abalada de Antony absorver, mas pareceu o mais didático o possível.

— Superfluido? — Perguntou Antony, perplexo. Então aquelas paredes de luz eram na verdade o quinto estado da matéria?

— Isso. O Condensado de Bose-Einstein é um superfluido superfrágil, pois qualquer interação com o meio externo é capaz de aquecê-lo acima do limite de estabilidade e torná-lo um gás como qualquer outro, perdendo assim todas as suas propriedades.

— E como...? — Mais e mais perguntas acumulavam-se na mente de Tonny.

— Mecânica Quântica não é a minha especialidade, mas o que eu posso explicar é que o Condensado de Bose-Einstein possui como característica a fluidez espontânea para fora do seu recipiente, por possuir fricção e redução de energia mínimas, mas o mecanismo de rotatividade e as paredes termodinamicamente preparadas para receberem o condensado sem transformá-lo em um gás isótopo de Rubídio são um dos privilégios de se estar navegando em uma frota espacial construída pela NASA. Dizem que os estudos sobre o Condensado começaram na década de 1920, o que quer dizer que mesmo na sua época, ele já vinha sendo teorizado e calculado para funcionar em temperatura ambiente. — E com uma pausa mais do que merecida, Europa deu-se ao luxo de perguntar — Até agora, está entendendo tudo?

Vendo que ele ainda teria dezenas, talvez centenas de outras perguntas a começar pela primeira palavra do primeiro parágrafo dito por Europa, ela nem deixou que ele respondesse, e continuou explicando:

— Como você pode ver... Zeus! Nem isso você percebeu! Estamos simulando gravidade aqui dentro. Mas essa força que nos atrai para o chão não é uma força gravitacional normal. Não tem planeta nem nada para nos puxar em direção a si, aqui em cima. Então simulamos a gravidade através de aceleração constante, o que parecia ser impossível com a tecnologia humana da minha época, imagine com a da sua! Mas um grupo muito inteligente de cientistas inventou uma forma de simular isso criando uma nave giratória e eis que surge Calisto!

— Uma nave giratória? Como um... Disco Voador? — Perguntou Antony.

— Você sabe o que é um disco voador? — Perguntou de volta, Europa. — Zeus! Eu sabia que o incidente da queda em Rosewell, no ano de 1947, tinha se popularizado na época, mas não sabia que era algo tão popular assim.

Claro que Antony conhecia o caso Rosewell, esse era particularmente uma das razões pelo qual ele se sentia tão apaixonado pelo universo, mas apenas uma. Ele era muito cético nestas questões de alienígenas e vida em outros planetas, muito porque na sua época, nenhum exoplaneta tinha sido descoberto ainda, isto é, nenhum planeta em um sistema planetário que não o sistema solar. Isso só havia acontecido cerca de quarenta anos depois.

— Como eu ia dizendo, os cientistas criaram uma nave giratória. Sim, como uma disco voador. O objetivo é simples. Se você pegar um copo (Sabe o que é um copo, não é?) com água e girá-lo no ar, sem derrubar, verá que o líquido que há dentro irá aderir às paredes internas, correto? Pois bem, é o mesmo processo físico. A nave gira e nós ficamos grudados às paredes. Parece bem ruim, e acredite: está há anos-luz de ser perfeito, mas é o melhor que conseguimos, por isso, tudo é parafusado ao “chão” e isso também explica as amarras na sua cama. Às vezes é difícil manter-se grudado às paredes. E sobre o que estávamos falando mesmo? Ah, sim! O combustível!

Quando Europa pronunciou aquela palavra, o já mais calmo Antony, começou a se enervar de novo. O processo conhecido como fissão nuclear foi descoberto por Otto Hahn e Fritz Straßmann em Berlim, no ano de 1938, e qualquer nave espacial parecia exigir que sua fonte de energia fosse nuclear, o que traz altos riscos para a saúde humana, devido a enorme quantidade de radiação liberada no processo.

Mas ele foi acalmado novamente por um explicação mais branda da moça.

— Luz. Utilizamos a luz das estrelas através de captores do lado de fora da nave, que é revestida com espelhos que ao invés de refletirem a luz distante e pálida das estrelas, as amplifica em intensidade e depois as reduz de velocidade, mandando essa luz “lenta” para dentro, onde é absorvida por nossos motores, é processada, e então ganha sua velocidade de novo, sendo expelida na forma de lasers. A luz é necessária como combustível porque é a única coisa rápida o suficiente para girar uma nave espacial sem se acabar em questão de segundos. Nem o maior estoque de Urânio da Terra parece ser interminável, a luz por sua vez, sim.

Fazia sentido, mas ainda era uma loucura do qual o jovem amante de astronomia “primitiva” não conseguia compactuar.

Ciente da inconsistência de compreensão de Antony, Europa nem sequer deu bola e prosseguiu explicando, da melhor forma possível:

— Os resíduos e resquícios radioativos são convertidos em Condensado de Bose-Einstein, mas não se preocupe! Calisto está em totais condições para manter a vida humana por pelo menos mais... Três meses. Essa é a quantidade do nosso estoque de comida.

Antony enraiveceu.

— Primeiro você me diz que eu estou preso em uma droga de viagem espacial e agora quer me convencer a não me preocupar, sendo que só tem três meses de comida?! VÁ PRO INFERNO!

— A sua sorte é que a religião católica não é a mais praticada na Terra desde 2050, quando o Islamismo conseguiu superar a taxa de praticantes. Eu não acredito em inferno.

— Você é do Islã? — Ele perguntou cada vez mais confuso e cada vez com menos respostas.

— Eu não disse isso. — Europa rebateu. — Agora, por favor, faça o favor de se deitar de novo! — Antony já estava de pé, tentando manter-se equilibrado na falsa sensação de gravidade, supostamente gerada pela rotação da Calisto.

— Explica-me o que está a acontecer com meu corpo! — Exigiu Antony com aquele sotaque ortograficamente correto de alguém que viveu na primeira metade do século XX.

Europa suspirou. Como explicar para ele?

— Física Quântica... Já ouviu falar? — Questionou Europa, sem a mínima pretensão de obter um sim como resposta.

— Já. — Mas Antony era mais inteligente do que parecia e a desafiou. — A mecânica quântica surgiu na década de 20. Trata-se de uma suposição de que o universo atua em diferentes escalas, com diferentes leis. Pelo menos porque não conseguimos unificar as leis e acontecimentos do universo macroscópico com o universo do tamanho de átomos, que parecem voltar para o passado, mudar de acordo com a perspectiva de quem os observa, atravessar paredes e fazer uma série de coisas que objetos e corpos muito maiores, não conseguem. Quase como... Se fossem dois mundos diferentes!

A moça regalou os olhos. Definitivamente, aquele não era Johnny. Ele não era tão inteligente assim. Talvez este fosse o único consolo de tê-lo perdido...

— Então você sabe... O que mais você sabe?

— Só. — Respondeu Antony, que não conseguia acreditar em nada que advinha da revolução quântica. Simplesmente os cálculos dos movimentos de átomos não fechavam com os cálculos das coisas macroscópicas e de repente a lei da gravitação, que é uma coisa muito óbvia e ao mesmo tempo surpreendentemente maravilhosa, descoberta por Isaac Newton, não parece surgir efeito nenhum ao nível de escala de partículas infimamente minúsculas como prótons, nêutrons e elétrons.

— Muito antes de a física quântica ser mistificada e transformada em artigo de revistas e blogueirinhas exotéricas psicodélicas, ela foi formulada como uma teoria que estuda o comportamento de átomos. Só que esse comportamento difere muito do das coisas macroscópicas, porque um elétron pode ser uma partícula tangível, como por exemplo, uma pedra, e ser uma onda que se propaga pela matéria ao seu redor, tal como o som, que a gente sabe que existe, mas não vê nem sente nos tocar, a gente só escuta. Isso se chama “Dualidade Onda-Partícula” e é um conceito bastante utilizado para explicar a luz, que pode ser tanto um quanto o outro. Tanto “material” como um “navegante pela matéria”.

— Onde é que isso vai chegar? — Questionou Antony, que agora convertia toda a sua frustração e mágoa em raiva. Ele não podia acreditar em nada do que ela estava dizendo. Agora ele sentia que estava sendo enrolado e que ela não queria ir direto ao ponto, mas se preciso fosse, ele a obrigaria a falar.

— O avanço da robótica... Você sabe... O Aspirador... Ele é um robô... Meu Zeus! Como eu vou explicar isso?

— Um autômato, você quer dizer?

— Sim, um androide. Um robô com todas as faculdades humanas virtualmente programadas em um sistema eletrônico de inteligência artificial.

Os termos do Século XXI não pareciam surtir efeito na mente de Antony. Europa não sabia como explicar a tecnologia subsequente a um leigo.

— O que foi que o Aspirador fez? — Perguntou Antony.

— Ele não fez nada! Você. Você fez, Johnny!

Europa apontou para Antony e de repente, ele não se sentia mais amistoso próximo a ela. Era como se ela estivesse jogando a culpa por cima dele, ou mascarando alguma coisa.

— Pela milésima vez, eu não sou o Johnny! Meu nome é Antony Carter!

— Sim, tenho que concordar! O seu nome é Antony Carter, mas também é Johnny Gregory Thunder! E sabe-se lá quantos outros nomes você teve em suas incontáveis existências!

— O que? — Tonny não sabia mais nada.

— Nos últimos três anos antes de partirmos da Terra, isto é... Em 2130, o ser humano dominou uma tecnologia realmente... Perigosa. Duas crianças, um garoto de dezesseis e uma menina de dezenove descobriram que a mente humana não se desliga completamente após a morte. Eles descobriram o que batizaram como DNA quântico, e nada mais é que um código semelhante ao DNA, só que em escala quântica, armazenando nada mais nada menos do que... Alma.

— Espera aí! Está de brincadeira comigo! Quer dizer que duas crianças comprovaram a existência da alma sozinhos?

— Sim, Kevin Quantics e Sophia Naazhar. Ele tem um canal no NewTube e ela tem Síndrome de Down. A humanidade avançou muito em termos de aprimoramento intelectual após as primeiras décadas do século XXI e a popularização da internet... Ah, do que é que eu estou falando? Você não deve nem imaginar o que é internet!

O tom de Europa pareceu esbanjar superioridade e isso doeu no peito de Antony. Literalmente. Era como sentir uma pontada de mágoa.

— Fato é que eles conseguiram deduzir uma sequência de DNA quântico e chegaram à conclusão de que depois que a pessoa morre, esse DNA viaja pelo universo através de ondas/partículas intangíveis e se instalam em um novo corpo, carregando a progressão moral e espiritual do indivíduo e até algumas memórias... E assim, sucessivamente, infinitamente. As antigas religiões chamavam isso de Reencarnação. A comunidade científica, envergonhada por ter batido o pé por anos e anos, resolveu renomear para Progressão Quântica, para parecer menos feio o pé de guerra que se instaurou entre laboratórios e igrejas durante séculos.

— Você só pode estar brincando...

— Eu não estou, Johnny. Você se ofereceu para restaurar o seu antigo DNA Quântico porque descobrimos através de sessões de hipnose regressiva para curar o seu trau... — Ela falhou ao dizer a palavra “trauma”. — Descobrimos que a sua vida passada tinha conhecimento das estrelas, coisa que você carregou até hoje pelo seu DNA Quântico, como característica de sua individualidade como ser. E descobrimos também que você fez uma descoberta muito importante naquela época, uma descoberta que pode ser importante para o nosso retorno a Terra.

— O que? O que foi que eu descobri? — Perguntou Tonny, sem acreditar em nenhuma palavra do que ela estava dizendo.

— O seu corpo continua sendo o de Johnny, as suas memórias vividas enquanto Johnny continuam armazenadas no seu cérebro... O problema é que enquanto Johnny você nunca entendeu de astrofísica nem de estrelas, nem de nada. Você era... Especialista em geologia e atmosfera de planetas. E o nosso melhor piloto, devo dizer. De resto, nada sabia! Então você se ofereceu para restaurar o seu DNA quântico da época em que vivia no século XX para que pudéssemos acessar informações sobre como voltar pra casa!

Então era sobre isso que se tratava? Uma transferência da consciência do passado, de quando Johnny era Tonny para esse corpo bombadão e cheio de cafeína nas veias? Não... Antony se recusaria a acreditar no que quer que fosse dito por aquela mulher. Ele nem a conhecia. Poderia ser um experimento do governo ou até pior... Poderia estar sendo utilizado como cobaia por alienígenas de verdade: seres humanos de outros planetas!

— Uma piada! UMA PIADA! — E num surto psicótico, sem nem pensar duas vezes, Antony se levantou de súbito da cama e empurrou Europa para trás com muita força, fazendo-a cair e bater com a cabeça.

Ele saiu correndo dali.

Olhou para as paredes, que realmente pareciam um “superfluido” de luz e para sua sorte, uma porta se abriu. Graças a Deus, ele se lembrava do lugar onde a porta se abria. O quase-líquido se separou e abriu a passagem para ele.

Assim que Antony pôs os dois pés do lado de fora, a porta se fechou, deixando Europa para trás e a luz líquida voltou a se unir, até restar apenas uma parede iluminada no lugar que antes era oco.

Agora imagine o coração de um não-atleta sedentário após ser obrigado a correr dez maratonas seguidas. Esse era o estado de adrenalina no qual Antony se encontrava.

O sangue bombeava apenas duas palavras em seu cérebro:

Medo. Fugir. Medo. Fugir. Medo. Fugir.

À sua frente um longo corredor circular de paredes de condensado Bose-Einstein e o piso metálico, talvez alumínio. A única coisa no qual esse jovem atordoado poderia pensar naquele momento de terrível desespero e medo era correr, embora essa fosse uma tarefa muito difícil. Era raro, mas dava para sentir que a nave estava em rotação mesmo e isso atrapalhava o caminhar e qualquer outra movimentação do jeito humano de ser.

Antony prosseguiu naquele corredor pelo que pareceu ser 20 anos, mas na verdade, foram apenas 20 segundos. Ele correu, arfando e brotando suor de partes que ele jamais imaginou que fossem capaz de transpirar, até chegar a um enorme portão metálico, no fim do corredor.

Havia uma tela azul, com um desenho de uma mão humana. Ele nem pensou duas vezes. O cérebro de Johnny sabia.

Tonny colocou a mão por sobre a tela, esperou ouvir um clique de confirmação após o escaneamento ficar completo, e o portal se abriu, revelando o centro de controle de pilotagem da máquina: o volante!

Essa sala era extremamente escura, porque não havia condensado de Bose-Einstein em lugar nenhum ali dentro, a única luz era proveniente de uma tela de alta resolução que funcionava como um visor do lado de fora. E em frente à tela, duas cadeiras mais parecidas com tronos, estando uma delas vazia. Na outra, a alemã Anne-Marie, a Jardineira.

— Johnny! O que aconteceu? Você está encharcado! — Perguntou ela, aterrorizada com o que via. Ele realmente não estava uma cara amistosa e mais parecia um psicopata prestes a matar o primeiro que visse pela frente.

Mas Antony não respondeu nada. Ele estava boquiaberto. Pasmo. Em choque.

Seus olhos fixaram-se na tela, mostrando o lado de fora da nave Calisto. E o que via era simplesmente inacreditável: O Universo!

— Ela... Estava... Estava certa... — Murmurou Antony sozinho, sentindo-se culpado por ter jogado Europa no chão. Agora olhando para aquela enorme tela que mostrava não só um céu estrelado sem nenhuma interferência de atmosfera (o que prejudica, e muito, a qualidade da imagem), mas um colorido que ele nunca havia visto ou sequer imaginado em sua época de estudos no laboratório do Sr. Smith. Era incrivelmente alucinante, uma vastidão de tintas e tons de todas as cores em um preto infindável em um silêncio incrível, quase como um sopro de Deus. A soma de todos os espectros e contrastes que nenhuma tecnologia humana jamais seria capaz de produzir... A perfeição na natureza que nenhuma coisa viva jamais seria capaz de alcançar ou compreender por completo. E ao mesmo tempo que era tão fascinante, era profundamente vergonhoso...

Era real. Tudo aquilo que Antony estava vivenciando era real e agora ele se sentia muito embaraçado por tudo o que disse e fez, sabia.

— Ela estava certa...

— Quem? Quem estava certa? — Perguntou a Jardineira, sem muito entender, achando tratar-se de um delírio do rapaz recém-trazido de volta de uma vida passada.

E nesse exato momento em que a moça de pele muito clara e cabelos muito loiros tentava fazer com que Antony se acalmasse, a porta se abriu novamente, expondo a luz branca do Condensado de Bose-Einstein do corredor externo. Europa estava puta. O frenesi nos olhos dela era algo totalmente esperado numa situação daquelas, mas ver a mulher sempre tão dura e seca (profissional) perder as estribeiras daquele jeito, foi a pior lição que Antony teve que aprender.

Acostumada com o balançar da nave e craque nas artimanhas para simular a gravidade, Europa segurou-se na parte de cima da porta, pegou impulso e deu um salto no ar, voando pra cima de Tonny, chutando-lhe na barriga e fazendo-o cair com um estrondo no chão.

O barulho foi incrivelmente assustador, quase como se o homem tivesse se quebrado todo. Mas por muito pouco, não aconteceu. A gravitação simulada era muito baixa e mesmo um golpe daqueles teve sua força de impacto reduzida devido às condições não-terrestres no qual se encontravam.

A dor, porém, ainda era excruciante. Antony se contorceu todo e urrou, mas respirou fundo até aliviar um pouco e todo sem graça, ele articulou, com muita falta de ar:

— A-agora estamos quites...

Mas a mulher não estava nem aí pra isso. Ao ouvir isso, Europa simplesmente encarou como uma provocação, como o chute que ele tivesse levado não tivesse sido forte o suficiente. Ela se ergueu (tinha caído também, no processo) e o puxou pela gola da roupa de hospital que usava, fechou o punho e preparou um cruzado de direita.

Contudo, naquele exato momento, a porta se abriu de novo, e alguém entrou às pressas, ofegante. Era o espanhol, Afiador. O cara de cabelos azuis e visual gótico trevoso.

— PESSOAL! O GAEN’-HAAR! QUARTO 20/f, SETOR 5!

O olhar dele parecia pesaroso e ao mesmo tempo, com muito medo.

Ao ver isso, Europa imediatamente soltou Antony, derrubando-o de volta no chão.

— Você se livrou dessa, tampinha! Mas foi por muito pouco! — Pronunciou assustadoramente ela, deixando algumas gotículas mínimas de saliva escapar de sua boca e aterrissarem no rosto de Antony no processo.

A Capitã levantou-se rapidamente com seu macacão laranja e correu em direção à saída junta de Afiador e Jardineira. Eles rapidamente desapareceram do outro lado do portal.

Com muita dificuldade e dor, Antony ergueu-se. Seu corpo era maior e mais robusto agora, e isso fazia com que ele tivesse maior aptidão física também. Levantou-se e foi atrás dos outros pela mesma passagem. Estava de volta ao corredor branco circular.

Ele andou pé por pé, com medo de se segurar nas paredes de luz líquida, até chegar à outra extremidade da via.

Havia uma sala também escura do lado de dentro e todos a quem havia sido apresentado no dia que chegou ali, estavam de pé ao redor de um homem deitado em uma mesa como aquela em que Tonny encontrava-se minutos antes.

Havia lágrimas nos olhos de Europa e nos olhos de todos ali, inclusive nos do androide Albino, sabe-se lá como isso podia ser possível. O corpo ainda estava quente, o homem de cabelos muito pretos e vestes como as de Napoleão Bonaparte, só que uns vinte séculos mais avançadas, havia acabado de partir.

— Muito Obrigado. — disse Ásia, a réplica menos nociva de Europa, bem entristecida para o cadáver inerte à sua frente. — Muito obrigado por nos guiar durante esse tempo todo, Mestre.

— Este foi Gaen’-Haar, antigo comandante da Estação Espacial da NASA. Ele estava na base quando algo deu errado e finalmente o encontramos aqui dentro. — Explicou baixinho Roberto, o brasileiro também conhecido como Almox. — De todos os jeitos para se morrer no espaço, embolia é um dos menos interessantes...

— Embolia? — Perguntou Antony.

— Ele ficou preso do lado de dentro da Calisto no momento em que deixamos a Estação Espacial. Com a decolagem, a perna dele foi arrancada e... Ele acabou vindo com a gente. Mas ele não morreu em decorrência deste ferimento. Ele estava sendo tratado. Morreu porque ficou muito tempo em cima da cama, sem fazer nenhum exercício físico. A falta de gravidade faz com que os fluidos e também os órgãos hajam diferente dentro da gente, no espaço. Essa falta de orientação no fluxo sanguíneo tratou de criar vários coágulos ao longo de suas veias e artérias... A embolia. Foi assim que ele veio a óbito.

— Que Deus o tenha... — Disse Antony, que se sentia comovido com a história. Por mais que desconhecesse aquele homem, sentia no olhar dos outros a importância que ele tinha, e é como se a parte física, o corpo de Johnny entendesse isso também. Mesmo sem conhecê-lo como Antony, o jovem agora estava oficialmente de luto.

— O código quântico dele já deve ter vazado a estas alturas... — Disse Ásia.

— Isso quer dizer que a alma dele está vagando pelo Universo, à procura de um novo corpo, de uma nova vida. — Concluiu a Jardineira.

— Foi assim que o idiota do Antony veio a se tornar o meu Johnny. — Praguejou Europa, com uma pitada de ódio e frustração, antes de cair no choro por completo. De repente, a mulher que continha todos os seus sentimentos para si, era tão humana quanto todos os outros presentes.

O que quer que fosse acontecer com aquela tripulação, uma coisa era fato... Estava todo mundo um pouco abalado e sem saber para onde ir, ainda mais depois do que eles mais temiam ter acontecido: a morte do comandante.

— O que vai acontecer com o corpo? — Perguntou Antony, imaginando se as bactérias responsáveis pela decomposição conseguiam se reproduzir no espaço, tal como na Terra.

— Você-sabe-o-que! — disse Europa, com os olhos inchados e o rosto todo bagunçado, entre um soluço e outro.

De repente, todos se viram em uma sala incrivelmente pequena em um clima pesado e finalmente “você-sabe-o-que” fez sentido para Antony quando ele viu o corpo ser embrulhado em um lençol branco e depositado em uma cápsula que imediatamente foi projetada para fora da nave, quase como em um torpedo de submarino, deixando o falecido à deriva no espaço, sem mais tempo para despedidas. Gaen’-Haar estava morto e Johnny Thunder, vivo. Mas o mais estranho disso tudo não era entender que as pessoas podiam reencarnar e que aquele não era o fim definitivo para Gaen’, mas observar o corpo se desfazendo sob a falta de pressurização do vácuo eterno do lado de fora. A consciência de Haar até poderia ser transferida para outro corpo, em algum lugar bastante distante daqui, em algum momento, mas a morte ainda era uma coisa temida e nem um pouco fácil de lidar, assim confirmava o pesar de toda uma tripulação em decadência, de pessoas de diferentes perfis, origens e crenças, sem nenhuma noção do que fazer... Perdidas no meio do nada.


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