Konan era um twink. Pequeno e magro, você se apaixonaria só de olhar para ele. Aparelho nos dentes, pele lisinha, um jovem adulto com olhar de menino. Fofo, fotógrafo. Ele tinha uma câmera quadrada, arredondada nos cantos, da marca Kodac. Todos ali tinham suas próprias máquinas, cada um com um estilo diferente de fotografia. A dele era essa.
Konan não ligava para o que a sociedade pensava. Saíra em segredo com um par de garotos e juntos, os três mantinham um relacionamento. Mas naquela noite, instigado por sua bravura, ele quis oficializar na frente da escola toda com um beijo triplo. Sabe-se lá porque cargas d'água, Konan acabou se irritando com os outros dois. Não concordava com a atitude deles. E então, ao pular de cima do platô aos fundos da instituição de ensino, adentrou no bosque adjunto.
Quando voltou, Konan estava diferente, sem sua câmera. Ele recebeu uma mensagem de um anônimo pedindo para que fosse até um depósito no vilarejo mais próximo. A câmera estaria lá, em uma mochila. Mas o local estava abandonado e era noite. Essa pessoa atraíra Konan para uma armadilha. O menino saiu correndo de lá, sem se preocupar com sua câmera. Agora, tudo o que ele prezava, era a sobrevivência. Konan queria viver.
Correu pelas matas, para longe, mas sentia-se enormemente perseguido. Ele acabou deixando a escola cada vez mais para trás, cada vez mais distante. Ele então encontra, sobre um planalto, um bando de pessoas zumbificadas. Vivas, mas errantes como as criaturas de filmes de terror. Ele iniciou contato com uma velha que carregava um facão. Ela dizia para ele não ter medo do perseguidor, que ele lhe daria armas. Mas foi aí que Konan se assustou.
Ele correu mais ainda, daquela gente esquisita, deformada. Até que ele chegou a um posto de gasolina, ainda de noite. Ele tentou chamar a atenção de um pequeno jipe ou algo assim, que ali abastecia. Mas o motorista não o notou ou, pelo que se sabe, não quis notá-lo. Konan estava desesperado. Bateu em uma salinha onde haviam soldados, que tiravam sarro dele. Praticamente dois dias haviam se passado e ele estava sujo e totalmente descredibilizado. Eles riam do mesmo e diziam que ele estava mentindo. Escárnio.
Mas a história de Konan começou a mudar o semblante dos soldados para uma feição assustadora. Era medo? O que era aquilo? Quando Konan perguntou se eles não haviam achado sua câmera e os outros equipamentos de fotografia que havia perdido (e ele sabia o local: naquele depósito abandonado), os soldados se assustaram, pois fora exatamente lá que encontraram tais objetos. Os guardas devolvem a câmera intacta para o menino e, nisso, uma presença se aproxima por trás. Mas não é uma presença maligna, é um conhecido. Um amigo.
Konan, por onde você esteve? A gente estava tão preocupado... Konan e seu amigo fogem em direção à cidade, que ainda ficava a quilômetros a frente, cada vez mais distante da escola, cada vez mais distante da cena no depósito. Mas eles foram juntos, com uma única coisa certa em suas mentes e corações. O que movia aquela história não era uma narrativa concisa, era uma e, somente uma sensação: medo.
Luci deu um grito e levantou-se num pulo, com a plena sensação de que ela tinha vivido tudo aquilo, de que ela era o Konan e de que ela estava sendo perseguida. Estava toda suada, um suor frio e extremamente desprazeroso. Ela se sentia envolta em graxa, em querosene. Foi direto para o banho e enquanto a água caía sobre a mesma, limpando as impurezas, ela se pegou desperdiçando água. Ficara dez minutos a mais no banho, apenas pensando naquilo que vivera, ou melhor, sonhara.
Fechou o registro, secou-se e colocou uma roupinha simples: uma camiseta preta de mangas compridas e um shortinho bem curto de moletom cinza claro. Prendeu o cabelo em um coque, pegou uma vassoura e foi limpar o seu quarto.
De onde estavam vindo aqueles sonhos?
Luci não conseguia responder. Parecia que havia uma barreira quando ela acordava que a impedia que saber o que havia por detrás do véu. Um véu muito tênue que ligava aquele mundo com o do lado de lá. Mas, o engraçado é que a maioria das pessoas interpretava aquilo como apenas frutos da cabeça dela. Meras ilusões do cérebro distante do estado de vigília. Luci, no entanto, sabia que não. E a maior prova disso é que, depois de lidar com aquela presença misteriosa que surgira no fundo do pátio, expurgando-a de sua casa, Luci sentia o clima muito mais leve na relação entre ela e tia Marta e até mesmo com seu primo Lucas. E ela sabia, sabia que a ausência desse equilíbrio emocional e comportamental era influência direta daquele... "ser" que assumira a forma de sua tia.
Após mandar uma mensagem de texto para Mateo e receber como resposta apenas um "Foi só um sonho, não precisa se preocupar.", Luci ficou se sentindo uma inútil imprestável aquele dia inteiro. Após mandar dez currículos de uma vez só através de sites de RH de Bom Martírio com vagas atualmente abertas em dez diferentes instituições, ela ficou sem fazer nada. Escrevendo alguns textos para o Menteabertismo, algumas poesias e evitou o celular o máximo o possível.
Quando chegou a noite, porém, foi ver as horas e na tela de bloqueio do smartphone, encontrou uma notificação enorme de uma de suas redes sociais: 673 comentários em uma publicação na qual você foi marcada.
O coração de Luci quase parou naquele momento, com uma palpitação. Ela ficou com medo, mas subitamente, irrompeu uma sensação de curiosidade de saber o que estavam falando dela. Seus parentes, seus amigos, seus conhecidos, as pessoas em geral na cidade.
Deu dois toques na tela e abriu.
Luci sabia onde estava se metendo, sabia que seria frustrante ter de ler todas aquelas coisas, mas ela foi forte. Estava curiosa e conhecia muito bem o preço que ela teria de pagar para matar essa curiosidade.
O comentários dos homens eram sempre os mesmos:
"Que gata"!
"Gostosa"
"Por que ela não vem militar assim lá em casa? Na minha cama?"
"Eu até tinha gostado, mas quando percebi que era protesto de feminista..."
"Por que eu não tenho uma amiga assim?"
"A gente nem precisa mais dar em cima, as mulheres já estão tirando a roupa sozinhas."
Os das meninas também eram maldosos. Tinha umas garotas que ainda não conseguiam entender o que Luci tinha feito não por si só, mas por todas elas:
"Que coragem de se mostrar assim! Se eu tivesse tantas celulites assim, eu não o faria!"
"Mulher tem que se dar ao respeito!"
"Tão desesperada para chamar atenção..."
"Não é preciso ser vulgar para manifestar sua opinião!"
"Isso é coisa de menina da vida. Fé em Deus e na castidade! #EuEscolhiEsperar"
Mas, foi então que diante dessa enxurrada de críticas e comentários negativos, Luci enxergou algo que ela não tinha visto antes: Uma onda crescente de comentários de mulheres e ativistas de grupos como os LGBTQIA+, das mais variadas etnias e classes sociais comentando em defesa de Luci:
"Parabéns! Uma atitude libertadora de uma voz sufocada e oprimida pela ditadura do corpo!"
"Por mais pessoas assim no mundo!"
"Luci, não dê ouvidos para o que dizem, não dê atenção para esse bando de estúpidos que acha que podem moldar a forma e a imagem da mulher de acordo com os seus padrões!"
"É preciso nos unirmos para combater o preconceito, a desigualdade entre gêneros, o machismo e tantas outras questões que ainda assombram a humanidade. Neste vídeo, uma pequena ilustração de como fazer isso de forma certeira e perspicaz!"
"Somente as Mulheres Unidas é que serão capazes de combater o machismo que há neste mundo!"
"Vamos nos unir para demonstrar nosso apoio à Luci Sabbath e acabar com essa ditadura! #gostosaecomcelulite"
"Eu sempre fui criticada pelo meu peso, pela forma com que eu me alimento, pelo número da minha calça. #gostosaecomcelulite"
"A partir do momento em que o mundo critica uma pessoa pela aparência e se esquece da beleza e da inteligência que há por detrás da atitude, passamos a desconfiar do mundo. #gostosaecomcelulite"
"Por essa e por outras, o meu voto é na #gostosaecomcelulite"
"A mulher que se empodera é severamente criticada pela sociedade ignorante. Mas a mulher que não se empodera, também. Precisamos nos unir para que todas nós sejamos empoderadas como Luci Sabbath e, a partir desta união, provar para o mundo que o poder de querer está em nossas mãos! #gostosaecomcelulite"
Luci largou o telefone depressa em cima do sofá como se ele fosse radioativo. Ela ficou o encarando, de longe. Sorriu, mas não acreditou. Isso estava mesmo acontecendo? Havia mais pessoas que pensavam como ela?
Demorou um tempo para Luci tomar coragem e pegar o celular novamente para ler o restante. Passou o resto da noite coberta de seletividade, escolhendo os melhores comentários para responder.
Nisso, antes de dormir, Tia Marta aparece:
— Está tudo bem, meu amor? — A tia sabia como Luci andava triste naqueles últimos dias desde tal acontecimento, mas naquele dia, em particular, parecia que a menina tinha virado ao avesso. Estava sorridente e toda confiante. O que havia mudado nela? — Posso entrar?
— Está tudo ótimo, tia! Pode, sim. — Havia um brilhinho no olhar de Lucy. E ali, Tia Marta notou que jazia esperança.
— Eu vim aqui para te dizer que a tia Helena nos convidou para um almoço em sua casa no domingo. Você quer ir?
Tia Helena era a irmã do meio entre Marta e Caline e certamente, era a mais excêntrica das três. Luci gostava muito da tia, mas às vezes ela viajava demais com histórias sobre chakras, energias espirituais, naves alienígenas que apenas aqueles que vibram em determinada frequência conseguem enxergar e etc, etc, etc...
Mas Luci entendia. Era uma mulher sozinha, sem filhos, sem marido, sem ninguém. Ela tinha de encontrar esperanças em alguma coisa para sobreviver, essa era a sua fé.
— Claro. Eu não tenho mais nenhum compromisso, tenho? — Respondeu a menina, visivelmente sorridente.
— Posso te perguntar uma coisa? — Disse tia Marta, com um ar de curiosidade.
— Pode, claro.
— O que aconteceu que você está tão... tão... — Ela não conseguia encontrar adjetivos fortes o suficiente para descrever o que ela via — tão radiante?
Luci pensou um pouco, mas logo respondeu:
— É que a hashtag #gostosaecomcelulite está prestes a entrar nos trending topics do país!
Naquela noite, Luci teve o sonho mais estranho de todos. Viu-se em uma rua de Bom Martírio um pouco distante do Marracos, já passando do centro e indo mais para a área residencial. Esta rua era do período colonial, sendo a parte mais antiga da cidade, onde foi sendo construída, ao redor do rio. Lá havia uma praça e uma igreja católica, que ao longo dos anos foi aumentando, aumentando e aumentando até se tornar uma catedral que lindos vitrais coloridos. Por que Luci sonhara com aquela rua em específico? Ela não sabia dizer. Era uma parte da cidade em que ela raramente visitava, pois ficava do outro lado de Bom Martírio e não abrangia as áreas centrais. Mas naquele sonho, sim.
Ali, por aquelas ruas, no entorno da enorme praça que ocupava basicamente três quadras, havia várias tendinhas de comércio na calçada e várias lojas no lugar onde, Luci bem sabe, são casas e prédios residenciais na "vida real". Aquele lugar tão apagado dos primórdios do município agora estava tão cheio de vida, tão cheio de clientes e vendedores, oferecendo seus produtos em meio ao meio-fio, como aquelas feiras que se vê lá pela Índia e outros países da Ásia e do oriente médio.
Mas era um lugar feliz. Era um lugar alegre e dava para ver que as relações entre as pessoas ali eram muito amorosas e, diferentemente da verdadeira Bom Martírio, onde Luci nascera, elas não queriam retaliar umas às outras.
Então, de súbito, aquilo parou de ser só um sonho. Em um sonho comum, uma história é contada, do subconsciente para o consciente da pessoa, enquanto ela dorme. Ali, não. Luci não estava assistindo a um filme feito com suas memórias e acontecimentos que ocorreram durante o dia. Não. Luci estava sendo a protagonista.
Em outras palavras, Luci estava lúcida. Ela sentia que possuía um senso de perspectiva e direção, podendo livremente se movimentar naquele espaço e tempo. Se ela quisesse, ela poderia o fazer. E isso indicava que, sobretudo, ela estava consciente. Ela estava, de alguma forma, em vigília, e não apenas vivendo uma aventura projetada sobre o qual ela não possuía nenhum tipo de controle. Ali, não. Ela mandava em seu próprio corpo e podia fazer o que quisesse, ir para onde quisesse.
Mas... Peraí! Corpo? Luci sentiu que possuía um corpo! Com braços, pernas e olhos e eles, de fato, estavam lá. Ela os via, os sentia, assim como consegue sentir todas as partes de seu corpo simultaneamente quando está "acordada", ainda que não esteja prestando atenção. A diferença era que neste lugar, ela se sentia muito mais leve. Não, ela não estava se enxergando mais magra. Ela simplesmente estava sentindo como se todos os membros que se articulavam e mexiam para que ela pudesse, por livre e espontânea vontade, se movimentar naquele espaço, fossem nada além de sinapses cerebrais. Como se os seus membros não fossem mais de carne, mas de uma matéria ectoplasmática, como se ali, o corpo dela fosse feito com a alma dela, com o espírito.
Minha nossa! Quando se deu por conta disso, Luci foi inundada por um sentimento repentino de felicidade. Além de estar encostando de leve no chão e se locomovendo mais etérea e suavemente na vida, Luci sentia que naquele lugar, ela podia ser feliz, sem julgamentos.
E então, ao ter esta sensação, ela se viu vestida como uma artista de teatro. Com roupas preto e branco, maquiagem pesada no rosto, totalmente fora dos padrões considerados casuais no quesito moda. E então, naquela súbita sensação de ser a pessoa mais livre do mundo, Luci começou a cantar e a dançar, enquanto percorria aquela ruela abarrotada de gente pelas calçadas, gente como ela nunca viu. Será que Bom Martírio realmente tinha aquele tanto de gente, ou era só ali que a cidade tinha um ar de... Metrópole?
E então, quando estava chegando ao fim da calçada, próxima de atravessar a rua, Luci, que estava agindo por conta e vontade própria desde que chegara àquela dimensão, começou a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Ela se lembrou de ter pego no sono na noite anterior, e estava em sua casa. Como poderia ter ido parar do outro lado da cidade? E como aquele lugar poderia estar tão mais... Evoluído? Tão mais parecido com um centro metropolitano, sendo que Bom Martírio era um pequeno pontinho esquecido no meio do mapa do estado?
Então ela teve a perspicácia e raciocínio o suficiente para propor um desafio a si mesma: Se aquele lugar era um sonho e sua própria mente, o subconsciente, o havia produzido, então Luci era capaz de controlar as coisas que ali aconteciam e as coisas que ali ela via.
Continuou caminhando pela calçada lotada e, ao chegar na extremidade, percebeu que a figura de um homem se aproximava. Pronto. Aquele era o desafio perfeito. Luci começou a mentalizar a situação que ELA QUERIA que acontecesse. Se aquele era uma espaço exclusivo de sua psiquê, ela própria poderia conduzir os acontecimentos e cenas que ali eram projetados.
Luci mentalizou, então, que aquele homem, no momento em que chegasse à calçada e passasse por ela, caminhando pela rua, ele seguiria em frente sem olhar, em nenhum momento, na direção dela. Luci pensou isso várias vezes: Ele não vai olhar, ele não vai olhar, ele não vai olhar.
Mas, para sua surpresa, assim que o homem pisou na calçada e continuou a caminhada, vindo em sua direção, ele virou a cabeça e mirou o olhar diretamente nos olhos de Luci. Foi quando, em um estalo, ela percebeu que aquele lugar não era um mero fruto de sua imaginação ou um devaneio causado por ter comido muito antes de ir dormir. Aquele lugar era um lugar à parte, com um Deus-Criador que não era a sua própria cabeça, e Luci estava inserida naquele ambiente por alguma razão. Em um mundo real, do outro lado da consciência. Foi nesse momento, então, que ela "despertou", sentindo-se estar desperta à muito mais tempo do que o real e foi então que Luci finalmente compreendeu o porquê de ela se sentir tão cansada ao acordar. Quem disse que ela já não estava acordada antes disso?
A semana passou voando com Luci sempre verificando as notificações só para encontrar comentários enaltecendo sua coragem diante da cegueira machista que insistia em incriminá-la por uma série de tristes e injustos acontecimentos sociais que precederam seu acesso de fúria na bendita festa que ela talvez jamais devesse ter ido. E então, chegou o dito domingo em que iria almoçar na casa de sua tia Helena.
Lucas, tia Marta e Luci tomaram banho, se arrumaram e foram para a residência de tia Helena. Ao chegaram, bateram a porta e só se ouviu um "Entrem!" bem abafado, lá de dentro. Eles entraram, fecharam a porta por dentro (era um perigo ela deixar aberta!) e foram-se pé por pé. Já dentro, todos sentiram um forte cheiro de "incenso do sol", que ela queimava um em cada canto da sala de estar. havia pequenas estatuetas de budas com algumas moedas para trazer fartura e prosperidade, bibelôs de elefantes com a bunda virada para a entrada da casa, livros e mais livros de diversas religiões (que iam do catolicismo cristão, passando pelo espiritismo Kardecista, bruxaria wicca, e até as religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda) atulhados em uma estante que ia do chão até o teto, um mapa astral desenhado na parede, vários filtros dos sonhos pendurados no teto, um pôster com a silhueta de um homem nu e várias plaquetas de diferentes cores em diferentes partes do corpo para indicar onde há a presença de cada chakra e seu tipo/classificação.
Além disso, a chave que estava pendurada pelo lado de dentro da porta, tinha um amontoado de pimentinhas acopladas como um chaveiro e também pedrinhas com o formato de olhos intensamente azuis "para afastar o mal olhado". Nas janelas, violetas plantadas em pequenos vasinhos pretos.
— Aaaah! — Gritou a tia Helena que estava vestindo um lenço estampado colorido tapando seus enormes cabeços castanhos e cacheados, vestindo uma túnica azul igualmente exotérica que os levava a crer que ela pudesse tentar ler suas mãos a qualquer momento, ou então dar uma espiadela em seu futuro atrás de uma bola de cristal, e para completar, brincos de argola gigantes que atingiam a altura dos ombros de tão extensos que eram. — Como estão graaaaandes!
Ela abraçou Lucas e Luci, apertando-os como se nunca mais fosse os ver na vida e deixando-os molhados de tanto dar beijos.
— Olha só para o Lucas! Já está um homenzinho! — disse ela, na inocência. Luci se segurou para não rir.
— E você, como está, Helena? — Pergunta tia Marta. — Que perigo você ter deixado a porta aberta!
— Nah! — Ela fez um gesto com a mão, como quem diz "não seja boba" — A minha segunda visão me disse que vocês entrariam e a fechariam para mim.
— Como você pode confiar tanto nisso? — Pergunta tia Marta.
— Ah, eu já estou acostumada.
E dito isso, tia Helena arranjou lugares para todos na mesa. O cheirinho estava delicioso. Ela estava preparando um churrasco. Sim, quem disse que é preciso um homem para ser o assador? Tia Helena não ligava para estas coisas, tanto que, se ela esperasse por outra pessoa para fazer alguma coisa, nada jamais seria feito, uma vez que ela é muito sozinha.
O almoço prosseguiu com uma boa série de risadas e com tia Helena enchendo Lucas de elogios fofinhos e pegajosos que deixavam o menino com vontade de gritar, mas não podendo fazê-lo, ele apenas se limitava a ficar vermelho como um pimentão, enquanto Luci agora nem mais tentava se segurar, soltava gargalhadas de chegar a dar socos na mesa.
Após horas conversando e se alimentando com tudo o que tinham direito, Luci ofereceu-se para ajudar a tia na louça enquanto que Marta e Lucas, acometidos por uma súbita alcalose pós-prandial, ou seja, sono para caramba após a refeição, foram arranjar um lugar para se deitar. As duas então fizeram uma dupla na pia: enquanto Luci lavava, Tia Helena secava os pratos e talheres.
Então, inesperadamente, Luci sentiu uma vontade de perguntar à tia, que era uma guru nessas coisas, o que ela estava vivenciando:
— Tia Helena... Eu... Eu tenho uma coisa para te perguntar.
— O que foi, minha filha?
— Eu estou tendo uns... Sonhos, mas que não são apenas sonhos. São... Reais. É como se eu estivesse consciente enquanto estou do lado de lá, sabe? São... Lúcidos!
— AHÁ! Projeção Astral! Eu sabia!!! — Gritou Tia Helena, jogando um prato que acabara de pegar para secar para cima e deixando-o cair no chão, em um estardalhaço que resultou em cacos de vidro voando pela cozinha inteira.
— O que aconteceu? Vocês estão bem? — Pergunta a Tia Marta, que ainda não tinha ido dormir.
— Está tudo bem. Vá, dormir, vá! — Disse a Tia Helena sem se preocupar nem um pouco com o prato e fazendo o gesto característico com a mão, como se estapeasse o ar de leve.
Marta conclui, após o gesto, que está tudo ok e volta para seu estado letárgico pós-prato.
— O que eu ia dizendo? — Pergunta Helena — Aaah, sim! Desdobramento! Projeção Astral! Você sai para fora do corpo e vê a si mesma deitada, dormindo?
— Bem, em episódios de paralisia do sono, sim, mas não assim... É mais como... Como se eu estivesse acordada em outra dimensão enquanto aqui eu estou dormindo, sabe? Eu... Conto isso para as pessoas, mas elas acham que são só "sonhos" e eu tenho certeza que não são. — Luci resolveu abrir seu coração para a tia, pois sabia que ela seria a única pessoa que acreditaria cegamente no que ela experienciou durante várias e várias horas de sono.
— Luci, acho que está na hora de você saber um pouco mais sobre o nome da nossa família... — Disse então Helena, adquirindo um tom mais sombrio ao falar.
— O que? — Pergunta Luci, sem entender bulhufas.
— Venha. Deixe esses pratos para depois e me siga. — Helena faz o tapinha no ar novamente, convidando Luci para se retirar da cozinha e passando reto pelos cacos de vidro espalhados pelo chão, sem nem se lembrar que eles estavam ali.
Ela foi até a sala, por onde eles haviam entrado e dirigiu-se instantaneamente arrastando a túnica azul no chão a uma sessão sobre bruxaria, na prateleira mais alta da estante. De lá, ela retirou um livro muito velho, totalmente empeirado, soprou e o pó foi-se para cima dos móveis. Então, abrindo bem ao meio, ela colocou sobre uma mesinha e sentou-se ao sofá, de frente para o livro que exibia uma gravura de uma pessoa sendo queimada viva na fogueira.
— Você sabe o significado do nosso sobrenome, Luci? — Pergunta Helena com uma estranha seriedade em seu olhar. Quando se tratava de coisas exotéricas e misticismos, ela era a primeira a levar a sério.
— Bom, eu conheço aquela banda, o Black Sabbath. — Disse Luci, rindo toda.
— Sabbat, Sabbat das Bruxas ou ainda o Sábado das Bruxas é uma reunião de pessoas que praticam a bruxaria e que tem origem nos antigos rituais de celebração da passagem do ano de acordo com as estações, épocas de colheita e também da lactação de animais. Infelizmente, devido a séculos de propaganda anti-pagã da igreja, o Sabbat tem sido confundido com a "Missa Negra" Satânica ou "Sabbat Negro", que envolve ritos com o diabo, devido a visão distorcida e desassociada dos escritores da idade média devido ao medo, preconceito, imaginação excessiva e ignorância dos mesmos.
— Espera aí. Você está tentando dizer para mim, uma pessoa super cética, que nós somos de descendentes de uma linhagem de bruxas lá da época medieval? — Interveio Luci.
— É claro que não. — Corrigiu imediatamente Tia Helena. — Não é nesse ano que você vai receber sua carta de Hogwarts.
— Bem que eu queria. — Luci dá de ombros.
— Preste atenção. Você sabe o movimento de caça às bruxas na idade média, entre os séculos dezesseis e dezoito, na Europa? Pois bem, milhões de mulheres foram dizimadas na fogueira porque simplesmente sabiam coisas que a maioria das pessoas não sabiam. Chás, técnicas e rituais de cura, enfim, tudo o que a igreja odiava. Acontece que aquelas pessoas, que não eram somente mulheres (maldito patriarcado que esconde detalhes cruciais da história até hoje!) não eram bruxas de verdade...
— Sim! Muitas pessoas foram assassinadas injustamente pela ignorância do povo na época, dada a opressão e o controle das massas causados pela igreja! — Concordou Luci.
— Aí é que está, minha querida Luci. Bastava você ter um pequeno conhecimento a mais que o resto do povo não tinha, que você era considerado bruxo e condenado à morte na fogueira por heresia e o que eles chamavam de "renegação a Deus". Muita gente de bem foi morta a troco de uma falsa fé regrada pelo medo e ingenuidade daqueles que não tinham estudo nem conhecimento científico. até hoje, isso continua acontecendo com gente como eu, com gente como você, Luci!
— Novamente, se está tentando me convencer de que eu sou uma bruxa... — Começou a menina, mas não conseguiu concluir, uma vez que sua tia Helena despejou a bomba ali mesmo.
— Você não é uma Bruxa, Luci. Você é uma médium!
— Eu sou o que? — Luci tinha um certo preconceito, admitia, com relação a esse assunto. Uma médium? É sério?
— Os médiuns são pessoas que possuem um certo tipo de percepção que a maioria das pessoas não é capaz de compreender e até hoje são condenados injustamente à fogueira simplesmente por verem o que a maioria não consegue. — Explica a tia Helena enquanto Luci ouve tudo cuidadosamente. — Todas as pessoas possuem mediunidade, mas há um espectro de evolução e trabalho da mesma que faz com que algumas pessoas venham para a vida totalmente insensíveis, outras mais ou menos e outras completamente sensitivas. Por isso é importante que, mesmo as pessoas que não possuem a mediunidade tão aflorada, trabalhem-na para que possam desenvolvê-la, assim como aquelas que também possuem certo nível de manifestação mediúnica.
— Tá, mas onde é que eu entro nisso? — Pergunta Luci, ainda meio descrente na tia.
— Bom, há vários tipos de manifestação de mediunidade... Veja, tem os médiuns sensitivos (sentem a presença de espíritos); os médiuns com efeitos físicos (geradores consciente ou inconscientemente de poltergeists e fenômenos paranormais de manifestação de espíritos); os médiuns clarividentes ou videntes, que é o meu caso, que são aqueles que conseguem conseguem enxergar com os olhos da alma, passado, presente e futuro dos espíritos encarnados e desencarnados; os médiuns audientes (são os que ouvem espíritos); os médiuns da cura (autoexplicativos, geralmente realizam cirurgias espirituais); os médiuns psicofônicos (que permitem que espíritos falem através de si); os médiuns psicógrafos (que psicografam); e também os chamados médiuns inspirados (que recebem de forma espontânea uma mensagem espiritual e ela acaba por se misturar aos seus próprios pensamentos, tornando-se difícil decifrá-las).
— E nesse caso, eu seria...?
— Talvez uma médium inspirada ou ainda uma médium psicógrafa (você adora escrever, não é?). Mas de que importa as classificações? São só mais rótulos para restringir quem você realmente é. Veja, a mediunidade, quando está aflorando, é um fenômeno que apresenta alguns sintomas... Vamos ver se você se encaixa neles... — Helena pega outro livro e folheia até achar a página certa. — Aqui. Vejamos... Você sente alguma dessas coisas, querida? Você consegue identificar e sentir os sentimentos de outras pessoas que estão ao seu redor?
Luci se lembrou do episódio da criatura dos sonhos, que deixava uma "aura pesada" entre ela e a tia Marta, sobretudo agindo nos sentimentos e nos comportamentos da tia, gerando uma barreira entre as duas.
— S-sim...
— Você acorda com o corpo mais pesado do que o normal, frequentemente?
Luci se lembrou de seu sonho onde tinha um corpo leve que não era feito de carne, mas de espírito, no plano do outro lado.
— Todos os dias...
— Seus sonhos aparentam ser verdadeiros?
— Ah, que óbvio!
— Possui perda ou excesso de sono?
— Excesso. Sempre.
— Nervosismo, irritações e alterações de humor constantes?
— Aham.
— Confusão mental e crises de choro?
— Totalmente.
— Sente-se mal e inquieta em locais muito cheios, em multidões, sentindo inclusive antipatias injustificáveis por pessoas que você nem sequer conhece?
— Siiim!
— Sensação de baixa autoestima, pensamentos destrutivos e depressão?
— Meu Deus, acho que toda a nossa geração é médium, então!
— Calma que eu ainda não terminei... Você apresenta interesse de trabalhar com algo que traga a felicidade para outras pessoas, e não somente o emprego comum que só te traz dinheiro em troca?
Luci pensou no Menteabertismo e como queria que sua ideia saísse do papel.
— S-s-sim...
Este último sim saiu quase que inaudível. Luci estava com os olhos arregalados. Tinha uma força dentro dela que queria não acreditar, enquanto a maioria esmagadora de suas células concordava com cada um daqueles sinais que Tia Helena vinha lendo.
Luci calou-se. Era muita informação para ela, de momento.
— Escute, a mediunidade é um dom natural independente da sua religião, que vem para te ajudar a compreender mais sobre o holograma que estamos inseridos. Sim, isso que chamamos de "vida" não passa de uma matrix e a mediunidade serve para te guiar para longe dos caminhos obscuros que permeiam nossa curta estadia neste plano. Não pense que com ela vem algum tipo de "poder" que vai te deixar na vantagem em relação às outras pessoas... Não. Com ela, vem a responsabilidade de passar adiante aquilo que você consegue captar e interpretar do mundo espectral, do outro lado da ilusão terrena, entendeu?
Luci continuava sem falar. Estava em choque, seu coração palpitando e a palma das mãos enxercadas, mas não por causa da louça que estava lavando havia uns cinco minutos, por causa do suor que escorria e pingava, frio como gelo.
— Eu... Eu...
Luci não tinha o que falar. Ela simplesmente nunca havia pensado naquela possibilidade. E talvez até sua mente super cética bloqueasse esse tipo de pensamento, mas então, naquele momento, ela voltou a se lembrar das páginas do livro que vinha escrevendo havia algum tempo e disse para a tia:
— Trabalhar com algo que traga a felicidade para as outras pessoas... E não apenas por dinheiro... Eu... Acho que encontrei a minha vocação, mediúnica ou não.
— A minha segunda visão diz que vai ser um projeto muito útil para a humanidade, não é?
— Pode ter certeza!
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