Era uma manhã de sábado qualquer quando Luci sentiu que alguém a trazia de volta para este mundo, puxando-a pelo braço e chamando seu nome, repetidas e repetidas vezes. Ela fez uma breve cara de desconforto e assim que piscou sonolenta, abrindo seus olhos inchados e desacostumados com tanta luz ao seu redor, todas as lembranças voltaram como em um estalar de dedos, em um baque assustadoramente revelador. Ela sabia quem era, onde estava, quem a chamava e quais eram seus maiores desejos, necessidades, prazeres e frustrações, coisa que não se passava nem um segundo pela cabeça dela antes de ser trazida para este plano. Como se esquecera disso, enquanto estivera fora? Luci fora acordada e trazida de volta ao que chamavam de "vida" e isso para ela, era um porre.
— ARGH! Tudo de novo... Outra vez! — Reclamou ela, enfiando um travesseiro ao qual adormecera abraçada no rosto, tentando abafar os sons e ruídos e também as luzes de uma brilhante manhã de sol que a aguardava veementemente para mais um dia de trabalho.
— Acorde, dorminhoca! — Chamou a doce mulher que a despertara. — O seu alarme do celular não tocou, deve ter acabado a bateria! Então eu resolvi te chamar para não se atrasar!
— Tia... Eu tenho mesmo que ir? — Pergunta Luci, mas era uma retórica.
— As suas bolsas de marca não se pagam sozinhas. — Diz a senhora, com uma voz doce e suave de uma pessoa de mais idade, com uma calma transcendente.
— Aff... Obrigada por me lembrar. — Luci tira o travesseiro de cima do rosto e começa a esfregar os olhos, tentando apagar aquela forte sensação que a puxava de volta para o inconsciente. — Não sei porque eu ainda compro bolsas de grife se elas não me fazem nem em um milhão de anos tão feliz quanto a minha cama!
— Essa é a desculpa que você dá todos os dias a si mesma para deixar de viver? — Brinca a tia, sorridente.
— Eu não deixei de viver enquanto estava dormindo. — Prontamente responde Luci, também sorrindo. — Eu estava respirando do lado de lá. Vou deixar de viver é durante as oito horas do meu sábado que eu gastarei trabalhando!
A tia de Luci sorri, dando um beijo em sua testa e se dirigindo à porta do quarto.
— O café está pronto. — Disse a tia, ainda muito simpática, com uma brilhante afabilidade materna transbordando-lhe os poros. — Eu vou sair para deixar você se arrumar! Ah, e não esquece de abrir a janela para pegar sol no seu quarto! Não queremos mofo e ácaros se espalhando por todos os lados!
A mulher, que deveria ter em torno de cinquenta a sessenta anos de idade então encostou a porta e saiu devagarinho pelo corredor. Ela tinha cabelos castanhos encaracolados mais curtos do que a altura dos ombros e estava utilizando ainda uma camisola cor-de-rosa que tinha desde que se casara com seu falecido marido há pelo menos uns quarenta anos. Era uma lembrança da lua de mel e por mais rasgada e desbotada que estivesse, tia Marta não a tirava do corpo.
Seguindo o conselho da tia, a jovem Luci, de vinte e um anos, de cabelos ruivos lisos e curtos, porém de uma procedência rebelde, e de uma mini, mini, mini baby fringe, uma franja curtíssima que mal tapava a testa, sentou-se na cama, calçou os chinelinhos de pelo que estava sobre o tapete e espreguiçou-se para espantar a energia tentadora que a implorava para que ficasse deitada mais uns cinco minutinhos. Isto é... Uma voz mentirosa e enganadora, porque aqueles cinco minutos poderiam facilmente se transformar em dez, quinze, vinte, trinta, uma hora, assim que Luci fechasse as pálpebras. Mas era tão bom. Uma sensação indescritível de prazer, como que se ela voltasse para casa depois de muito, muito tempo distante.
Bom, era melhor não pensar sobre isso. Luci lembrava todo dia para si mesma que antes de dormir, ela não tinha tanto sono como na hora de acordar e que isso era produto das substâncias químicas que impregnavam seu cérebro durante o inconsciente. E sob esta filosofia que ditava fielmente para si mesma todas as manhãs de segunda a sábado, ela respirou fundo, bocejou, revirou os olhos e se ergueu, pronta para mais um dia de muita luta e estresse.
A jovem adulta olhou sobre o criado mudo ao lado da cama e pegou seu smartphone com a tela trincada, resultado de seu descuido e talvez até certo descaso com as coisas materiais. Era recém oito horas.
— Droga! Por isso que não despertou, tia Marta! Ainda é muito cedo! — Praguejou ela, com uma audível interjeição de raiva.
Ela poderia ter ficado pelo menos mais meia-hora dormindo. "Que ódio", pensa Luci, agora já de pé, com aquela sensação de que havia sido tempo perdido. Mas, levantou-se mesmo assim, penteou o cabelo e ficou analisando uma minúscula acne próxima de suas sardas no seio da face em frente ao espelho. De pijamas, ela foi até a janela e a abriu, como a tia ordenara e pensou consigo mesma, ao olhar para a casa do vizinho, sobre a fútil e supérflua vida em sociedade que continuava correndo lá fora como se nada de mais importante pudesse existir do que vender mais e mais para enriquecer o seu chefe enquanto você continua pobre. Por que ela deveria se tornar mais produtiva e gerar dinheiro para a empresa, se tudo aquilo fora criado por Deus para que todos os habitantes desta belíssima esfera azul pudessem compartilhar e usufruir de suas maravilhas naturais? É claro que isso tinha a ver com o egoísmo particular de cada um e da ganância social por umas migalhas de papel. Migalhas estas que obrigavam Luci a se levantar "de madrugada" para poder pagar as malditas bolsas cuja alegria não durava muito mais do que um dia, depois de compradas.
— Que saco!
Luci saiu do quarto, foi para o banheiro, escovou os dentes e desceu para o primeiro piso, onde ficava a cozinha. A mesa estava impressionantemente colorida, com uma fartura de frutas, iogurtes, pães, biscoitos, leite e ovos para o café da manhã. Gratidão. Lá, encontrava-se sentado Lucas, seu primo mais novo, de dezesseis anos e se tornara um irmão depois que seus pais faleceram e a tia a adotara. Família.
— Já está atracado, filhote de urubu? — Provoca ela ao ver o menino alto e magro, de pele muito clara de origem alemã e cabelos castanhos também bastante claros, comendo um sanduíche completo, recheado com queijo, presunto, tomate e até uma enorme folha de alface que saía para fora das bordas da fatia de pão.
— Será que eu ouvi alguma coisa? Ah, não. Acho que foi só a cadela do vizinho latindo. — Devolve o menino com um sorrisinho malicioso, deixando-a furiosa. Essa era a relação entre eles: ódio fingido. No fundo, no fundo, eles se amavam incondicionalmente, mas não admitiriam isso até que muito sangue tivesse sido derramado.
— Parem vocês dois! — Adverte a tia Marta. — Francamente! A essas horas da manhã?
— Não parecia cedo pra você quando me acordou! — Diz Luci, embuchando-se com um pão de queijo.
— Menina! Eu ouvi isso! — Ralha a tia, mesmo sabendo que Luci não estava falando sério. Era brincadeira.
— Olha só, já que eu estou de pé... Vou aproveitar para passar no mercado e pegar umas coisinhas para hoje à noite. — Luci se levanta, pega a mochila e sai segurando o pão de queixo entre os dentes.
— Luci, não precisa! — Diz a tia, que não se sentia muito confortável com Luci colocando as coisas para dentro de casa, mesmo ela sabendo que era necessário e no fundo, ela tendo acordado a menina cedo justamente porque sabia que a vida de todos naquela casa dependia disso, do esforço da garota.
— Imagina, tia! É o mínimo que eu posso fazer, pelo tanto de acolhimento e carinho que eu recebo de vocês! — Luci não poderia estar falando mais sinceramente.
— Mimimimimimimi... — Zoa Lucas, com uma vozinha fina alterada propositalmente para passar uma sensação de deboche, descaso e nojo.
— Vá jogar bola, moleque! — Repreende Luci. — Aproveita enquanto ainda há tempo. Depois você vai ter que ouvir merda o dia todo e ficar sorrindo como se não lhe passasse pela cabeça a ideia de cravar uma faca no olho daqueles clientes burros e mal humorados que discutem com você sem ter razão, mas você tem que atuar e fazê-los sentir como se tivessem!
— Ai, credo! — Espanta-se Lucas, estampando um semblante de "não está mais aqui quem falou" na face.
— Até mais, tia! — Luci se aproxima de tia Marta e dá um beijo amoroso de despedida na bochecha direta da doce figura materna que a acolhera depois de tudo o que aconteceu.
— Eu também já vou indo para a escola, mãe! — Lucas faz o mesmo, só que do lado esquerdo.
— Eu amo vocês! Se cuidem. Qualquer coisa que precisarem, me liguem. Vocês sabem que eu fico preocupada! — Diz a angelical tia Marta que tinha um coração genuinamente bondoso.
— Eu também te amo! — Devolve Luci.
— Ei, não vai me dizer nada? Lucas...? — Pergunta a mãe para o filho, que ia saindo sem se pronunciar em retorno.
— Hã? Me chamou? — Lucas volta para trás, verdadeiramente surpreso, sem entender o que estava acontecendo. Dava para ouvir a música que era transmitida por seus fones de ouvido. Ele já estava em outro mundo.
E assim, começa mais um dia normal na vida de uma família normal, em um bairro normal, em uma cidade normal, de hábitos e obrigações normais. A única coisa que não era normal ali era Luci, uma maluca maníaca indo para o trabalho. Definida como muito além de excepcional, Luci enxergava as coisas de uma maneira fora do convencional e isso era como um fardo que ela carregava desde muito nova. Para ela, tudo nessa rotina diária de seguir o cronograma da sociedade era banal e nada mais do que uma forma de controlar as massas, mas mesmo assim, ela erguia a cabeça e tentava fazer o seu melhor todos os dias, porque sabia que ela por si só, tinha um custo. Um custo e um peso. Sentia-se como se fosse uma bigorna que caíra de paraquedas na casa da tia Marta desde o acidente que tirara a vida de seu pai e sua mãe, e precisava de uma forma ou de outra, compensar e recompensar esse espaço e tempo que tomava da vida dela e de seu primo Lucas. Eles mereciam receber de volta todo o carinho e amor que a ela destinam dia após dia.
E com um sorriso no rosto e um ar de simpatia que Luci jamais imaginara que precisaria algum dia simular, ela rumou à pé com destino a uma fila de pessoas que também tinham seu peso no mundo, mas ela era obrigada (assim seus chefes a agulhavam) a fingir que esse peso que descarada e petulantemente jogavam sobre ela, não existia, e carregá-los de um em um no colo até se sentirem plenamente satisfeitos e saírem de lá com a sensação de que foram bem atendidos.
Luci trabalhava em uma loteria, onde ficava horas e horas atendendo um entra e sai infinito de pessoas muitas vezes rudes, mau humoradas e pretensiosas, através de um vidro. Por sorte, depois de atenderem dezenas, talvez centenas, quando vê, milhares de pessoas naquele fim de semana, a fila de uma trégua e abriu uma brecha para que a jovem lunática pudesse conversar.
— Escuta, quando é que esse tal de "operacional" vai deixar de existir? — Pergunta ela, de bobeira para seu colega, vizinho e melhor amigo, Mateo.
— Talvez quando os robôs assumirem o controle do trabalho pesado... Mas, imagina só: vai que dá merda e eles assumem o controle da humanidade?
— Mas mil vezes a gente se tornar escravo da tecnologia, de uma coisa que nunca foi viva nem morta, do que sermos escravos de outros seres humanos. — Diz Luci Você já viu uma coisa dessas? As pessoas são muito ignorantes e não procuram se desenvolver, não procuram evoluir. Elas ficam acomodadas em sua ignorância e parece que lhes falta vontade de crescer, evoluir, aprender, obter conhecimento! Por exemplo, por que ainda tem todas essas filas para atendimento em loterias para pagar contas, uma vez que hoje em dia você pode pagar diretamente no caixa eletrônico do banco, descontando diretamente da sua conta? Ou melhor ainda? Através de aplicativos de celular. Todos os bancos têm. Você não precisa imprimir o boleto e nem sequer sair de casa para realizar o pagamento. Está tudo no alcance dos seus dedos. O mundo está no seu celular. É fácil, é prático, é acessível.
— É que talvez as pessoas ainda tenham receio de lidar com a tecnologia. Talvez por se tratar de dinheiro e questões de segurança, sabe? — Diz Mateo, tentando ver a situação por um outro lado.
— Se não fosse seguro, os bancos nem lançariam esses aplicativos e nem possibilitariam que tais avanços acontecessem. E depois, se te roubarem o celular, não tem como ninguém acessar a sua conta, porque é preciso ter uma senha para logar.
— É, você tem razão. — Mateo tem de concordar com Luci.
— É em momentos assim que percebemos a falha na educação do nosso país e a cultura da sujeição. Eu duvido que lá na Europa as pessoas sejam tão dependentes assim.
— Calma, Luci... Vai passar. Esse nosso emprego é só uma fase. Tudo vai melhor, se Deus quiser. A gente só não pode é desistir. — O menino tenta consolar a jovem, com um sorriso incrivelmente branco estampado (ele havia feito clareamento com o salário do mês anterior).
— É, mas eu realmente agradeço por esta vida, Mateo. Vocês já viram aqueles estagiários que "atendem" na sala de "autoatendimento" dos bancos? Os coitados ficam em pé o dia inteiro fazendo o que os clientes poderiam fazer sozinhos. Correção: o que A FILA de clientes poderia fazer sozinha. Nós pelo menos estamos sentados aqui e protegidos por este vidro. — Diz Luci, que não se sabe se estava sendo irônica ou se realmente acreditava que aquele trabalho era melhor somente por estas condições. Provavelmente, os dois.
— Graças a Deus! — Concorda o menino.
— Sabe do que eu tenho medo, Mateo? De me formar em Administração para passar o resto de meus dias como vendedora! — Brinca Luci, mas com um pingo de verdade em cada palavra dita. — Talvez seja por isso que eu preciso tomar remédio todos os dias. Engraçado que nenhum antidepressivo faz tanto efeito quanto a cachaça!
— É, mas pelo menos você sabe que os medicamentos não te trazem uma alegria passageira e enganosa! Você continua bem no outro dia! — Ri Mateo que se preocupava de verdade com a saúde física e mental da amiga.
— E por falar em cana, você vai ao Marrocos hoje?
Marrocos era um clube, talvez o maior da cidade de Bom Martírio, onde Luci e Mateo moravam. Quando ela falava em "ir ao Marrocos", no entanto, ela não se referia a ir em alguma festa lá, de fato, dentro do clube, mas ficar na quadra ao entorno da boate, que enxia de gente, para beber, fumar, beijar e ficar vendo o movimento. Ali, todo mundo estacionava seus veículos, colocava música alta e saía a festejar. Em torno do Marrocos. E por incrível que pareça, tanto o lado de dentro quanto o lado de fora do clube estavam sempre, sempre, SEMPRE lotados.
— Não, eu acho que vou ficar em casa hoje. — Diz Mateo. — Estou sem grana.
— Ei, eu também. Mas não é por isso que eu vou deixar de me divertir! — Diz ela, sorrindo de orelha a orelha. — Não é irônico como a gente trabalha com dinheiro o dia todo e quando precisamos, não temos para nós mesmos?
— Não está pensando em roubar, né? — Brinca Mateo.
— Não, só estou pensando no tamanho do bolso do dono. — Devolve Luci, gargalhando alto.
— Ih, não olhe agora... Mas olha lá quem vem! — Diz Mateo, tapando o rosto com os dedos e mantendo apenas pequenos furinhos para os olhos. — A Dona Maldiva!
— Ai, não! A Dona Maldiva não!
— Sim, a Dona Maldiva.
— Puta que me pariu! Em pleno sábado?
Quando a velha coroca se aproximou do balcão, Luci imediatamente abriu um sorriso e fingiu um entusiasmo e um carisma que não existiam por dentro. Pelo menos, ela tentava dar o seu melhor.
— Boa tarde, Dona Maldit-- Maldiva. Dona Maldiva! — Disse Luci, propositalmente brincando com o nome da anciã.
Dona Maldita. Pronto. Essa era nova.
Mateo viu a malícia, entendo que Luci tinha feito aquilo por gosto e se finou a rir, colocando a mão na boca para não fazer som. Seus olhos lacrimejavam de tanto que ria, tentando inutilmente se controlar. Ele parecia um pimentão de tão vermelho e teve de se abaixar atrás do balcão de seu caixa para não ser descoberto pela velha.
— O que seria para a senhora, hoje, Dona Maldiva? A senhora esteve aqui ontem... Anteontem... E antes disso... E na terça, e na segunda... Ficou faltando alguma coisa pra senhora?
— O QUE?! — Gritou a velha com a chapa quase saltando pra fora da boca. Além de tudo, era surda.
Dona Maldiva vestia-se como se estivesse no polo Norte, de verão a verão. Em certa ocasião, Luci conseguira contar 6 casacos um sobre o outro, como que em camadas, e só conseguiu fazê-lo porque cada casaco tinha uma gola, então era uma por cima da outra. Tinha cabelo curto branco em um tom quase amarelo, sujo, além de um bafo de monstro e uma lerdeza absurda, que a fazia perguntar trinta vezes a mesma coisa.
Luci sabia que não era culpa dela ser assim, afinal, já estava em uma idade avançada e não tinha ninguém, nem um filho ou um neto que a amparasse e desse a assistência e atenção que ela precisava. Mas, não tinha como não se irritar com a velha. Algumas pessoas sentem uma necessidade tão grande de incomodar, que fazem isso até inconscientemente. Era o caso de Dona Maldiva, uma visitadora frequente da Loteria.
— Minha filha, lê isso aqui pra mim! — Diz ela, entregando para Luci um pedaço de papel no qual estava escrito à mão alguma informação.
— É a data de a senhora receber. Fui eu mesma que anotei pra senhora! — Explica Luci gentilmente, com aquela carícia na voz que aprendera com sua tia.
— O QUE? — A velha grita de novo.
— É a data que a senhora recebe o seu pagamento! Dia 27 de Maio! — Torna a explicar Luci.
— Então? — Diz a Dona Maldiva, enchendo-se de razão. — É hoje!
— Não, Dona Maldiva. Hoje é um sábado, dia 4 de Maio. A senhora recém recebeu o pagamento do mês de Abril! Ainda falta quase um mês inteiro para a senhora receber de novo!
— Por que você não quer me dar o meu dinheiro? Eu não entendo. Tá aí no papel. É hoje. Dia 27 de Maio!
— Não, Dona Maldiva. Hoje é dia 4, recém. Assim como eu lhe expliquei ontem, anteontem, antes de anteontem...
Dona Maldiva ficou em silêncio e ficou com uma cara de pensativa e de repente, do nada, trocou de assunto.
— Você não é a filha da Laurinha? — Pergunta ela.
— Não, senhora. — Responde Luci, engolindo todo o ego para não xingar a velha. Mas, por alguma razão, o "não" significava "sim" dentro da cabeça de Dona Maldiva.
— Aaah, faz muito tempo que eu não vejo ela. Manda uma abraço pra ela, diz que eu estou com saudade!
— Dona Maldiva, eu não conheço essa "Laurinha". — Luci tenta, com todo o jeitinho, mantendo o sorriso, explicar para a velha senhora que ela não fazia ideia de quem seria esta pessoa.
— Não conhece? — Dona Maldiva fica em silêncio por mais um tempo, novamente com um semblante pensativo... Em que dimensão ela estava viajando? — Bem que eu achei que você estava muito gorda pra ser a filha da Laurinha...
Putz.
Luci respirou fundo.
Fechou os olhos e para não perder a paciência com a cliente totalmente inconveniente, perguntou, ainda mantendo o sorriso e a simpatia que lhe eram obrigatórios em seu ambiente de trabalho:
— Mais alguma coisa pra senhora?
— Não, só isso. Eu vim pagar o imposto! — Diz a velha.
— Imposto? A senhora não tinha vindo receber, Dona Maldiva? — Pergunta Luci de novo, sendo persuadida pelo devaneio da velha.
— Ah, é mesmo! Sim. Por que você não me dá o meu dinheiro? — Lembra-se a velha. — Está aí no papel, dia 27 de Maio. É hoje!
Voltamos à estaca zero.
— Não, Dona Maldiva. Hoje não é Dia 27 de Maio.
Depois que a velha foi embora (sabe-se lá por quanto tempo...), Luci suspirou e olhou para Mateo, que olhou de volta para ela, com uma cara de um profundo pesar. Ela sabia pelo que Luci passava todos os dias.
— Ela me chamou de gorda. — Diz Luci.
— Você é linda, Luci. Não deveria se preocupar com o que as pessoas dizem. — Elogia Mateo, que realmente achava Luci a pessoa mais linda do mundo.
— Ela não sabe o que eu passo. Ela não sabe... — Luci dá um soco na mesa. — Grrr! Eu sei que não é verdade! Eu sei! Eu sei que eu sou bonita e que eu tenho um corpo ok... Mas no fundo, no fundo, eu me importo com o que as pessoas acham de mim, no fundo, sempre que alguém diz isso, me machuca e eu não sei por que. Eu fico remoendo e remoendo esses comentários como se eles realmente fossem legítimos e de repente, eles tomam conta de mim. É sempre assim, sempre. Mesmo que eu me esforce ao máximo e diga para mim mesma que eu sou maravilhosa, o meu inconsciente não parece reconhecer isso como uma verdade e automaticamente, eu me auto-saboto.
— Respira, Luci. Vai dar tudo certo. Eu estou aqui. Sempre. — Mateo se aproxima e dá um abraço na menina, que estava quase chorando. — Você sabe que eu te amo, não sabe?
— Também te amo, Mateo. Obrigado por existir. — Agradece Luci, mesmo sem saber que o "eu te amo" do Mateo não era o mesmo "eu te amo" que ela dizia em retorno para ele...
A tardinha chegou e com ela, o fim do expediente. Luci estava moída. Seus pés doíam. Suas costas doíam. Sua cabeça doía. Na verdade, parecia que o corpo todo ia explodir. Mas, ela não desistiu. Foi a pé para casa. Quatorze quadras, mas ainda valia mais a pena queimar calorias (especialmente depois de seu encontro desastroso com a Dona Maldiva) do que gastar com passagem de ônibus, coisa que ela sabia que, se fizesse naquele momento, não poderia comprar um lanche na faculdade durante a semana, pois não sobraria grana.
Chegando em casa, ela se deparou com a tia Marta lavando a louça.
— Tia, cheguei! — Diz ela, colocando a sacola de compras que fizera durante a manhã sobre a mesa. — Pare tudo o que está fazendo, hoje a janta é por minha conta!
— Luci! Não! O que é isso? Não precisa! — Diz a tia, tentando manter a educação.
— Não, nem pensar! Hoje é sábado tia. A senhora cozinha para mim todos os dias! Deixa que dessa vez, eu cozinho para a senhora!
— Mas você deve estar cansada... Trabalhou o dia todo! — Argumenta a tia.
— Não importa. Sente-se. Hoje o cardápio vai ser... — Luci tira das sacolas pacotes com enormes pães redondos,sachês de maionese, catchup e mostarda, além de quatro perninhas de linguicinha defumada. — Tã-dã! Cheeseburger caseiro!
— Nossa! Eu quero! — Diz Lucas, que entrara na cozinha naquele exato momento, pegando Luci no flagra.
— Tia...? — Diz Luci, arqueando uma sobrancelha, tentando-a convencer de aceitar.
— Está bem. Você já comprou tudo mesmo! — Diz a tia Marta, finalmente deixando que a sobrinha preparasse o jantar.
— Senta aí. Hoje você não move um dedo que não seja para pegar o talher e comer! Eu só vou tomar um banho rapidinho e já já você vai comer o melhor cheeseburger da sua vida! Você merece tia! — E pisca para a mulher, cujo coração se enche de amor e alegria.
— Luci, você é mesmo muito abençoada. Obrigada.
E as duas se abraçam.
Em alguns minutos, como prometido, Luci havia saído do banho e voltado à cozinha para fazer os tais cheeseburgers, o que só era possível porque ela havia dado de presente para a tia, um grill super tecnológico desses que passa a propaganda na televisão, funcionando como uma chapa para prensar o pão exatamente como os aparatos que existem em lanchonetes e podrões por todo o país.
— E... Voilà! — Anuncia Luci, colocando um cheeseburger em cada prato, começando pela tia, depois pelo primo Lucas e terminando com ela mesma. Em uma receita única que unia carne moída com rodelinhas de linguiça calabresa, anéis de cebola, queijo, presunto alface, tomate, ovo frito, batata palha e ainda orégano, fora os principais condimentos, mostarda, maionese e catchup, o prato feito por Luci era caprichado e feito totalmente com o coração. Ela sabia que a tia merecia... Que o primo merecia... Então, colocou todo o seu amor em prática e mãos à obra, fazendo uma verdadeira arte na cozinha!
— Hmmmm! Está uma delícia! — Elogia Lucas, puxando um enorme fio de queijo derretido com a boca e revirando os olhos, de prazer.
— Muito obrigada, Luci! Não precisava! — Agradece novamente a tia.
— Ah, você sabe que não é nenhum incômodo pra mim fazer isso! Além do mais... Ficou bom demais! Claro, com uma cozinheira como eu, né? Não tinha como não ficar.
— Hahah! Convencida! — Diz o primo, que dava risada.
Era um momento feliz em família e isso Luci jamais iria esquecer.
De repente, Luci sente alguma coisa debaixo da mesa. É o pé de seu primo tocando-lhe as canelas. Ele dá uma tossidinha disfarçada. Estava na hora de aprontar.
— Ah, então...? Mãe? Você já pensou sobre aquilo? — Pergunta Lucas.
— Sobre o que? — Pergunta a tia, inocentemente, de volta.
— Sobre eu ir ao Marrocos hoje à noite. — Diz ele.
— Pode. Contanto que a Luci vá junto! — Deixa a tia Marta, sabendo que Lucas era menor de idade e que precisava da companhia de um adulto responsável para sair durante a noite. Ela não gostava que eles dois saíssem, pois ficava muito preocupada e às vezes, mal conseguia dormir pensando no bem-estar dos filhos, mas sabia que eles eram jovens e que precisavam viver a vida. Aproveitar, se divertir. Especialmente Luci, que era mais velha, trabalhava o dia todo, estudava e mesmo sendo tão ativa, ainda sofria de depressão. Eles precisavam aproveitar cada momento, saborear cada emoção, e isso a tia não podia impedi-los de fazer. Por isso, Marta sacrificava o seu sono em troca da diversão deles, mesmo que pudesse dar muito errado. Ela sabia disso, tinha total consciência, mas não podia fazer nada a respeito senão educá-los e orientá-los para sempre seguirem o melhor caminho possível.
— Por mim, tudo bem! — Diz Luci, sorridente.
— Não vai ser um problema para você, Luci? — Pergunta a tia, sabendo que cuidar do "irmão mais novo" deveria ser um pé no saco.
— É claro que não! A gente vai se divertir muito juntos! — Diz Luci, sendo que dessa vez era ela quem cutucava a canela de Lucas com o pé.
— Então está bem, você pode sair hoje à noite, Lucas!
Com o aval da mãe, Lucas se agracia, abrindo um enorme sorriso. Mas, depois do jantar, enquanto ele lavava a louça e Luci secava os pratos, tia Marta foi ao banheiro e com a TV ligada, ela já conseguia ouvir.
— Me deve dez pratas, mané! — Diz Luci, diretamente para o primo.
— Por quê? — Pergunta Lucas, sem entender.
— Se não fosse por mim, ela não teria te deixado sair! — Diz Luci.
— Mas você sabe que a gente não vai ficar junto de verdade, não é? Depois que chegarmos lá, é cada um para o seu caminho! — Diz exigentemente Lucas.
— Ih, vai nessa, espertinho! Eu vou ficar de olho, hein? Você é de menor e é constituído como um crime que alguém lhe venda bebida alcoólica! — Lembra-lhe Luci.
— E você está se importando com isso? — Pergunta o primo.
— É claro que não. Até parece. Você que se foda sozinho. Não me envolva nas suas loucuras! Por mim, você já poderia ser preso, malandrinho!
Então, eles começam a rir e o assunto termina depois que chega a tia Marta de volta à cozinha, tentando tirar Luci do serviço de secar os pratos porque segundo ela, a menina deveria estar muito cansada depois de tudo.
Mas, Luci não estava nem um pouco cansada para sair para a noite. Ela foi pra frente da penteadeira, colocou uma base para cobrir as sardas, passou um delineador perfeitamente alongando o contorno dos olhos e um batom vermelho intenso que combinava com a cor-de-fogo de seus cabelos. Vestiu um sobre-tudo de látex preto que ia até um pouco abaixo da altura da pélvis com uma meia arrastão e botas de cano longo que se estendiam até os joelhos, também pretas.
De cabelo desarrumado, destacando a rebeldia natural que Deus lhe dera e lábios tão vermelhos quanto seu ruivo natural, Luci estava incrivelmente linda e o mais importante de tudo: se sentindo sexy, de bem consigo mesma.
Borrifou um litro de perfume, para se sentir mais atraente e chamativa (as pesquisas apontam que as pessoas cheirosas atraem mais olhares), deu uma voltinha na frente do espelho, viu uma gordurinha aqui e ali (a voz catarrenta da "Dona Maldita" ainda ecoava no fundo de sua mente), mas decidiu ignorá-las. Empoderou-se. Pegou uma mini bolsa, do tamanho de uma carteira feminina, também preta e reluzente, de borracha, e saiu.
Se sensualidade é um pecado, então Luci já estava condenada eternamente ao inferno somente por aquele dia, ou melhor... Por aquela noite.
— De noite eu sou outra. — Luci diz para si mesma. E era a mais pura verdade. A noite pertencia à garota, que se transformava de uma frágil menina que tenta agradar a todos durante o dia, escondendo-se sob o fardo de ser certinha, em uma mulher poderosa, independente e confiante em si mesma, enfrentando todos os seus problemas de cabeça erguida e com muito, mas muito sarcasmo e ironia em cada sorriso, bem como com uma pitada de bom humor, ousadia e é claro, com firmeza e convicção, afinal, ela sempre tomava as melhores decisões e caso não o fizesse, sua perspicácia a guiava imediatamente para um jeito de contornar a situação e fugir.
Luci bebia. Não para se esquecer dos problemas, muito pelo contrário: quando ébria, Luci soltava uma parte de si que jamais poderia estar mais sóbria. Ela ficava lúcida, desabrochando todas as melhores filosofias que surgiam uma a uma em sua cabeça, sabe-se-lá como, durante suas penosas tardes de estudo e de atividade laboral.
Luci tinha outra por dentro. Ela sentia isso.
Ela tinha muita consciência de tudo o que fazia e uma visão muito mais feliz e colorida da vida quando bebia, vendo com clareza a futilidade que era ficar se preocupando por problemas do dia a dia, coisa que não tinha mais espaço na cabeça dela, tamanha a incomodação que recebia do trabalho, da família, dos amigos, da sociedade, enfim... Da vida como um todo.
Por que ela fazia isso? Ela não sabia, mas sempre que seu estado de vigília começava a trepidar, ela sentia mais viva do que nunca, mais sábia do que nunca, mais consciente do que nunca. É por isso que ela viajava tanto em seus sonhos, porque sabia que no mundo das sombras era onde ela mais tinha propriedade para resgatar em conhecimentos e sabedorias, coisa que ela se esquecia completamente quando misturada com as coisas do cotidiano, tal como a maldita necessidade de sorrir e fingir ser uma robô de telemarketing enquanto atende pessoas estouradas ou ainda mentalmente prejudicadas, como a Dona Maldiva.
Por isso, a saída à noite era como uma válvula de escape para ela. Era o momento em que ela mais se encontrava. Quase como se ficasse de frente para si mesma, em uma imagem de espelho, só que no interior da mais complexa psiquê que forma a vastidão incompreensível que é o fluxo da vida humana enquanto espécie filha de Deus e da Natureza.
Claro, ela sabia que por mais que enquanto estivesse fazendo isso, encontrava vantagens psicológicas de proporções inimagináveis, ela estava cometendo um delito para com o próprio corpo, desgastando-o e aproximando-o de uma morte precoce. Mas não era isso o que ela pensava? Que do outro lado, o lugar para onde vamos quando dormimos, é mais leve e mais feliz do que aqui, enquanto presos pelas limitações deste saco de carne ao qual podemos chamar de lar?
Luci tinha ciência de seu peso no mundo, mas também tinha ciência do peso dos outros sobre ela. Assim, mesmo sabendo das consequências, saiu destinada a ficar doidona. Sair de si. Esquecer das obrigações, esquecer de quem se é, para atingir um estado maior de consciência: a inconsciência corporal, mas a conexão universal que abria um leque em sua mente para os mais variados assuntos de interesse planetário e global, sobre a vida e sobre como e por que ela estava ali e havia chegado onde havia chegado.
O Marrocos ficava no centro da cidade e Luci morava em um bairro pacato um pouco afastado, portanto, decidiu sair de casa pegando um táxi compartilhado na companhia de seu primo, quase irmão, Lucas. No trajeto, ficou no celular de tela rachada, pegando-se distraída olhando o perfil de seu colega Mateo na rede social do momento.
Despertando de seu transe virtual, clicou em um stories chamativo que mostrava o abdômen definido daquele que era seu crush eterno: Leo, um rapaz loiro, de olhos verdes, com em torno de dois metros de altura, mãos do tamanho de uma garrafa de cerveja de um litro e pés número quarenta e cinco. Ele era alto, musculoso, de braços vigorosos e atraentes, com um cavanhaque charmoso e que era seu diferencial. Tinha a pele um bronzeada e seu penteado característico era um topete alinhado com gel. Vez ou outra, Luci se imaginava entranhando naquele tanquinho e sendo retirada de lá somente após darem falta dela. Ela tinha sede, e tudo o que ela queria beber naquele momento, poderia ser extraído daquele corpo.
Mas isso fazia partia da Luci sóbria. A Luci ébria, muito embora com a libido à solta, não conseguia mais ver corpos como a principal maneira de se sentir atraída por uma pessoa. Sua visão amplificada das coisas a impedia de fazê-lo. Era o momento em que ela começava a refletir sobre o significado da vida e das coisas, jamais sendo capaz de tomar uma decisão tão estúpida quanto escolher alguém só pelo abdômen, afinal, ela sabia que hoje poderia ser um tanquinho, durinho, six pack irresistível e tentador, mas amanhã, na velhice, poderia ser um tanque de guerra, com bombas e mais bombas acumuladas. E ela sabia que essas bombas eram gases.
Contudo, ela ainda sentia muito tesão por aquele homem e não se importava em esconder. Fazia parte da natureza humana e o sexo, assim como qualquer outra relação advinda da integração social, fazia parte do homem enquanto espécie, portanto, nada de vergonhoso nisso. Era normal. Luci sabia e se masturbava pensando nisso. Tabus à parte, ela não estava nem aí. Estava no direito de viver quanto qualquer outra pessoa da sua idade, especialmente os meninos que socialmente são melhor aceitos quando se trata de exibir sua sexualidade, coisa que aflora naturalmente em ambos os sexos. Ou, por assim dizer, em todos os gêneros.
Quando o táxi encostou rente ao meio-fio, Lucas foi o primeiro a abrir a porta. Ele estava sentado do lado direito e mais próximo da calçada, deu para a prima sua parte da corrida em dinheiro e saiu, indo se encontrar com seus amigos (a maioria nerds de dezesseis a vinte anos que queriam ser descolados e portanto, bebiam enquanto falavam de animes, mangás, hentais, jogos de RPG e filmes de super-heróis que ninguém conhecia até que foram lançados os longa metragens e fizeram sucesso).
Luci não podia julgá-los, também queria pertencer. Sentir que faz parte de algum grupo ou comunidade e se destacar dentro dela.
Assim como o combinado, Lucas foi para a tribo dele e Luci deveria encontrar a sua. Cada um no seu caminho e eles só se encontrariam de novo na hora de ir embora.
Pagou o taxista, que era amigo íntimo de sua Tia Marta. Seu nome era João e era o taxista de confiança da família, então, de forma alguma ele poderia suspeitar que ela estava indo para lá para beber. Imagine: uma mulher adulta, que trabalha e se sustenta, empoderada... Que feio! Que inadmissível socialmente... Bebendo. Luci revirava os olhos só de pensar. Por isso, fez o que sempre fez, não deu satisfação a ninguém e seguiu cuidando da própria vida.
— Cuide-se, Luci. À noite, todos os gatos são pardos. — Aconselha o motorista, que deveria ter mais ou menos a mesma idade que tia Marta.
— Pode deixar, Seu João. — Diz Luci, entregando o dinheiro para o homem e saindo do carro, quando na verdade, gostaria mesmo era de ter dito "À noite EU sou a Gata, a Pantera. E sou a líder do Grupo. Miaaaau."
Bateu a porta e o carro arrancou, deixando para trás uma sonhadora em meio a um monte de gatos pardos, todos iguais, sem nenhum destaque.
Luci então se sentiu desenquadrada, como sempre. Ela queria se encaixar, queria ser igual. Queria ser uma das meninas que chamavam a atenção dos caras, queria ser um dos adolescentes legais e populares que todo mundo conhece por nome e sobrenome. Mas Luci Sabbath nem era tão legal assim e ela não se sentia no poder de conquistar tais títulos sociais.
Ela caminhou, batendo salto pelas calçadas podres e cheias de garrafas do lado de fora da boate, passando por vários grupinhos de várias pessoas fumando, bebendo, ficando chapadas e sendo felizes em sua vontade de escapar do mundo, até que avistou seus colegas de turma.
Luci estudava Administração em uma instituição de Nível Superior. Para falar a verdade, ela já estava quase se formando, no sétimo semestre, faltando apenas mais um para concluir a graduação, mas ela ainda se sentia como um bichinho perdido no meio de uma floresta que não condizia com seu habitat natural. Timidamente, ela se aproximou:
— Oi. — Disse, esperando que notassem a presença dela ali.
— Amiiiiga! — Sara, a que mais conversava com ela ali naquele grupo de oito pessoas, incluindo estudantes e namorados(as), disse bem assim, com um "i" prolongado que denotava que ela já não estava tão bem assim. — Que saudade! Há quanto tempo?
— Nos vimos ontem, na saída. — Lembra Luci.
— Na rua! Há quanto tempo eu não te vejo na rua? — Corrige Sara.
Luci pensou consigo mesma. Eu tenho te visto na rua todas as vezes que saio, mas você é que não tem me visto. E ficou quieta.
— Então? Onde eu estava mesmo? — Pergunta Sara para a outra menina que estava à sua frente, cujo nome, idade, profissão ou qualquer dado que não fosse sua maquiagem escandalosa, Luci desconhecia. — Aah, é mesmo. Você ficou sabendo que Gabriela engravidou e agora não sabe quem é o pai?
— Meniiiiina! Que escândalo! — Diz a outra.
E elas seguem dialogando em suas fofocas, não convidando Luci para entrar na conversa nem fazendo questão de integrá-la em alguma fala mais receptiva e participativa.
Os outros que ali estavam mal olharam na cara de Luci. Alguns cumprimentaram, outros balançaram a cabeça. No mais, simplesmente trocaram olhares por meio segundo e depois continuaram em suas atividades de seres humanos descolados e incrivelmente idiotas, entupindo-se de cigarros baratos e fedorentos e entorpecentes de todos os tipos, sem prestar atenção na pessoa incrível que estava em sua presença.
Luci ficou ali por um tempo, vez ou outra concordando com alguma frase de Sara e pensando em como ela faria falta para eles se por acaso desaparecesse... Talvez nem notariam que ela tivesse saído dali. E foi o que fez. Pé por pé, Luci foi saindo de fininho. Sentia-se excluída todos os dias... Na aula, no trabalho... E na rua, não era diferente. Era como uma cor que não dava certo em quadro nenhum. Fora do comum. Fora do normal e do relevante para pessoas como aquelas.
Luci se sentia superior, não de um jeito ruim, arrogante, mas de um jeito que ela precisava sentir a si mesma, colocando-se em uma posição melhor do que eles, caso contrário, afundaria em uma terrível depressão, pois buscava tanto a aprovação dos mesmos, que se não achasse que a atitude deles era fútil e banal, e que ela, enquanto pessoa, era muito melhor do que isso, Luci ficaria muito arrasada com a segregação do grupinho anti-democrático e certamente, não tomaria nenhuma decisão racional a respeito disso.
Mas, seu plano deu errado. Ela foi saindo de fininho já prevendo que não seria vista, mas ela foi. Mesmo bêbada e conversando assuntos aleatoriamente nada relevantes para a humanidade, Sara a enxergou Luci se afastando.
— Menina! Aonde você vai? — Pergunta ela. Sara ainda parece ter sido a única pessoa que notou a ausência dela, mesmo que a presença fosse ignorada durante todo o tempo em que estava ali.
— Eu vou ao banheiro. Já volto. — Mentiu, quando na verdade, pensara: "Puxa Saco do Caralho".
Luci foi até a copa do barzinho adjacente ao Clube Marrocos e o vendedor, já conhecido, ofereceu:
— O mesmo de sempre?
— Cê ainda tem alguma dúvida? — Ri Luci.
E o bartender serviu então a bebida de costume de Luci: Vodka com muito, mas muito energético e um pouco de gelo para incrementar. Assim que pegou o copo e deu o primeiro gole, Luci olhou para o banco ao seu lado, não tinha reconhecido, mas seu coração partia ao ver aquela cena. Bem, não que fosse literalmente um caso de amor, era um caso de tesão. E para ela, era um desperdício ver Leo agarrado aos beijos com uma garota qualquer que não fosse ela.
— O seu olhar está perdido naqueles dois. — Disse o bartender Pedro, de média estatura, magro e com tatuagens que lhe cobriam totalmente um dos braços, observando que Luci passara tempo demais olhando para a agarração deles, que não pareciam se lembrar que estavam em público. Era simplesmente uma pessoa entrando para dentro da outra, uma engolindo a outra. Só faltava começar a gemerem.
— É? Impressão sua. — Disse Luci, ironicamente, ainda olhando vidrada para o gostoso do Leo devorando a menina viva.
— Ela era minha namorada. Agora vem todos os finais de semana se beijar com algum cara diferente aqui na minha frente, só pra me humilhar. — Disse o bartender.
— Eu só queria um mènage com aqueles dois. — Luci morde os lábios inferiores ao proferir tais palavras, arrancando uma cara de susto de Pedro, que arregalou os olhos imediatamente.
— O que?
— É sério. — Disse Luci, que ainda nem tinha começado a beber. — Não morro sem antes fazer!
Pedro deu uma risadinha e ficou quieto, sem saber o que dizer. Mas Luci, que era de atitude, foi direto ao ponto.
— Será que eu vou ter que esperar até você sair do trabalho para nos vingarmos desses dois babacas aí?
— O que você sugere? — Pergunta Pedro, sentindo a malícia.
— O banheiro no fundo da loja? — Confronta Luci, já imaginando coisas terríveis.
— Eu saio às seis. Você me espera? — Pergunta Pedro, na esperança de que Luci ainda estivesse viva naquele horário e ela tinha plena consciência de que não estaria sã para contar qualquer história quando aquele horário chegasse. Recém era passado de meia-noite.
— Nem pensar. — E saiu, dando uma piscadinha para Pedro, que ficou confuso, sem saber como reagir, e continuou com seu trabalho, sem conseguir tirar aquela menina da cabeça. Se Luci soubesse do impacto que causava nas pessoas, jamais se sentiria como uma invisível sob o teto dos caras legais. Ela era a moça legal, que chamava a atenção por onde passava, mas só não conseguia ver isso por causa da atenção exagerada que dava a comentários bestas e não pensados de pessoas como a própria Dona Maldiva, que não tinham consciência de seu próprio peso.
Luci sentou-se sozinha em uma mureta de tijolos à vista e ficou ali, saboreando cada gole daquele trago, olhando para o céu noturno, e viajando como que em uma onda que a carregava, ao som de uma música qualquer da Lana Del Rey que só tocava em sua cabeça. Luci estava sozinha, sentindo-se sozinha, mas estava começando a encontrar a si própria, como sabia que aconteceria.
O álcool estava tendo efeito, e a insciência física e psico-motora despertava a mente da menina para o acordar espiritual, coisa que ela jamais conseguiria sem borrar as imagens confusas e avassaladoras das coisas que aconteciam em sua vida comum e ordinária.
Luci olhava para o céu, para cada estrelinha piscando e brilhando a centenas, talvez milhares de anos luz de distância e pegou-se pensando em voar, em conhecer novas moradas, em explorar o Universo incrível e perfeito que Deus criou e permitiu que a vida florescesse. Ela sabia: Havia mais estrelas no céu do que grãos de areia em todas as praias da Terra. Trilhões e Trilhões de esferas colossais cuja função era originar os elementos químicos que permeiam a existência da matéria, em seu núcleo, parecendo tão pequeninas devido às distância avassaladora que as afastavam do sistema solar. E se cada uma desses trilhões de estrelas fosse como o Sol e tivesse pelo menos oito... — Ou quiçá a metade? Que fosse só a metade! — que cada uma dessas estrelas tivessem pelo menos quatro grandes planetas girando em seu entorno devido à força ainda pouco compreendida da gravitação? Faça as contas. Pegue um trilhão como base e multiplique por quatro. Quantos planetas podem existir fora daqui? Como, em números tão absurdos, a humanidade poderia estar sozinha no Universo? Como Luci poderia se sentir tão sozinha, se pela matemática, era impossível não acreditar em vida extraterrena? Por que eles não vinham nunca, descendo em suas esféricas naves prateadas para levá-la para um lugar melhor? Resgatá-la dessa fundura desgastante que era o poço onde se encontrava?
Então, Luci começou a viajar na brisa ao qual se encontrara propositalmente afundada, amargurada. Ela começou a imaginar-se saindo dali, primeiro da frente do Marracos, depois do centro, depois da cidade, depois do estado, do país, do continente. Ela estava pequenininha e via Terra como uma pequena bola do qual ela podia girar para qualquer um dos lados. Se é que esferas possuíam lados, mas você entendeu. Você entendeu!
Ela imaginou o sol, brilhando a mais de 5000 K (cinco mil Kelvin) na superfície. E em seu núcleo, sendo forjados os elementos químicos, hidrogênio sendo constantemente fundido em hélio. Sua luz, que leva mais um milhão de anos para se desprender do núcleo e passar por toda o interior denso e caótico da estrela, levava apenas oito minutos para chegar até a Terra. Para esquentar a mão de Luci sobre os olhos, protegendo a vista de tamanha radiação.
Depois viu Mercúrio, o menor planeta e também o mais próximo do sol, acometido por incessantes quedas de meteoritos devido a grande atração gravitacional dada a proximidade da estrela. Lá, não tinha atmosfera alguma, então o céu era sempre estrelado, e muito embora suas temperaturas fossem elevadas, em uma das faces, era sempre dia e na outra, sempre noite. Mercúrio encontra-se travado gravitacionalmente com sua estrela-mãe, assim como a lua sempre mostra a mesma face para o espectador terráqueo à noite.
Vênus tinha grossas nuvens de ácido sulfúrico que superaqueciam o planeta inteiro, tornando-o o de mais elevadas temperaturas, mesmo estando mais distante do Sol que seu vizinho Mercúrio. Aquele era o futuro da Terra, pensava Luci. Se o aquecimento global continuasse avançando do que jeito que avança a cada dia, aquele seria o futuro da humanidade. Cozidos pelos gases.
Viajou para além da órbita do planeta em que morava e encontrou o quarto na ordem... Marte, menor que a Terra, mais frio, porém com condições que favoreciam, de certa forma, sua habitabilidade. Duas luas, Deimos e Fobos. Tempestades de Areia que, devido a falta de uma atmosfera, se espalhavam pelo planeta inteiro, cobrindo o "céu" por longos períodos. E é claro, o imaginário de tanta gente pairando sobre aquela área, se perguntando que há vida por lá, mesmo que seja microscópica, microbiana ou mais precária do que isso, ou se a vida teria se originado lá, quando em seus numerosos vales ainda corriam rios, e posteriormente sido trazida para a Terra através de meteoros.
Passando pelo cinturão de asteroides, chegou a Júpiter, o maior e o mais massivo planeta do sistema solar, com suas quatro principais luas, anéis pouco (ou quase nada) visíveis e é claro, uma bola inteiramente feita de gás, com pressões absurdamente grandes capazes de transformar em líquido qualquer sólido que adentrasse em sua atmosfera eterna. Sem superfície, apenas gás que formava lindas nuvens observadas pelos melhores telescópios da Terra para o deleite dos olhos daqueles que sonhavam em um dia saber mais sobre a existência.
Mais adiante, os anéis largos e mais exuberantes, feitos de gelo, denunciavam Saturno, o segundo maior planeta, também gasoso como Júpiter, mas muito, mas muito menos denso. Na sequência, Urano e seus sistema de anéis "deitados", em uma inclinação extremamente duvidosa e atmosfera limpa e homogênea. Netuno, por fim, em seu inconfundível azul intenso, com seus ventos avassaladores e grandes manchas escuras que apontavam tempestades que duravam anos em diversas partes do globo, assim como a característica Grande Mancha Vermelha de seu predecessor Júpiter.
Luci então imaginou o Cinturão de Kuiper, no final do sistema solar, onde havia Plutão e mais um punhado de planetas anões que, assim como ele, eram pequenas esferas geladas onde a luz solar era tão pouco, devido sua distância, que se tornava difusa. E ela foi mais além. Foi saindo e saindo, cada vez mais para longe. Estava fora do sistema solar. Estava fora da via Láctea. Fora do Grupo Local e fora do Superaglomerado de Virgem. Estava no Universo em sua mais pura essência, onde o preto não era necessariamente considerado o vazio, mas espaços ainda a serem preenchidos, seja pela explosão de supernovas, o fim da vida de muitas estrelas massivas, que despejavam seus detritos, ou seja, os elementos fundados em seu interior, seja por supercivilizações que buscavam colonizar planetas e luas potencialmente habitáveis.
Por que sabia disso? Por que pensava nisso? Luci não sabia nem compreendia. Ela se via perdida em perguntas e mais perguntas que não via mais ninguém ao seu redor fazendo. Sentiu-se pequena, então. Tão pequena e tão sem importância diante da majestosidade do Universo. Mas isso não era ruim, pelo contrário. Era o que ela precisava para adquirir confiança diante da vida a qual julgava ser cruelmente submissa. Quem era ela? Quem era o besta do Leo engolindo a baba daquela menina? Quem eram aquelas pessoas que se encontravam justo ali, em Bom Martírio, do lado de fora de uma boate, entupindo-se de substâncias tóxicas e se achando o máximo por causa disso?
Por um instante, Luci se sentia landed, de castigo, presa ao solo. A gravidade era uma limitação que a mantinha com os pés bem presos ao chão, mas isso não impedia que sua cabeça atravessasse a atmosfera da Terra e enxergasse a vastidão que havia além. Luci erguia a cabeça para o alto e via mais do que conseguia enxergar se olhasse para frente. Ou melhor... Para baixo. Aqui era embaixo.
Mas, ao mesmo tempo em que sentia isso, ela ficava feliz por fazer parte de algo tão maravilhoso, finalmente se encontrara. Estava dentre seu grupo. As estrelas que sempre lhe fizeram companhia, mesmo quando as outras pessoas ignoravam sua existência, ainda que tivesse dado oi e estivesse lado a lado com esses humanos todos os dias.
— Quem você é? Quem você quer ser? — Pergunta Luci para si mesma, rindo de felicidade. A onda bateu e ela só queria ficar chapadona na praia, ainda na essência de Del Rey.
O mundo era incrível, a vida era incrível, só que Luci não tinha tempo de ver essas coisas sem que tivesse sua mente cheia de problemas esvaziada pela bebida. Ela pertencia à noite e se sentia alegre, muito alegre por compreender as coisas que ninguém mais compreendia. E nesta loucura psicodélica de numerosas quedas e dancinhas vergonhosas, Luci deixou de buscar a aprovação, mas começou a amar incondicionalmente àquelas pessoas, fosse quem fosse.
Ela atingiu um ponto. O ponto. Melhor que o ponto G. Era o Nirvana que ela tanto buscava, o Paraíso que Cristo pregava. A ausência de preocupações, o fim do peso sobre os ombros. Luci nem era mais o seu nome. Ela era só uma alma velha vagando por um experiência humana. A ciência de que tudo aquilo era temporário e que toda dor era válida, trazendo alguma experiência e consequentemente, um ensinamento. Luci estava ali porque precisava aprender. E era foda. Realmente muito difícil. Difícil pra caralho, mas ela tentava e fazia o melhor que podia, todos os dias, mesmo que ninguém reconhecesse. Ela sabia que, só de fazer parte da existência divina, do presente supremo que era pertencer a um Universo lindo e misterioso, já era uma recompensa de proporções extremas. Ela nem tinha como agradecer, nem tinha como demonstrar tudo o que sentia, as emoções transbordando o peito em uma intensidade que normalmente, seu filtro de sóbria jamais a permitiria que chegassem à superfície.
Luci só pensava era em comemorar por estar viva e por todas as coisas boas que tinha tido naquela vida. Os sorrisos, as pessoas... As companhias, as histórias e risadas, o teto, a comida, a água, a luz, a visão, o toque... Todos os sentidos e todas as faculdades mentais e físicas em plena capacidade. Luci dançava e ia até o chão, sozinha, rindo a toa, no som que estourava os tímpanos, vindo de dentro da Boate Marrocos, por vezes tropeçava e caía no chão, mas ria à toa, praticamente não sentindo mais nenhuma necessidade mundana de conviver nas regras daqueles que olhavam torto para a atitude dela. Era feio? Que se dane. Foda-se. Luci compreendia, Luci entendia. E isso era o suficiente.
Ela foi girando, gingando, descendo e depois se escorando na parede, rindo, falando em inglês (depois de certo ponto de bebida, ela já nem conseguia mais pensar na língua nativa, mas só na secundária) sozinha e festejando a grande dádiva que era a existência. Luci fora de um extremo ao outro, da tristeza e da solidão amargurante e preto e branco à vida cor-de-rosa. Ou melhor, colorida como um arco-íris. Ela sabia que essa variação fazia mal para seu estado de pré-bipolaridade, mas ela não conseguia resistir à euforia.
Foi fechando os olhos, dançando na parede como encosto. E se sentindo mais e pesada e mais pesada.
Quando suas pálpebras se abriram, permitindo que a claridade do dia entrasse, Luci estava deitada em sua cama, de barriga para cima. Ela olhou para a parede, todos os seus pôsteres estavam lá, seus retratos, seus desenhos pendurados, tudo. As frestas da janela iluminavam a penteadeira e o roupeiro adjacente, indicando que já era dia e a julgar pela iluminação, deveria ser em torno de umas nove horas da manhã. Ela conseguia ver tudo, inclusive a bagunça que eram suas roupas atiradas no chão do quarto. Mas algo estava errado. Muito embora tivesse bebido horrores na noite anterior, aquilo não parecia ser nada relacionado à bebida, ela nunca tinha experimentado algo assim. Luci percebeu-se acordada, de cérebro, mente e alma, mas seu corpo continuava dormindo.
Ela tentou se mexer, mas não conseguia. Estava paralisada. Enquanto seus pensamentos fluíam naturalmente, como quando consciente, seu corpo não obedecia a seus comandos, ficando totalmente desmantelado na cama, como se estivesse morta. Luci não conseguia mover nenhuma parte do corpo, nem falar, mas ainda sentia a respiração e sentia-se na capacidade de pensar e raciocinar normalmente.
Ela enxergava tudo perfeitamente. Todos os detalhes, tudo o que se encontrava no cômodo corretamente posicionado. Mas aterrorizantemente, ela não conseguia fazer nada além de rolar a mente em um silêncio morbidamente assustador. E tudo só piorou quando ela sentiu que não estava sozinha.
Tinha alguém ali. Mais alguém naquele quarto.
Ela olhou na direção de sua barriga voltada para o teto e viu um braço, que vinha de debaixo da cama. Reconheceu a mão que a apertava com força na região do umbigo. Estava cinza, como que morta e em estado de decomposição, e cheia de rugas e resquícios de uma severa passagem do tempo. O anel de ouro familiar a sua memória denunciava quem era. A mão de sua tia Marta.
"Me ajude" dizia uma voz rouca e irreconhecível, mas essa voz não vinha de nenhum lugar específico, como que de uma boca. Estava na mente de Luci. Mas ao mesmo tempo em que pedia ajuda, a mão que vinha de debaixo da cama apertava o abdômen da menina com força, machucando-a. Então Luci sabia que era um pedido de socorro falso. O que quer que fosse que a chamava estava debaixo da cama, no chão, enquanto Luci dormia tranquilamente em sua cama.
Mas Luci estava paralisada. Ela não conseguia mover seu corpo. Queria olhar o que tinha debaixo da cama, mas só o que ela conseguia fazer era visualizar aquela mão cadavérica sobre sua barriga, apertando-a e a voz incessantemente pedindo por ajuda. Um pedido enganoso, ela sabia. Como? Não fazia ideia. Apenas sabia.
Então, o medo apossou-se da menina. Ela já estava terrificada em virtude da imobilidade e falta de controle sobre o corpo, e isso só piorou com a percepção de que havia algo ou alguém ali, se passando pela tia Marta para assustá-la.
Então, o coração dela bombeou muito sangue, enchendo-se de adrenalina e acelerando os batimentos. Luci, de supetão, levantou-se da cama com um suspiro de sufoco de quem está debaixo d'água sem respirar há muito tempo. Viu-se sentada na cama, agora com os movimentos totalmente recuperados.
Olhou para o chão, na direção de onde vinha a mão morta de tia Marta, mas não havia nada. Desceu da cama, olhou debaixo e não havia nada. Olhou para cima, para os lados, para todo o canto do quarto e não havia nada. Absolutamente nada.
Luci estava sozinha. Então aquilo fora um sonho?
Ela se acalmou por um instante. Mas sentiu o peso dos dedos e da pressão que a mão exercera em sua barriga. Ela poderia descrever perfeitamente a posição da mão, ainda sentindo-a por cima do abdômen, exatamente como no sonho. Ainda doía. A mão a apertava. Sufocava. Mas agora, doía menos. Luci se sentia protegida dentro do corpo e podendo movimentá-lo.
O estranho era que Luci estava perfeitamente lúcida. Não se sentia bêbada nem de ressaca. Estava normal, em mais um novo dia. Não estava dormente nem psicológica nem fisiologicamente, o que excluía a possibilidade de que tivesse dormido por sobre um braço e assim, seu cérebro a acordara criando um pesadelo, para que desobstruísse o fluxo sanguíneo e permitisse assim que o formigamento resultante de tal dormência passasse, o que acontece com frequência com a maioria das pessoas quando acabam dormindo por cima de algum de seus membros. Não era o caso. Luci estava perfeitamente bem.
Mas como pode ter sido uma experiência onírica tão real? Luci nunca tinha experimentado algo tão vívido quanto aquilo antes, pelo menos não que ela se lembrasse. E o que mais a intrigava era que no sonho, ela conseguiu ver seu quarto perfeitamente bem, claro como o dia. E por falar em dia, viu também a luz da janela, que era exatamente a mesma iluminação de quando se acordou, a luz do sol que indicava que poderia ser em torno de nove horas devido sua intensidade de brilho.
Ok, ela pensou. Seu quarto era um lugar que ela via todos os dias. A toda hora. O cérebro dela poderia facilmente reproduzi-lo com perfeição em sua mente, com todos os detalhes, e tudo exatamente no mesmo lugar. Isso porque era um cenário familiar e frequente em seu dia a dia. Então, mais calma, ela voltou a se sentar na cama. Agora a sensação de peso sobre a barriga já tinha passado completamente. Luci não conseguia mais desenhar a mão e o peso de cada dedo que se instaurava por sobre a região do umbigo. Passou. Tudo passou.
Mas então, em um piscar de olhos, como um eu um clique, algo lhe apertou o coração. Ela olhou para o chão e lá estavam suas roupas, exatamente do mesmo jeito que ela vira enquanto estava paralisada em cima da cama, sem poder se mexer. Luci sequer se lembrava de ter chegado ao quarto, afinal, bebera muito na noite anterior. Então, como em seus sonhos, ela conseguia prever, ou melhor, ver, enxergar como exatidão onde estavam e como e em que posição do quarto estavam atiradas as suas roupas?
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