A Era das Espaçonaves — Capítulo 03

A ERA DAS ESPAÇONAVES

Capítulo III – Parada Súbita

 

Naquele mesmo dia, Antony viu-se na circular sala de controle, observando Almox e a Jardineira pilotando a gigante Calisto. Quanto mais ele olhava para a tela, maior e mais brilhante ficava o Universo lá fora, como se nunca fosse acabar e talvez este fosse o grande mistério: o nunca-término do espaço-tempo. As estrelas porosas e cheias de vida, nas mais variadas cores, tamanhos e temperaturas, passavam voando bem na frente de seus olhos. Como a radiação espacial e os raios cósmicos pareciam atravessar o casco da nave e mantê-la ilesa, era uma coisa que ele não entendia, e sinceramente, ninguém mais naquele lugar parecia entender.

            — Tudo começou em um dia de verão... — disse Almox com um tom nostálgico, para Antony — Eu estava ansioso, esperando pela resposta. Quando minha mãe abriu a carta, foi uma vitória e uma perda ao mesmo tempo. Eu havia sido aprovado pela academia de astronautas e estava oficialmente de partida para a colonização do planeta vermelho... Marte, a promessa de um novo futuro com o eu do passado... E olha onde estamos hoje! Perdidos. À deriva no espaço.

            — A viagem da Terra até Marte leva cerca de 6 meses (um pouquinho menos, com a velocidade da Calisto), isto porque o planeta está a 55 milhões de quilômetros de distância de casa.  — Explicou a Jardineira. — Era para a gente estar hibernando, assim como o resto da tripulação. Só acordaríamos quando a viagem acabasse, mas um dispositivo de emergência nos acordou antes.

            — Resto da tripulação? — Perguntou Antony, sem saber que havia mais gente ali dentro.

            — A Calisto foi projetada toda em um formato circular, para que pudéssemos (pelo menos precariamente) simular a força gravitacional aqui dentro. Ela possui 1 quilômetro e meio de extensão e seu combustível é a radiação cósmica emitida por raios de luz das estrelas. Nestes mil e quinhentos metros de comprimento, a Calisto abriga diversas salas e seções. Eu sou conhecida como Jardineira por causa desta aqui. — A loira de físico europeu clicou em um botão touchscreen na tela principal e uma imagem de câmera projetou-se no ar, sem precisar de uma tela física para contato.

            Era uma sala cheia de árvores frutíferas enormes, pomares das mais variadas espécies de árvores. E no mesmo espaço, entre uma árvore e outra, enormes caixões brancos, com um design arredondado nas pontas. Era assustador para Antony só de pensar em cemitérios, imagine estar dentro de um, perdido no espaço.

            No que notou a diminuição das pupilas de Antony, Almox explicou:

            — Há cinquenta pessoas, neste exato momento, vivendo encapsuladas na estufa. Oitocentos e cinquenta metros de toda a nave é só a parte do pomar, tendo espaço de sobra para que façamos nossas camas lá. Enquanto a jardineira cultiva estas plantas geneticamente modificadas para aguentarem a acidez do solo marciano, e que funcionarão como fonte de alimento e oxigênio para nós (aliás, estamos respirando aqui dentro tranquilamente só por causa delas), o restante da tripulação dorme. Eles são alimentados diariamente com todas as proteínas e nutrientes que necessitam, e seus músculos são eletricamente estimulados para não acontecer como aconteceu com o Gaen’. A previsão é de que só se acordem quando a gente chegar... em Marte.

            — Espera aí! — interrompeu Tonny. — Quer dizer que existe uma forma de fazer uma pessoa dormir para viajar por longos períodos de tempo no espaço?

            — Sim. Uma sonda é implantada no cérebro para reduzir a temperatura corporal do paciente e induzi-lo a um estado hipotérmico de hibernação. Mas isso é arriscado e não funciona com todo o tipo de gente. — Explicou Almox, com certo entendimento na área. — Europa, por exemplo, é “imune”. Assim chamamos quem não pode fazer este procedimento. Ela, Gaen’ e você são os únicos da tripulação que não conseguem passar pela redução metabólica sem correr grande risco de vida, por isso, estão acordados desde o início da jornada. Uma viagem solitária e enlouquecedora, mas necessária, para toda a humanidade.

            — O grande problema é que só temos mais três meses de sono induzido. — Informou a Jardineira, com um tom sério e cheio de preocupação. Por um momento, Antony acha ter visto a mão dela tremer e falhar sob a pressão da missão no qual estava de responsável. — Se estas pessoas se acordarem e ainda não tivermos chegado ao nosso destino, vai se instaurar um pânico geral aqui dentro e Europa não vai conseguir governar.

            — Quando a nave atingiu a velocidade da luz... — Almox deu uma pausa para engolir bem aqui. — Europa acionou o mecanismo que liberou a todos os que você conheceu na noite anterior, da incubadora. Somos o Pelotão de Emergência, ou seja, mandamos na porra toda aqui dentro.

            — Por favor, Roberto! Isso não é hora para ficarmos discutindo quem manda ou desmanda aqui dentro! — Cortou a Jardineira. — Nós só temos que pilotar.

            — Mas... — Por um momento, os neurônios de Antony começaram a fervilhar. Ele já não sabia mais se o conhecimento advinha do corpo de Johnny ou se de suas memórias da vida como Tonny. — Se estamos na velocidade da luz, como o espaço não está se distorcendo em torno de nós? — Perguntou então, surpreendendo os dois que lhe contavam a história por trás da nave.

            — Nós não estamos mais na velocidade da luz. — disse a Jardineira. — A aceleração subitamente parou e agora estamos perdidos no espaço interestelar.

            — Nós não poderíamos ficar muito tempo na velocidade da luz mesmo. — Comentou Almox. — Nem um segundo sequer, mas o que quer que tenha nos acelerado, nos trouxe para esta área do espaço por um curto período de tempo e depois foi reduzindo a marcha até retornarmos para a nossa velocidade normal.

            — E aí é que está: Não sabemos como isso pode ter acontecido, nem porque viemos parar aqui. O que sabemos é que... — Anne-Marie levantou-se e apontou para mais uma tela holográfica, que surgiu ao seu comando. — Estamos... AQUI.

            E indicou com o dedo sua exata posição no mapa sideral. Constelação de Ursa Maior, uma das 48 constelações de Ptolomeu, e a terceira maior.

            — A boa notícia é que ainda estamos na Via Láctea. — Tentou animar Antony, mas não ajudou muito.

            — Acontece que você... Johnny... Você estava passando por um tratamento psicológico à distância com o nosso sistema de integração de dados e informações com o telescópio espacial Hawking, em órbita da Terra, e foi quando descobrimos, através de uma seção de regressão, que você tinha tido uma vida passada um pouco... Científica e que você estava estudando justamente (que coincidência do caramba!) a constelação de Ursa Maior, mais especificamente o sistema estelar Xi Ursae Majoris ou Alula Australis.

            — Sim, este era o trabalho do Professor Smith! — Confirmou Tonny.

            — Então Europa resolveu te trazer de volta... Quer dizer, era para você, Johnny, continuar se lembrando de sua existência aqui na Calisto, e além das memórias atuais, ter as suas antigas recuperadas... Mas algo deu errado, perdemos o Johnny. Agora você é... Tonny.

            Antony franziu o cenho. Algo não estava batendo naquela história.

            — Este é o risco de se fazer uma lobotomia no meio do espaço! — Falou com um pouco de estresse em suas palavras, Almox. — Mas temos que agradecer. Johnny, você está vivo e são. E pode nos ajudar a entender o que está acontecendo.

            — Que diabos! Como foi que ela achou que fazendo uma cagada dessas a gente estaria mais a salvo? — Praguejou Roberto.

            — Ela tentou. — Disse uma voz que veio de trás. Era Ásia, que agora entrava na sala de comando. — Minha irmã está acordada desde o início, está sendo muito estressante para ela, assim como foi para Johnny. Ele concordou em fazer o procedimento. Para falar a verdade, foi ele quem se ofereceu, quando achou que poderia ser útil de alguma forma para a missão.

            — Burro. — Pigarreou Almox, baixinho, mas ainda assim audível.

            — Melhor do que ficar só dormindo e não tentar. — Rebateu Ásia, que apesar de mais calma que a irmã, ainda tinha o sangue invocado da família.


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