Os Lúcidos Sonhos de Luci Sabbath — Capítulo 02


Após o episódio da mão, Luci dormiu mais um tempão. Foi se acordar mesmo era quase uma hora da tarde. Avaliou a si mesma. Estava bem, perfeitamente bem. Só sentia uma sede sem tamanho e uma leve tontura, mas bem de leve mesmo, nada com o que se preocupar. Estava restaurada. Com ela era assim, recuperava-se fácil. Não era qualquer bebedeira que a deixava mal.
Luci iniciou então seu ritual matinal, muito embora já tivesse passado da hora de almoçar, abriu a janela, passou uma vassoura no quarto, ouviu uma música, escovou-se, penteou os cabelos e foi para a cozinha atrás do que comer.
Ao chegar lá, encontrou a tia Marta, com uma expressão diferente do usual. Ela estava visivelmente irritada, talvez até mesmo decepcionada com o a atitude de Luci.
— Não faça mais isso. Por favor. — Pede a mulher, tentando manter a calma, mas seu tom de voz estava notavelmente alterado. Estava seco e ríspido, diferente da imagem fofa e acolhedora a que sempre exalava em cada comentário.
— Isso o que? — Pergunta Luci, tentando fingir que nada havia acontecido. Dessa, ela tinha que achar um jeito de escapar ilesa.
— A sorte é que o Mateo estava lá. Se não fosse por ele, quem sabe o que poderia ter acontecido com você, minha filha? Eu deixei o Lucas sair porque você deveria ser responsável e estar CONSCIENTE para cuidar dele, mas pelo visto, foi ele quem cuidou de você! — Ralhou a tia, já no ápice de sua raiva. Mais uma e ela explodiria.
— Desculpe-me. — Disse Luci, na defensiva. — Prometo que não vai mais acontecer.
— Eu passo noites e noites sem dormir quando vocês estão na rua! E sabe o que é pior de tudo isso? Vocês são responsáveis por me manterem acordada! Se se comportassem e agissem como adultos, nada disso aconteceria! Mas essa aflição, essa preocupação, ela não sai de mim! Porque eu sei que vocês não se dão ao luxo de se cuidarem! Não faça mais isso, Luci! Caso aconteça novamente, ficará de castigo até o fim do ano e eu não estou de brincadeira!
— Castigo? — Luci dá uma risadinha sarcástica. — Mas eu já sou adulta!
— É adulta, mas a casa é minha! — Contesta tia Marta, furiosa.
Luci então começa a se enraivecer também, e suas mãos começam a tremer. Ela está ficando vermelha e não era de vergonha, era a ira se apossando de seus vasos sanguíneos e expandindo-os sem precedentes.
— Eu não pedi pra você me trazer para cá depois que eles morreram! — Grita ela de volta, irritada com a tia, referindo-se ao trágico acidente que tirara a vida de seus pais.
Tia Marta parece recuperar a lucidez em um estalo. Quando Luci diz aquilo, a ira e a possessão que nela havia se instaurado, desaparece, e ela volta a ser a doce e ingênua tia que sempre buscou compreender a garota, acolhendo-a em todos os momentos, seja nos alegres e divertidos, seja nos tristes e difíceis.
Uma lágrima escorreu pelo olho esquerdo de Marta. Luci sabia o que isso significava. Quando a primeira lágrima de um pranto sai do lado esquerdo, é porque é de tristeza e em razão disso, sentiu-se a pior pessoa do mundo, também tendo sua ira desfeita naquele momento.
— D-desculpa, tia... Eu... Não queria... Não deveria ter dito aquilo! Desculpa! — Pede Luci, totalmente arrependida por ter agido por impulso.
— Está tudo bem. Arrume seu quarto, hoje é o seu dia de limpar o banheiro. — E passou pela menina, dando-lhe as costas.
Luci estava sozinha na cozinha, mas sentia-se acompanhada. Era o peso do arrependimento.
Lucas entrou no recinto. Vendo a situação da prima, disse-lhe, tocando o ombro:
— Foi mal, eu tentei entrar escondido em casa. Mas ela nos viu! — Sussurra Lucas.
— Não se preocupa. Desculpe, Lucas. Eu falhei contigo. — Diz ela, tentando esconder o choro. Estava quase na superfície e ela podia sentir aquilo a queimando por dentro.
— Você deveria agradecer ao Mateo por ter me ajudado a te tirar de lá! — Diz Lucas.
— Como assim o Mateo? Ele foi? Mas ele tinha me dito que iria ficar em casa porque estava sem dinheiro!
— Luci, você não se lembra? — Pergunta o primo, arregalando os olhos.
— Não. — Diz ela, apavorada. O que será que havia acontecido?
— Você estava passando dos limites. Estava dançando na placa de trânsito como se fosse um pole dance! Aí eu te encontrei por acaso quando eu e os meninos estávamos descendo, eu falei com você e só o que você queria era chamar o Mateo pra te buscar porque você sabia que a mãe iria ficar uma fera se visse você naquele estado. Então eu disse que eu te levava e você, teimosa como sempre, pegou o seu celular e deu para o primeiro estranho que apareceu, pedindo para que ele ligasse e chamasse o Mateo. Por sorte eu o conhecia da escola e ele me devolveu o seu telefone! Então eu cedi e liguei pro Mateo. Ele nos buscou de carro e me ajudou a te colocar no banco de trás. Pense no peso! E na burrice! Você não se ajudava!
— Me desculpe por isso. Você vai deixar de me amar por causa disso? — Pergunta ela, totalmente carente. Lucas abre um enorme sorriso e diz, na brincadeira:
— Mas eu nunca te amei! Hahaha!
— E você sabe que eu também não! — Ela devolve, também sorrindo, em meio a lágrimas que enxiam seus olhos de água, mas não derramavam. Ela não gostava de fazê-lo perto dos outros.
Luci e Lucas se abraçaram por um bom tempo e então ele se soltou, informando:
— Tem arroz naquela panela ali e bife de frango acebolado naquela outra. Mas já faz tempo que a gente almoçou! Você quer que eu esquente?
Luci sente-se acolhida e amada, como sempre se sentira naquela casa até aquela fatídica manhã.
— Não precisa. Obrigada.

Depois de almoçar e de limpar o seu quarto e também o banheiro, como pedira a tia Marta, Luci, escutando uma música em seu radiozinho leitor de CDs (ela era curiosamente uma colecionadora de físicos na era do streaming) pegou seu celular de tela trincada que agora estava mais trincada ainda (ela não se lembra, mas provavelmente deixara cair novamente quando bêbada) e chamou por Mateo.
"Ei, temos que conversar. Topa sair pra espairecer?" teclou Luci.
Menos de dois minutos depois, o celular vibrou. era Mateo, prontamente respondendo a mensagem.
"No parquinho às 17h?", digitou ele. Esse era o ponto de encontro aos domingos.
"Ótimo". E o assunto morreu por ali, pelo menos até eles se encontrarem pessoalmente pontualmente no horário marcado.
No parquinho, uma pracinha com playground para crianças, próxima da casa de ambos, ainda dentro do bairro onde moravam, Mateo estava sentado em um banco de concreto comendo pipoca.
— Mateo! — Grita Luci, assim que o vê. — Você precisa me contar! O que foi que aconteceu?
— Você está bem? — Pergunta ele, visivelmente preocupado com a menina.
— Não é qualquer porre que me derruba! — Diz ela. 
— Luci, você estava tão mal! Estava fora de si! — Inicia o colega. — Você bebeu tanto que deve ter vomitado horrores quando chegou em casa!
— Não! — Contesta Luci. — Eu não vomito espontaneamente quando estou bêbada. Se eu vejo que eu estou começando a ficar ruim, eu mesma vou ao banheiro e coloco os dedos na goela para poder melhorar. Tirar aquela substância ruim de dentro de mim. É o que eu chamo de bulimia do trago. — Ela ri, mas Mateo não acha a menor graça.
— Isso não presta! Bom, pelo menos não foi no meu carro... — Diz ele, pensativo. — Luci, você me deixou tão preocupado! Nossa... Ainda bem que o seu irmão me ligou!
— Que irmão, o que? Ele é meu primo!
— Que seja! — Devolve Mateo. — Se a gente não tivesse aparecido para te socorrer, sabe-se lá o que poderia ter te acontecido! Você estava jogada no chão que nem uma drogada! Você poderia ter sido roubada, assaltada, ou pior: estuprada!
— Ai que ótimo que teria sido! — Diz ela sarcasticamente.
— Luci, é sério! Eu não estou brincando. Não faz mais isso, por favor!
— Eu deveria ter ido a pé pra casa... — Comenta ela.
— Nem brincando! — Confronta o garoto. — Que perigo!
— Obrigada por se preocupar comigo, Mateo! De verdade. Mas eu estava feliz e valeu a pena! Foi uma noite incrível. Sozinha nas estrelas. Quando eu bebo, eu alcanço um nível de felicidade que eu jamais consigo atingir quando estou sóbria! E é tão bom! Mesmo eu sabendo das consequências, eu ainda acho que vale a pena!
— Tem que se cuidar, mocinha! — Diz ele. — Eu pego no seu pé porque me preocupo contigo. Não faz mais isso, por favor.
— Está bem. Eu prometo. — Luci nem sequer sabia se conseguiria cumprir aquela promessa por mais de uma semana, mas mesmo assim, jurou ao amigo.
— Mas e aí... Aproveitou mesmo? Como foi a noite? Deve ter sido incrível, porque quando eu cheguei, você estava rindo a toa! — Diz ele, relembrando do momento em que teve de colocar uma garota teimosa e pesada para dentro do carro à força, pois ela não queria se ajudar.
— Sabe o Pedro da copa? Pois é... Ele tinha uma namorada e ela tava sendo sugada pelo Leo em público!
— O QUE?!
— Não, não é isso o que você está pensando! — Corrige Luci, prontamente. — Mas foi quase! Você precisava ver. Que nojo! Era tanta saliva que devia ter pingado até no chão. Eu aposto que quando eles saíram dali, tiveram de cobrir as partes íntimas com as mãos, porque as roupas deveriam estar encharcadas!
— E você só cuidando, não é? — Observa espertamente Mateo.
— Ora! Eu tava era com nojo!
— Não sabia que ciúmes tinha mudado de nome! — Ponto pro Mateo.
— Mas o que--? Está bem, está bem! Eu estava com ciúmes sim, e daí? Aquele Leo é mó gostoso, não tem como não querer ficar com ele!
— Ah, tem sim! — Diz Mateo, colocando a língua pra fora com uma expressão de nojo. Ele era cem por cento heterossexual (muito embora isso não significasse que ele fosse homofóbico).
— Eu acho que é você quem está com ciúmes, Mateo! — Rebate Luci. Ponto pra ela.
— O-o que? — O garoto fica vermelho e tenta disfarçar. — N-não! Claro que não! Eu só constatei!
— Aham! Tá bom! — Ri Luci, debochando do amigo. — Mas mudando de assunto, essa noite... Ou melhor, já era de manhã... Eu tive um sonho maluco!
— Ih, eu sabia que aquela alegria toda não podia ser só bebida! — Brinca Mateo.
— Para! É sério! Foi um sonho muito real! Eu estava acordada, na minha cama, mas não conseguia me mexer. — Começa a narrar, ela. — Aí veio uma mão e me pegou pela barriga e...
— Nossa! Que mão tarada! Pode parar por aí! Poupe-me dos detalhes sórdidos! — Brinca Mateo.
— Ai, Mateo! Para! Não dá risada! Foi assustador!
— Mas é isso, não é? Sonhos são só sonhos. Já passou. — Diz ele, tentando acalmar a menina.
— Às vezes eu acho que não sonho, mas vivo uma outra vida em um mundo paralelo quando durmo. — Reflete Luci. — Mas me diz aí... Não quer saber mesmo o que a "mão tarada" fez comigo?
— Ah, assim você me mata! — Ri Mateo, e de repente, estava tudo bem.

Assim que botou o pé em casa, à noitinha, Luci sentiu que algo estava errado. Tinha uma energia ruim naquele lugar. Ela conseguia sentir isso. Estava crescendo e se acumulando cada vez em mais cômodos da casa, como um chiclete pegajoso que além de grudar, se multiplicava, ficando um pouquinho em cada parte.
— Credo, tá amarrado! — Diz ela, pensando consigo mesma, quando um arrepio percorre sua espinha, ao entrar pela cozinha.
Naquele domingo, depois de recuperada do trago e devidamente hidratada, Luci dormiu cedo, pois a segunda-feira estava aí e a semana seria longa... Longa e infernal, como sempre naquela odiada loteria. Mas o que Luci não fazia por uma boa remuneração, não é? Às vezes, ela se pegava perguntando se valia a pena ser escrava desse sistema falho que só traz raiva e dependência, mas ela não tinha uma alternativa melhor. Ao menos, não conseguia bolar nada do tipo.
Adormeceu e em seus sonhos, desta vez não tão sombrios, Luci estava cantando a música "Sweet Dreams" do Eurythmics. Como ela havia chegado a uma música tão aleatória em seus sonhos, sendo que jamais escutara ela naquele dia ou antes disso, naquela semana? Luci não sabia, mas em seus sonhos, repetia as frases em inglês correta e impecavelmente.
Ao acordar-se no outro dia, com o maldito despertador (sua tia não a chamara mais cedo, desta vez, talvez ainda estivesse ressentida pelo desentendimento que pesara o ambiente daquela casa) e adivinhe só: que música estava na cabeça dela? Isso mesmo. A mesma canção aleatória, que surgiu do nada para ela em sonho. Luci tentou se lembrar quando foi a última vez que ouviu Eurythmics e não conseguiu encontrar vestígios na memória. Realmente fazia muito tempo que não escutava. Como em sonho, ela teria conseguido se lembrar perfeitamente da letra da música em uma língua estrangeira sendo que sequer ela tinha pensado na referida melodia, acordes ou mesmo vocais, durante muito, muito tempo?
Essa era uma pergunta que não sabia responder, mas Luci creditou isso à sua extraordinária facilidade em decorar letras de música. Seu cérebro estava turbinado nesse sentido, mas ela só não conseguia entender porque a aleatoriedade. Deu de ombros e foi tomar um banho. Tinha um longo dia pela frente e decidiu focar em coisas mais importantes.

Naquele dia, a jovem foi de ônibus para o trabalho e durante o caminho, ficou o tempo inteiro no celular escrevendo poemas que envolviam desde temas como liberdade e até culpa, sempre envolvendo alguma polêmica no meio. Ela gostava de causar e não tinha vergonha nenhuma de fazer isso quando detrás de seu pseudônimo: Maya Blaster.
Por ter ido de condução, Luci chegou cedo ao trabalho e antes mesmo de a loteria estar aberta, já tinha uma fila de pessoas esperando para serem atendidas, e o pior: já estavam fazendo perguntas e atrapalhando o som de seus fones de ouvido, sendo que ainda faltava pelo menos dez minutos para as portas se abrirem.
Luci respirou fundo e incorporou a personagem alegre e sorridente que seu emprego a obrigava a encenar e encarou a adversidade de frente, como um general vencedor de muitas batalhas. A garota não tinha nenhuma dúvida de que nascera para as artes, mas nunca tentara cênicas. Talvez fosse a hora de explorar este caminho, porque da Arte da Guerra, ela já estava farta.
Quando estava perto do horário de meio dia e o estabelecimento ficou mais calmo, Luci teve um tempinho de respirar e conversar com Mateo.
— Estou tendo umas ideias para postar no perfil da Maya! — Disse ela, referindo-se a um perfil que criara em uma rede social qualquer para divulgar suas poesias e textos de alta crítica e humor ácido.
— Isso realmente te faz feliz, não é? — Pergunta Mateo.
— Muito. — Para falar a verdade, escrever era a única coisa que Luci não se importava de fazer. Trabalharia de graça se fosse o caso, mas daria tudo de si para exercer esta profissão.
— Acho que você está no curso errado. — Constata Mateo, referindo-se ao curso de Administração que a menina tirava no período da noite. — Você deveria fazer letras!
— Já pensei na possibilidade... Mas, sabe... Viver como professor em um país que só valoriza a bunda é foda! De qualquer forma, eu ainda me sentiria bem dando aula! Talvez eu faça letras-inglês em um futuro próximo... Ou quem sabe Filosofia? Meus textos em tudo tem a ver com isso! Ou ainda física? Estudar a astrofísica e a linguagem do Universo sempre me pareceu encantador!
— Você não para nunca! Queria ser assim! — Diz Mateo.
— E eu queria ser como os nossos ancestrais... Lá da época das civilizações antigas... Do império grego e romano... O que veio antes da idade das trevas, quer dizer, da Idade Média e da ascensão da igreja católica no poder. Os sábios se especializavam em tudo, um pouco. Sabiam sobre a matemática, as linguagens, a biologia, a física e a astronomia... Eu queria ser um sábio erudita assim, só que nos dias atuais. Estudar para obter o conhecimento e aplicá-lo como um critério de evolução pessoal e passá-lo adiante... Hoje em dia, o aprendizado só serve para vender, gerar lucro. Eu não quero estudar para trabalhar, quero estudar para entender e compreender todas as coisas.
— Esse é um ótimo ponto de vista! — Elogia Mateo. — Mas, me diz uma coisa... O que você tem contra a igreja católica?
— Nada. — Responde imediatamente Luci, e como que em um estalar de dedos, uma ideiazinha marota pula para fora de sua mente. — Ei! Mateo, você sabe que eu não sou adepta a uma religião, mas pelo contrário, absorvo os melhores ensinamentos de todas elas e misturo com a ciência para criar uma versão mais humanista e evolucionista da nossa existência, portanto, não sigo a crença dos outros, mas moldo a cada dia que se passa, uma própria. E se... E se eu, ou melhor, e se a Maya Blaster reunisse tudo isso que ela pensa sobre a vida e o mundo em um livro filosófico sobre a razão de existir, assim como os discípulos escreveram o novo testamento?
— Você acha que tem capacidade de assumir tamanha responsabilidade? Inventar uma crença? Escrever uma nova Bíblia? Ou um novo Alcorão? Torá, nem que seja...
— É barra, né? — Pondera Luci. — Mas é melhor inventar uma crença livre e aberta para todos do que viver preso nos moldes que alguém criou há dois mil anos atrás ou mais com a mentalidade da época.
— Boa. — Concorda Mateo, mesmo sendo católico. — E como você chamaria esta nova "religião"?
— Bom, não seria uma religião nem uma doutrina a ser seguida, mas pelo contrário: uma maneira de pensar que te liberta da necessidade de seguir e ser doutrinado. — Ela para e pensa. — Hmmm... Todas as grandes religiões terminam com o sufixo "ismo", certo? Cristianismo, Budismo, Islamismo, Judaísmo... Então a minha também terminaria com ismo... Que tal... Mente-Abertismo?
— Mente-Abertismo? O que é que é isso?
— Vem de Mente Aberta + Ismo! — Responde a garota.
— O que te faz pensar que na época, quem escreveu os livros sagrados de qualquer uma dessas religiões que você mencionou não fosse mente aberta?
— Na época, meu jovem. Na época. — E Luci riu sozinha, já imaginando como seria escrever sobre aquilo. Sobre as experiências que guiam para uma iluminação própria, das coisas que ela sentia quando estava ébria e cambaleante. Do amor incondicional e da clareza com que via as coisas naquele estado.
— Ih, olha lá quem vem! — Diz Mateo. — É pra ti!
Era a Dona Maldiva.
DE NOVO.

Ela se aproximou do caixa de Luci e ficou quieta, não disse nada.
— O que era pra senhora, Dona Maldiva? — Pergunta Luci, com todo o seu carisma falso, mas que encantava os velhinhos.
— Eu vim receber. — Disse ela.
"Outra vez? Nãooooo..." Pensou Luci, já cansada dessa brincadeira.
— Mas hoje não é o dia da senhora receber. É só dia 27 de maio! Hoje recém é dia 6, uma segunda-feira.
— Mentira! Esse governo está falido! Que roubalheira! Não querem me pagar! Mas deixa, eu vou chamar um advogado! — Disse a velha, furiosa.
— Dona Maldiva, hoje recém é dia 6, a senhora recebeu faz mais ou menos uma semana! Agora tem que esperar o mês passar para receber de novo! Eu não posso sacar um dinheiro que a senhora não tem!
— Tenho sim! Você é que não quer me pagar! — Ralha a velha, se achando com razão.
— Não é que eu não queira lhe pagar, Dona Maldiva, é que ainda não está na data! — Diz Luci, juntando lá no fundo, o interior do interior, um restinho de paciência para tratar com a velha.
— Ah, então eu vou jogar! — Diz a velha, pegando um daqueles cupons para preencher jogos de aposta que se faz em loteria.
Luci, ao ver aquilo, explode. Ela ainda não havia se esquecido que a maldita a chamara de gorda.
— Então é pra isso que a senhora quer tanto dinheiro? Pra gastar com jogo? — Critica Luci, quase se avançando na velha por detrás do vidro.
— Dona Maldiva! — Chama Mateo, que estava liberado no caixa ao lado, ao perceber que Luci se levantara, os olhos queimando de raiva. — A senhora tem um papelzinho com a data, a gente anotou para a senhora! Ainda falta bastante tempo, é só dia 27! Hoje é dia 6!
A velha parou e começou a olhar para Mateo com um semblante confuso.
— Dia 6?! — Ela se perguntou, totalmente confusa, fazendo um silêncio prolongado, como se seu cérebro estivesse processando a informação à manivelas.
— É, Dona Maldiva! Hoje é dia 6! Ainda falta bastante tempo pra senhora poder vir aqui sacar, está bem? Pede para alguém lhe orientar a olhar certinho para a senhora no calendário de pagamento! — Diz Mateo com toda a calma do mundo. — A senhora tem filhos, não é? Pede pra eles. Pros seus netos, talvez. Depois a senhora volta aqui, vem na data certinha, que a loteria faz o seu saque da conta do banco!
A velha continuava em silêncio quando de repente, de supetão, parece ter mudado de ideia:
— Ah, eu devo ter me enganado. — E virou as costas, sem mais nem menos, sem dar nenhuma explicação, capenga de uma perna.
Quando chegou na porta, prestes a sair, ela se virou e dirigiu um olhar intrigado a Luci:
— Mas você não é a filha da Laurinha?

Durante o intervalo, Luci foi para casa almoçar. Ela tinha uma hora e meia de descanso e obviamente, não tinha tempo de cozinhar. Chegou e o cheirinho estava irresistível, mexendo com sua barriga, que roncava alto só de de sentir aquele aroma encantador. Tia Marta havia preparado seu prato favorito: arroz de carreteiro com feijão novinho e é claro, uma pitada de tempero verde e limão azedinho por cima.
Por um momento, Luci se sentiu culpada. O peso voltou às suas costas. Havia alguma coisa naquela casa, ela conseguia sentir. Alguma coisa que estava tentando afastá-la de sua tia e pelo visto... Estava conseguindo.
A comida extremamente saborosa foi inteiramente ofuscada por um congelante silêncio que cortava o coração das duas. Lucas até tentava conversar com ambas, estimulando a prosa, mas uma se sentia mais envergonhada do que a outra.
A comida estava entalada na garganta, mas não era só ali que havia algo preso, pensou Luci. Ela olhou na tela trincada do celular e constatou que ainda tinha um tempinho. Resolveu se deitar um pouquinho, não para dormir, mas para descansar o corpo, pelo menos. Contudo, mantinha um alarme sempre ativado no aparelho celular para nunca acontecer de pegar no sono e perder o horário (o que era frequente).
Foi até o sofá da sala e se escorou entre as almofadas aconchegantes, tentando esquecer o peso que a fazia se sentir culpada. Por que dissera todas aquelas coisas para a pobre da sua tia? Que culpa Marta tinha de Luci viver uma vida estressante e exaustiva? Aquilo foi um momento explosivo e sem responsabilidade para com o próximo, sem um pingo de consideração... Foi um desconto. Luci descontou suas frustrações na tia, assim como descontava no próprio fígado todos os fins de semana.
E ela continuou pensando nisso e pensando nisso, até que uma força fora de seu controle puxou esses pensamentos para longe, afastando-os cada vez mais e mais, mais e mais... O corpo de Luci foi relaxando e ficando mais leve, os músculos se soltando e a tensão se desprendendo. Ela estava deixando o plano do consciente para se aventurar nas nuvens eufóricas de alegorias embaralhadas e etéreas e por muitas vezes, sem sentido, dos floreios do subconsciente.
Luci não se lembrava de nada daquele momento em que começara a dormir. Ainda não estava na faixa R.E.M., mas se lembra perfeitamente de ter acordado e estava deitada no sofá da sala, de volta àquele momento do pós-almoço. Vestia-se exatamente como estava antes de dormir e abraçava-se em uma almofada igualzinho à maneira que estava antes de deixar o estado de vigília. Contudo, a iluminação era fraca, de um modo que se parecia com tarde da noite, de madrugada. Eram tons de preto e azul, como que em momentos que você consegue enxergar as coisas no escuro, mas não define tudo muito bem.
Então, sentiu uma presença. Era pesada e forte. Dava para senti-la ocupando aquele cômodo e não só onde se encontrava, mas por todos os cantos da sala. Era a Tia Marta, mas ela estava mudada. Sua pele era cinza e enrugada, muito mais velha do que Luci se lembrava. Estava com um cabelo diferente, era longo e picotado nas pontas, com mechas claras, muito diferente do visual de costume de tia Marta, e por fim, era possível destacar que este cabelo estava molhado.
Os olhos dela estavam rodeados por pés de galinhas nítidos e escancarados. Seus dentes caninos eram pontiagudos e animalescos e os olhos tinham uma maldade sexual contida neles. Aliás, todo o seu corpo e movimentos tinham uma tensão sexual forte que Luci jamais sentira. Tia Marta exalava feromônios, no que Luci lembra de pensar consigo mesma: "Tarada"!
E Tia Marta subira por cima de Luci no sofá, sentando-se em seu colo. Luci não conseguia se mexer. Sentia o peso de tia Marta por cima de si. Estava apertando, sufocando.
Tarada! — Gritava Luci.
TARADA!
Mas Tia Marta sorria com uma cara de deboche. Tinha escárnio naquele olhar. Ela era maligna, perversa. Era outra pessoa e não a amada tia que Luci conhecia.
Luci tentara se desprender, mas seu corpo não respondia. Estava congelada na cama e consciente, de novo.
Tia Luci, ainda sorrindo com aquelas presas gigantescas, afiadas como espadas, foi se abaixando lentamente, na direção da cabeça de Luci. Ela se aproximava e se aproximava, cada vez pesando mais e Luci tentando se libertar. Mas nada surtia efeito. A mulher de semblante velho e exaurido pelo tempo se abaixou e seus lábios rachados como os de um defunto, ou pior, uma múmia, quase encostaram nos de Luci, que começou a gritar desesperada, tentando fugir. Tarada! Tarada! Socorro! Pare!
Mas nada adiantava. Luci gritava, mas sua boca não se abria, estava paralisada. O corpo não respondia, mas ela sentia tudo ao seu redor, principalmente aquela energia pesada e sexual que estava preenchendo aquela casca vazia que não era tia Marta, mas algo muito pior e perverso.
Então, quando os lábios das duas estavam quase se tocando, a tia Marta zumbi abriu a boca e seus dentes de vampiro reluziram no escuro, ela ergueu a cabeça e rapidamente abaixou, fincando-os no lado direito de seu pescoço, sugando-o como um parasita.
"AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH!"
Luci levantou-se de súbito, sentindo-se sufocada, acordada pelo despertador. Ela estava de volta ao mundo real, muito embora em seu sonho, ela também estivesse e inclusive, era no mesmo local de quando se acordara. Seu coração estava saltando para fora do peito, tão agitado que parecia que ela tinha misturado energético com sabe-se-lá mais o que. Era uma taquicardia absurda.
Medo.
Luci sentou-se no sofá e tocou no pescoço, exatamente no local onde a tia Marta cadavérica havia fincado suas presas sanguinárias e não estava doendo nem havia nenhum tipo de desconforto, mas uma sensação de toque. Tato. Alguma coisa havia encostado naquela área e o corpo de Luci reconhecia isso.
Mas como explicar que havia sido tocada por uma coisa que só existia em seus pesadelos? O suor quente e pegajoso em sua testa apenas confirmava.
Luci decidiu deixar isso para lá. Tomou um banho correndo, pegou uma maçã para a tarde, um casaco para caso esfriasse e desejou ver a Dona Maldiva novamente. Ela era muito menos assustadora do que aquilo.

Luci chegou à loteria novamente e foi correndo contatar-se com Mateo.
— Nem sabe! Tive um sonho estranho de novo! E era sexual! — Diz Luci, muito assustada.
— Ei, ei, ei! Eu já te disse! Poupe-me dos detalhes sórdidos! — Ri Mateo, não entendendo a preocupação da colega.
— Para, bobo! Eu to falando sério! Tem alguma coisa naquela casa! Eu posso sentir! E é uma energia feminina! Eu sinto isso, Mateo! Está lá, impregnado naquela casa, destruindo-nos pouco a pouco! Rindo da nossa cara!
— Acho que você está olhando séries demais! — Brinca Mateo, ainda sem notar a aflição da menina.
— Aff, Mateo! Às vezes não dá para querer conversar com você! Vá trabalhar, vá! — Diz ela, afastando-se emburrada.
— Ei! Vamos combinar de sair depois, aí você pode me contar essa história certinho!
— Hoje não dá... Eu preciso dormir. Depois desse sonho, parece que eu me acordei mais cansada do que eu estava quando fui dormir. Isso nunca te aconteceu? Que estranho... Como pode ser possível?
— Talvez você não tenha dormido, talvez estivesse travando uma batalha psíquica do outro lado. Os soldados voltam cansados da guerra.
— Mortos, Mateo. Exaustos e mortos...

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