Os Lúcidos Sonhos de Luci Sabbath — Capítulo 03


Naquela semana, Luci continuou se sentindo pior depois de acordar do que antes de ter ido dormir. Sentia-se cansada, exausta e ao mesmo tempo, a cama parecia lhe chamar, sussurrando em seus desejos mais profundos para que ficassem juntas... Por uma manhã toda. Por uma tarde toda. Um dia todo. A cama pertencia à Luci e Luci pertencia à cama. Como era bom dormir e parecia que ela estava precisando mesmo disso. Dormir. Dormir. Dormir e dormir. Era como se quanto mais ela dormisse, mais ela quisesse viver do lado de lá. Mas eis que uma dúvida surge em sua cabeça...
— Mateo... Sabes que não sei se sou uma mulher sonhando que sou uma borboleta ou se sou uma borboleta sonhando que sou mulher...?
— Chuang Tzu! — Diz Mateo, entendendo a referência.
— Com uma pitadinha de Simone de Beauvoir! — Brinca Luci, que estava saindo do trabalho ao lado de Mateo naquela sexta-feira, exausta. Estava próximo da época do vencimento das contas (dia 10) e o povo brasileiro, como de costume, adorava deixar tudo para a última hora, lotando as loterias e bancos, formando filas infernais tanto para quem espera quanto para quem atende, do outro lado. — Mas, é sério mesmo! Quando eu durmo, eu tenho a nítida impressão de que as coisas que eu vejo... Eu vivo. É como se... Fosse real, sólido, concreto. Não parecem ser simples sonhos. É vida! É material! É... Um outro mundo. Você nunca parou e se perguntou se quando a gente fecha os olhos aqui, a gente não acorda em outro planeta? E em outro, e em outro, e em outro... Sucessivamente, até todas as possibilidades terem acabado e a contagem reiniciar e você abrir os olhos aqui de novo? Ou... Quem sabe essa realidade é só um jogo e quando "a vida" está acabando, a gente dorme, volta para o nosso mundo de origem e quando queremos nos divertir, a gente se conecta e vem para cá de novo? Eu penso que posso estar vivendo uma vida aqui e agora, mas quem disse que essa é a minha verdadeira vida? Quem disse que "Luci" sou eu de verdade? Foi o nome que me deram quando eu nasci, quando eu vim pra esse mundo... Mas quem disse que a verdadeira realidade é esta que vemos? Não há como saber. O mundo dos sonhos é tão real para mim quanto esse. Os dois lados da moeda parecem ser nítidos e palpáveis. Eu consigo sentir, ver, compreender, ouvir, tocar... Mateo, eu vivo quando eu sonho. Eu vivo quando eu acordo. Será que a gente descansa mesmo, ou a gente só troca de plano quando fechamos as pálpebras à noite?
— Que viagem... Mas eu entendo! É como se... Tudo o que a gente viveu aqui fosse só mais uma de nossas muitas vidas, em muitas realidades paralelas. É isso?
— Exato! Porque... Mateo, eu juro por Deus... Eu tenho sentido uma presença lá em minha casa e eu consigo senti-la fisicamente. Consigo tocá-la. Sentir na pele, literalmente, o toque da vagabunda. E eu a vejo em meus sonhos, eu me vejo, na minha própria casa, com tudo mobiliado, tudo no lugar... Mas eu estou dormindo. Eu ME vejo dormindo. É como se fosse... Projeção Astral! Alguma coisa que esses gurus da pseudo-ciência usam como tema de livros e palestras para ganhar dinheiro nas costas de um povo ignorante e burro capaz de comprar qualquer ladainha desde que explique o inexplicável de forma simples, mesmo que não faça o menor sentido! Mateo... Eu vivo aqui e eu vivo do lado de lá. Eu sinto isso. Eu toco isso. Eu não sei o que está acontecendo, eu preciso de ajuda.
— Nossa! — Mateo se arrepiou. Não era do feitio dele se assustar quando se falava em fantasma.
— E eu tenho a sensação de que ela, a entidade, está alojada em algum lugar do pátio, mais precisamente nos fundos da minha casa. Como? Não sei, não me pergunte! Eu só sei que tenho isso comigo, essa sensação de que sei que algo de muito errado está acontecendo do outro lado e eu não consigo ver isso enquanto estou dentro do corpo. Talvez quando eu venha para o corpo seja um refúgio, um abrigo, um local seguro... Mas quando eu me desprendo dele, eu consigo ver e sentir tudo, inclusive este espírito que ronda a minha casa, torrando a minha paciência e todas as minhas energias...
Mateo ficou quieto por um instante... Ele não sabia o que falar, não sabia como ajudar.
— Você já falou isso pro seu terapeuta? Talvez ele possa ajudar... Talvez o seu subconsciente esteja manifestando alguma dor que você não compreende, ou algum trauma que a sua mente tenta esquecer, mas está lá. Guardado no fundo da caixinha das memórias e de tudo o que você viveu.
— Não, não é uma questão de sonhar, Mateo. Sonhos são como histórias contadas. Você não tem controle sobre a narrativa. Outro alguém é o diretor do filminho que se passa na sua cabeça, é algo alheio às suas vontades. Tem alguém te contando uma fantasia sob uma determinada perspectiva. O que eu sinto é que tenho o poder de escolha e de tomada de decisão, o poder sobre um corpo, de movê-lo na direção que eu bem entender e de sentir as coisas tocando nele. Eu vejo os detalhes, vejo as coisas, vejo tudo... E eu sei que estou "acordada" do outro lado! Então é como se quando eu dormisse aqui, eu acordasse lá e quando eu acordo aqui, lá eu adormeço. Entende? É... Tipo um sonho consciente. Tipo a Luci daqui desperta lá. E a Luci de lá, desperta aqui.
— Que poético!
— Não é poético, Mateo! É filosófico! E real, pelo menos comigo.
— Luci, posso te falar uma coisa? Não vai ficar brava?
— Pode, ué. — Responde a menina.
— Eu acho que você sonha e fica impressionada com os seus sonhos. — Diz o colega, descrente em Luci. — Daí quando você se acorda para o mundo real, você acha que tudo aquilo que "viveu" foi verdade, mas não foi... Foi só uma ilusão causada pelo seu cérebro. Você tem que lidar com isso.
— Eu sei distinguir o que é sonho do que é real, Mateo. — Luci contra-argumenta. Ela estava determinada a fazê-lo acreditar naquilo que só ela via quando ia se deitar. — Pense comigo... Imagine uma árvore. Imaginar uma árvore, é uma coisa. Ver uma, é outra!
— Como assim? Árvore? Que droga você andou fumando? — Ele brinca, risonho, mas Luci não gostou.
— Mateo, quando você imagina uma árvore... É como se fosse uma foto velha ao qual observamos. Há detalhes, mas eles são obscurecidos por um blur e uma falta de foco... Há a imagem como um todo, mas ela é borrada, como se fosse distante e etérea. Imaginamos um tronco, as raízes, galhos e folhas... Imaginamos tudo de uma só vez, mas não conseguidos compreender os detalhes. A árvore está lá, mas ela não pode ser analisada de perto. Ela é só um desenho que você criou em sua cabeça, uma representação de uma árvore, e não a árvore propriamente dita. Mas quando VEMOS alguma coisa, conseguimos distinguir cada detalhe, cada ranhura na casca, cada centímetro de folha seca, cada cicatriz deixada por algum arranhão na superfície, cada gota de seiva que escorre pelo tronco... Eu VEJO as coisas nos meus sonhos, Mateo. Eu posso tocá-las e conscientemente, ou seja, com intenção e força de vontade, eu posso fazer o que eu quiser lá, porque eu estou viva! Eu estou viva!
— Nossa, que brisa, hein? Eu queria estar nessa vibe! — Debocha Mateo, na zoeira.
— Não, você não queria... Eu acho que o meu lugar é lá, do outro lado, mas ao mesmo tempo que é livre e é divertido, feliz... Leve... Também é perigoso. Muito perigoso. Então às vezes, eu acho que eu estou protegida quando estou aqui, nesse corpo. Como se as almas perdidas não pudessem me fazer nenhum mal enquanto estou nesta cela de carne. Aí eu prefiro viver aqui.
— Você fala como se todos nós não nos sentíssemos de outro planeta! — Intervém Mateo.
— Ah, até parece! Você é que não deve se sentir assim! É o popular, o "garanhão". Vai para as festinhas, tem a sua rodinha de amigos héteros que só pensam em coisas não-produtivas, senta-se no fundo da sala... Eu sou a garota que se senta bem à frente da professora e ainda assim, sempre sou ofuscada, porque passo despercebida por todo mundo, quase como se fosse invisível...
— Você sabe que eu não sou assim! E você também não!
— Não, você não é, mas anda com eles, se mistura com eles...! Sente o que é ser parte deles. Eu não consigo, não tenho essa habilidade social de segurar o vômito por tanto tempo... — Luci começa a rir.
— Sua boba!
— Bobo é você! Escuta... Como eu ia dizendo, as coisas que eu vejo são muito reais, Mateo. E eu quero que acredite em mim, porque eu sinto que estou precisando de ajuda.
— Luci, eu quero acreditar em você, mas você sabe que eu sou bastante cético com essas coisas. Quer um conselho? Acho que você deveria focar em escrever o "Mente-Abertismo". Talvez se afastar faça você esquecer disso por um tempo e quando vê, já acabou... Acho que é o único conselho que eu consigo te dar nesse momento. Desculpa não conseguir compreender com clareza o que você está passando. Mas... É isso. Acho que é o conforto que eu posso te oferecer nesse momento, esse singelo conselho de amigo, mesmo que não condizente com as suas expectativas. Espero que não fique magoada comigo.
— É... Sabe? Acho que tens razão. Vai ser o que vou fazer durante o fim de semana! Reescrever a Bíblia e começar uma nova religião! Nada mal para uma garota que veste látex e desce na boquinha da garrafa todo fim de semana!
— A Luísa Sonza sempre disse que uma boa menina faz assim, não é mesmo? — Ri Mateo, finalizando assim aquele assunto, com uma boa dose de gargalhadas saudáveis e despreocupadas. Eles eram amigos e mesmo que um não compreendesse o outro a fundo, ainda assim podiam fazer essas conexões e viver tudo de uma forma leve e descontraída. Eles tinham esse poder.


Naquele sábado, Luci tinha algumas horas extras para tirar e resolveu ficar em casa durante a tarde é claro, coma permissão do chefe. Depois de varrer toda a casa, arrumar as camas da tia e do primo, passar um pano na cozinha, lavar o banheiro e esfregar algumas roupas e panos de prato que estavam precisando de uma geral, Luci se sentou à mesa da cozinha e pôs uma folha de caderno à sua frente.
Luci era uma artista. Quer dizer... A Maya Blasters que havia dentro dela. Ela escrevia textos, fazia desenhos, todo o tipo de coisa. A mente dela era fértil, mas naquele dia, ela não parecia tão inspirada assim...
Colocou no topo do papel o nome "Mente-Abertismo" e baixou a cabeça, tentando contrair do universo algumas ideias para começar o seu projeto.
— Pensa, Luci... Pensa...  — Mas nada lhe vinha à cabeça. — Você é tão criativa — dizia ela para si mesma. —, não vai dar mole para um bloqueio quando as pessoas desse mundo mais precisam da tua ajuda, não é?
E então, sem surgir nada de interessante para escrever ou rabiscar na formas de figuras e desenhos que representassem aquilo que estava estava sentindo com relação à sociedades e a sede de respostas que a vida trazia a todos os seres humanos, em um momento ou outro da vida, ela resolveu ir pelo caminho contrário... Pegar o que ela via de RUIM nas antigas escrituras para contra-argumentar com pensamentos atuais que defendiam a ideia de observar o que realmente era importante de as pessoas em geral entenderem e absorverem para suas vidas.
— Bom, o mal das religiões atuais é que as pessoas seguem à risca aquela linha que eles defendem como CERTA. Eu discordo. Quem disse que o único caminho para a vida feliz e dentro dos limites sociais é uma linha reta? Qual o problema das pessoas que elas não conseguem enxergar que aqueles que não traçam uma trajetória linear, mas curva, também merecem ser feliz? Curva e não torta, digo. Todos merecem uma chance. Todos merecem "o céu". Então como...? Eu me pergunto como as religiões conseguem manter as pessoas presas nessa linha, obrigando-as a seguirem sempre na mesma direção, mesmo muitas coisas sendo consideradas... Ultrapassadas e fora de contexto, depois de tantos anos? — Então a lampadazinha mágica brilhou em cima da cabeça de Luci. — Já sei! Os dez mandamentos! Eu vou criar "dez mandamentos" que ensinem para as pessoas a não seguirem mandamentos! É simples! Estou indo na lógica para defender a contradizer a lógica!
E então, assim que Luci colocou a caneta sobre o papel, seu celular de tela trincada vibrou, perturbando sua ideia.
Ela foi olhar a mensagem e era Mateo, que deveria estar no trabalho naquele momento.
"Adivinha quem esteve aqui, perguntando por você, ou melhor... Pela "filha" da Laurinha." — Dizia ele, no corpo do texto.
"Ah, não. Outra vez?" — Luci mandou uma enxurrada de emojis rindo.
"Escuta, você vai à festa hoje à noite?" — Mandou ele instantaneamente.
"Que festa?" — Pergunta Luci, que no mesmo momento, ficou preocupada. Estava quebrada.
"O aniversário da Sara! Você não se lembra? Ela convidou a gente!" — Mandou Mateo.
Naquele momento, Luci deu um tapão na própria testa que, como era muito branca, ficou com um vergão vermelho e o sinal dos dedos.
— Putz. — Diz ela em alto e bom som. — Eu me esqueci completamente!
Luci imediatamente tecla para Mateo:
"Nos encontramos aonde? Eu não quero chegar lá sozinha".
E ele então responde:
"Às 8h, no lugar de sempre".
Luci tecla de volta:
"Beleza. Combinado".
E então, colocando o celular na mesa de novo, ela parece que se arrependeu. Pegou o telefone e colocou no bolso. Havia se esquecido do aniversário e portanto, nada havia comprado para dar de presente à Sara. Amassou a folha onde escrevera apenas o título "Mente-Abertismo", fez uma bolinha e jogou no cesto de lixo. Mais tarde, ela pensaria nisso. Agora tinha de sair urgentemente para achar alguma futilidade material que agradasse o senso comum de dar algum presente àqueles que completavam mais um ano de vida.

Luci achou uns brincos fabulosos que eram a cara de sua amiga Sara: Pequenos pingentes em forma de boca dourada, banhados em ouro. Aquilo deveria dar para o gasto.
Chegou em casa às pressas, fez a comida para sua tia e seu primo, mesmo que o sol ainda estivesse alto no céu e deixou tudo preparado para a noite. Naquele dia, ela precisaria ir mais cedo para a farra e dessa vez, era por uma boa causa. Mesmo que Sara não a compreendesse e não fosse tão próxima assim, ainda era sua amiga e merecia todo o seu carinho e consideração. Luci dava e distribuía amor, mesmo que as outras pessoas não conseguissem reconhecer e retribuir o devido valor de tal atitude.
Tomou dois banhos: Um de água e sabão e o outro de perfume. Colocou um vestidinho curto de renda totalmente preto, é claro, sapatos de salto quinze, e pegou o sobre-tudo brilhoso de látex, para caso esfriasse.
Colocou um batom bem vermelho, bagunçou o cabelo na frente do espelho e disse:
— Pronto. Você já está uma piranha. Agora pode sair de casa.
Pegou uma mini-bolsa, que mal cabiam duas moedas um batom para retocar e um cartão de crédito dentro e partiu, encontrando-se com Mateo no parquinho. Mateo era mais do que pontual, já estava esperando por ela lá. Ele só acenou e juntos, entraram no carro, rumo à casa de Sara, onde aconteceria a tal festa que era tão importante, que Luci se esquecera completamente.
— Sabe, Mateo... Acho que não estou no clima para essa festa hoje. — Diz ela.
— Mas por que você vai? — Pergunta então ele, de volta.
— Para não te deixar na mão, é claro, e... Pra ela não se sentir sozinha, também. Eu odeio quando as pessoas não vão nos meus aniversários. — Luci realmente sentia aquilo, estava sendo empática.
— Então você quer alimentar o senso de narcisismo dela, mesmo que vocês não se deem tão bem quanto antes? — Brinca Mateo.
— Claro! Se isso fizer bem pra ela... Por que eu não faria?
— Acho que agora eu compreendo aquilo que você disse sobre não se sentir encaixada... Você faz de tudo para se enquadrar na caixinha social, mesmo que você não caiba dentro dela. Eu também me sinto assim, acho que com todo mundo é a mesma coisa. A gente tenta agradar aos outros ao máximo, só pra se sentir seguro, parte de algo maior, uma comunidade... — Reflete Mateo.
— Exatamente! Ai, que orgulho de ti, Mateo! Mas não vamos falar sobre isso agora, ou eu vou borrar a minha maquiagem! — Ri Luci, que já estava com os olhos cheios de lágrimas só de ouvir Mateo falar aquilo, um arrepio lhe percorrendo a espinha.

Chegando à casa de Sara, surpreendentemente, estava quieto demais. Havia apenas cinco garotas lá além da aniversariante, a começar por aquela menina com quem ela conversava da última vez em que Luci a encontrara nos rolês... O nome dela era Marjorie Monteiro, vestia-se de um jeito totalmente alternativo,com calças largas, listradas e curtas. Usava uma presilha no cabelo e fumaça um cigarrinho com a mão cheia de anéis, incluindo anéis de coco que denunciavam sua possível sexualidade. Havia também as loiríssimas gêmeas univitelinas (que deram errado) Larissa e Raíssa Montenegro, primas de segundo grau de Sara e que só estavam ali porque tinham 2 litros de silicone, plástica no nariz e sabe-se-lá mais onde, e é claro, dinheiro para pagar por tudo isso. Havia também Michele Topaz, com quem Luci e Sara estudaram no ensino médio, uma menina magrinha e certinha, mas que estranhamente estava incluída no grupinho de descolados de Sara, e por fim, Alice Braga, que tinha pai e mãe advogados e moravam em uma mansão do outro lado da cidade.
Luci chegou acanhada, pois as seis meninas (contando com Sara) estavam sentadas no carpete em frente ao sofá, rindo e sorrindo, acompanhadas de copos de caipirinha, ou seja... Provavelmente as patricinhas já estavam em outra dimensão naquele momento. Elas estavam tão vidradas em seus assuntos, que só perceberam a presença de Mateo e Luci naquele ambiente, quando a aniversariante gritou:
— Olha lá quem veeeeeeio! — Assim mesmo, com o "e" puxado. — Luci! Mateo! Sentem-se! A festa ainda não começou, mas já estamos no meio do babado. Senta aí!
Sara puxou uma almofadas do sofá no qual escorava as costas e jogou na direção dos recém-chegados.
Luci e Mateo ficaram lado a lado, na posição de indiozinhos no chão e timidamente, começaram a se integrar no assunto, após é claro, cumprimentarem e abraçarem a aniversariante, parabenizando-a por mais um ano de vida. Eles entregaram seus presentes: o de Luci era um simples pacotinho que cabia dentro da mão e o de Mateo era uma volumosa caixa que roubava totalmente a atenção.
— Bom, já que vocês me trouxeram mais uns presentinhos, acho que vou começar a abri-los! — Diz Sara, sorridente. — E eu vou começar... Pelo do Mateo!
Sara vorazmente rasga o pacote e descobre que aquela era uma caixa com um... Faqueiro!
— Hã... — Sara não sabia o que dizer. Aquilo era um presente que certamente seu pai ficaria feliz em receber, mas ela?
— É pra quando você quiser cozinhar! — Diz Mateo, na inocência, sem perceber o pecado que acabara de cometer. Meninos... Tão perdidos em sua estupidez que não conseguem enxergar meio centímetro à frente.
— Hã... M-muito obrigado... (Eu acho). — Agradece Sara, com um sorrisinho amarelo que Luci jamais irá se esquecer. — Eu acho que a nossa empregada Neyde vai ficar felicíssima com isso. Depois vou levar para a cozinha.
Empregada? Essa era nova... Então Sara comia mortadela e arrotava presunto? Pois é...
A aniversariante então pegou outro pacote. Esse era nitidamente uma roupa, pois era mole, mas como era cor-de-rosa, só podia ter vindo de uma pessoa, ou melhor, de DUAS...
— Ah, esses aqui foram vocês, não foram? — Diz Sara, olhando para as gêmeas sintéticas que sorriam esticadas à sua frente.
— Abre, abre!
— Diz pra gente o que você achou!
Falaram as duas.
Sara então rasgou o pacote e lá dentro estava uma camisola totalmente sensual que mais parecia uma camiseta, pois a falta de pano para baixo era na verdade elas moravam no fim do mundo que era Bom Martírio, nos confins do Brasil...
— A-MEI! — Grita Sara, abrindo um bocão. Era uma expressão exagerada, mas que super combinava com o estilo das três. Superficiais. — Ai, meniiiiina! Agora só falta um boy pra eu usar!
— Vai depender se o Mateo vai te querer! — Brinca a fumante Marjorie Montenegro.
— Ai, cala a boca! — Desaprova Sara, sorrindo. Já estava para lá de Bagdá... Bêbada no último.
— Sem ofensa, meninas! Mas eu não estou a fim de compromisso hoje! — Brinca Mateo, no que Luci apenas revira os olhos, quietinha no seu cantinho.
— Esse aqui... Não sei o que é? É de comer? Porque eu estou de dieta com a melhor nutricionista da cidade, vocês sabem disso, meninas! — Pergunta Sara, enfatizando o fato de que tinha dinheiro, o que deveria ser uma baita mentira, só pra agradar as "as Branquelas".
— É de ler! — Diz Michele Topaz, vermelha de vergonha. — E-esse é meu!
Aquele era claramente um livro, dava para ver pelo formato do pacote. Sara só não tinha neurônios o suficiente para perceber isso. Pegou o pacote com uma falsa cara de alegria (dava para ver o descontentamento) e abriu. Era um exemplar de algum livro sobre a Mulher do Século XXI.
— Eu não costumo ler muito, Michele, mas eu aprecio a sua preocupação com a minha parte intelectual. — Diz Sara, mantendo um sorrisinho que Luci não sabia mais dizer se era falsidade mesmo ou se era deboche da pobre menina tímida. — Eu vou ler com muito carinho.
Luci, no entanto, ouviu uma das gêmeas sussurrar no ouvido da outra:
— Isso lá é presente que se dê a alguém? — Disse uma que Luci não sabia identificar se era a Larissa ou a Raíssa.
— Coitada, ela não deve ter dinheiro. — Cochichou de volta a outra, mas era um cochicho tão alto que dava para ouvir.
A pobre Michele estava vermelha como um pimentão. Luci ficou se perguntando porque Michele estava fazendo aquilo? Por que estava querendo se aproximar das populares da universidade? E então engoliu a seco, pois flagrou-se que era exatamente o que ELA fazia.
Sara então pegou mais um pacote. Esse era claramente da amiga descolada que segurava um cigarro dentro de casa, naquele fedorão, como se fosse um enfeite. Marjorie apenas riu:
— Experimente. É de colocar na boca. Na de cima e na debaixo. — Brincou a amiga.
Luci fez-se de desentendida. Quando Sara abriu o pacote e viu aquele pênis de borracha, ela surtou:
— WHAT THE HELL?! MARJORIE?!?!
Todos começaram a gargalhar sem medidas, fazendo um barulho tremendo. Sara ficou vermelha, não sabendo onde colocar a cabeça. Talvez debaixo da terra, como um avestruz.
Droga! Luci queria ter tido aquela ideia primeiro.
— Ahahahah! É brincadeira! Esse é só um brinquedinho da loja da minha mãe. — Disse Marjorie, que aparentemente era filha de uma dona de sex shop. — Toma!
Ela pega um pequeno pacotinho no bolso e entrega a Sara. Havia três notas de cinquenta ali dentro, devidamente dobradinhas.
Sara perdoou a amiga imediatamente pela brincadeira de mal gosto, no que seus olhos ficaram verdes assim como os cifrões que brotavam nitidamente sobre sua cabeça.
O próximo presente era o de Alice, a filha dos advogados mais bem pagos da cidade (ou ao menos, era isso o que eles queriam que os outros pensassem que fosse verdade). Era também uma roupa. Um vestido tomara-que-caia belíssimo na cor vermelha que combinava perfeitamente com Sara. Luci só se perguntava se a quase-ex-amiga merecia ganhar aquilo.
— Ai, miga! Muá! Muá! Muito obrigada! Eu amei! — Disse Sara em mais uma exagerada reação de felicidade com aquele bem material.
E então, depois de colocar o vestido de novo dentro do pacote, ela foi para o último, que era o de Luci.
— Só sobrou você, Luci... O que é isso? É tão pequeno... Espero que você não goste de mim na mesma proporção que o tamanho do pacote! — Diz Sara na brincadeira, mas sendo totalmente abusada, no que Luci percebeu que ela não havia gostado de seu presentinho ser tão pequeno. Ela estava ardendo por dentro.
Ela abriu e viu os brincos com formato de boca e que, assim como Luci previra, ela amaria. Era a sua cara.
— Ai, amiga! Que luxo! Babado! Amei! — Floreia Sara, falsérrima como sempre.
— Não tem de quê! — Diz Luci, dando de ombros.
Nisso, uma das gêmeas (novamente Luci não sabia quem era quem) disse:
— Cuidado pra não ficar com as orelhas verdes, amiga! — Debochando, sugerindo que o presente de Luci se tratava de bijuteria de baixa qualidade.
— Ai, amiga! O que é isso?! — Intervém Sara, mas Luci não sabia se era por boa vontade que ela havia silenciado as gêmeas-padrão ou se fora por simples educação, só porque Luci estava ali presente.
Luci fechou os punhos pronta para dar um soco na perua, mas segurou-se. Respirou fundo e se lembrou de que estava ali pela sua amiga, por pior que fosse a experiência.
Nisso, vem uma mulher com uniforme de empregada da cozinha, era a tal Neyde que Sara mencionara e a mesma que recepcionara Mateo e Luci na porta, no momento em que chegaram. Era uma mulher de aproximadamente a mesma idade que a tia Marta, de cabelos pretos e algumas rugas, mas extremamente bonita. Ela trazia uma bandeja com um baldinho de gelo, limões e mais uma dose de caipirinha.
— Neyde, pode deixar aí! — Diz Sara, fazendo um gesto com a mão para que a pobre empregada deixasse sobre uma luxuosa mesinha de vidro ali no canto. — Ah, e traga mais uns copos! Chegaram mais dois convidados!
— Entendido, senhorita. — Diz Neyde, sorridente, virando-se de volta para a cozinha.
— Ah! Neyde! Mais uma coisa! — Estala Sara.
— Oi?
— Traga mais copos e mais bebida, os meninos já estão a caminho! — E Sara sorriu. Assim que a empregada virou as costas, tocou a campainha e a menina foi lá recepcioná-los. Eram pelo menos dezesseis pessoas, todas juntas, gritando e cantando parabéns. Carregavam fardos de cerveja, um barril de chopp, champanhe e vários (mas vários mesmo) pacotes de presente.
Assim que pôs os olhos sobre aqueles meninos espinhentos e gritões, Luci imediatamente pensou: "Ih, perdi minha companhia", pois dentre o grupinho de populares estavam os caras do futebol, de quem Mateo era amigo.
Só sobraram ela e Michele... Literalmente "sobraram" ali num canto.
A festa havia oficialmente iniciado. Chegou um DJ e a música começou a tocar. Vez ou outra, a empregada Neyde vinha trazer alguns petiscos de churrasco que certamente algum contratado estava assando na churrasqueira aos fundos da casa, perto de piscina, e umas doses de bebida alcoólica.
— E então? O que está achando? — Pergunta Luci, sentando-se ao lado de Michele no sofá, as luzes rodopiando e formando desenhos coloridos no chão, conforme a música tocava para a vizinhança toda ouvir. Luci apostava que Sara havia pagado os vizinhos em dinheiro para não chamarem a polícia, porque em área residencial, aquilo era um crime. A ruiva estava se sentindo extremamente sozinha, mas tinha de estar ali por sua amiga Sara, mesmo que aquele ambiente fosse totalmente inconveniente para ela. Tomou um drink e umas bebidas de cores exóticas... Azul, vermelho... Luci já nem mais se lembrava o que tinha naqueles copos, mas mesmo assim bebeu, para se esquecer que estava se sentindo deslocada.
— Está uma maravilha! Sara é uma ótima pessoa! Sabe como dar uma festa! — Diz Michele, sorrindo.
— Mentirosa. — Diz Luci, tomando mais um gole.
— Hã... — Michele não sabe o que responder, ela era uma menina quietinha, a nerdzinha da classe.
— É mentira, você só fica puxando o saco dessa aí porque quer se sentir popular e quer saber de uma coisa? Eu te entendo perfeitamente! — Diz Luci, bebendo novamente. — Eu vim aqui pela mesma razão!
— V-você... C-como você é grossa! — Xinga Michele que sentira ofendida pela verdade que Luci não tinha vergonha de escancarar.
— E você não tem amor-próprio... Mente para si mesma! — Devolve Luci, na lata. A empregada Neyde vinha passando com algumas taças na bandeja e ela pegou um cor-de-rosa, que provavelmente era uma batida de morango. — Toma um drink, vamos conversar! O meu nome é Luci e eu sou a maior hipócrita da história, porque eu estou te julgando e fazendo exatamente a mesma coisa! Eu só acho que por essa nossa coisa em comum, poderíamos ser amigas!
Michele estava sóbria e não bebia, aparentemente. Mas então Luci percebeu o "efeito Sara". Michele revoltou-se e "deixou cair a bebida sobre o vestido limpinho que Luci recém colocara.
Luci ficou boquiaberta, arregalando os olhos pela surpresa! Poxa vida, ela só estava tentando fazer amizade com aquela menina! Talvez tivesse começado da maneira errada, mas agora Luci estava furiosa e com razão!
— Oops! Desculpe! Caiu sem querer! C-com licença! — E Michele se levantou, levando o resto da bebida consigo. Colocou a taça na primeira lata de lixo que encontrou.
— Porca! — Xinga Luci, mas Michele já estava longe e a música estava alta, então provavelmente ela não escutou. Certamente, aquele não era um comportamento adequado para uma "mulher do Século XXI", pois o conceito de sororidade não estava impresso naquela atitude. — Argh! Essas suas se merecem mesmo! Grrrr! Que ódio!
Luci levantou-se e tentou espanar com as mãos o excesso de bebida que caíra sobre seu vestido, colando-o no corpo.
Nisso, as gêmeas de laboratório passaram por ali, na frente dela, enquanto Sara estava conversando com o DJ (provavelmente falando alguma putaria).
— Ai, amiga! — Disse uma delas. — Olha só, o vestido colou! Ficou aparecendo a barriguinha!
— Se eu tivesse um aqui eu te emprestava. Se coubesse, é claro. — Disse a outra, mais debochada ainda que sua irmã.
— Eu conheço um cirurgião MA-RA-VI-LHO-SO! — Disse a outra. — Quer que eu te passe o contato? Ele fez uma lipo em mim que olha... Está de parabéns! Emagreci cinco quilos!
— Eu... — Luci semicerrou os olhos, ardendo em fúria. Essas gêmeas estavam de sacanagem com a cara dela... Mas Luci respirou profundamente e conteve seus impulsos raivosos e sorriu, pedindo licença e saindo dali.
Foi ao banheiro, onde acendeu a luz e trancou a porta, sentindo-se aliviada pelo som ter sido abafado e por não estar mais na presença de pessoas tão tóxicas. Luci tinha pensamentos elevados e procurava sempre focar neles, mas quando alguém a chamava de gorda... Isso a fazia desmoronar, ela só começava a ficar negativa sobre a si mesma e não conseguia mais se elevar, ascender. Só pensava naquilo e isso a matava. Doía tanto. Por que as pessoas eram tão maldosas com ela? Bom, talvez ela merecesse. Por saber que não deveria ir naquela maldita festa e ter ido mesmo assim. Deveria ter ficado escrevendo em casa, como Mateo aconselhara. Esquecer dos problemas e focar na sublimação das coisas ruins que a rodeavam, transformando a escuridão em arte.
Luci olhou-se no espelho. A maquiagem estava díspar, um dos delineados nos olhos estava mais puxado que o outro e ela se sentia enorme. Obesa. Tinha espinhas e sua pele já não era mais tão boa como era quando criança. Seu cabelo rebelde estava bagunçado do jeito que ela gostava, mas não de um jeito eficaz. As outras olhavam com nojo, dos pés à cabeça, avaliando cada centímetro de seu corpo.
Olhou então para o reflexo da boca e percebeu que seu batom vermelho estava borrado, provavelmente tendo ficado a maior parte do cosmético nos copos que bebera. Abriu a mini bolsa e tirou de lá o batom. Abriu-o e antes que passasse, deslizando e tingindo os lábios, ela teve uma ideia.
Observou a si mesma no espelho atentamente e disse para si mesma:
— Luci... Quem é você para deixar que essas pessoas ridículas te façam se sentir menos capaz diante da "perfeição" delas?
O espelho não respondeu, mas Luci obteve uma réplica em sua mente naquele mesmo instante. Ela sabia o que fazer. E então, ao invés de pegar o batom para passar na boca e ficar visualmente mais atraente, ela decidiu fazer outra coisa...

Luci saiu do banheiro se esgueirando pelos cantos (não que precisasse: ninguém parecia perceber que ela estava ali, mesmo dentro de um tubinho de látex mais chamativo impossível). Foi até o DJ que até estranhou ao ver a palavra "Humana" escrita de batom em sua testa e pediu-lhe um favor:
— Pare a música e me dê o microfone. Eu tenho umas palavrinhas.
O DJ apenas olhou para a menina, que abriu o sobretudo rapidamente, no que os olhos do homem embranqueceram e ele simplesmente acatou o pedido.
Um barulho estridente ecoou nas caixas de som e em alguns instantes, Luci já tinha conquistado a atenção de todos naquele lugar.
O som parou e Luci estava de costas para o grande público ali presente, em sua maioria, conhecidos de vista da faculdade e é claro, seu amigo Mateo.
Ela estava possessa e nada a impediria que seguir adiante com o plano.
Ela falou no microfone:
— Eu tenho umas palavrinhas... — Disse ela, timidamente, de costas, mas mesmo assim, engoliu o nervosismo e seguiu em frente. Havia algo dentro dela que estava queimando, ou pior, entrando em erupção... — A maioria dos que estão aqui presentes não devem me conhecer. Eu sou Luci. Prazer.
As pessoas estavam se perguntando "O que está acontecendo?", inclusive a própria Sara, mas esta estava toda se achando, porque achou que Luci estava ali para falar bem dela na frente dos outros. É claro que Luci poderia ter feito isso, afinal, eram amigas desde a infância, mas... Luci estava magoada e bêbada. Só Deus sabe o que ela era capaz de fazer sob essas circunstâncias.
— Talvez vocês nem tenham notado que eu estava aqui essa noite, pois para a maioria de vocês, eu não tenho nome. Mas... Isso não importa agora. Vocês sabiam que eu tenho sobrepeso? Pois é... algumas pessoas ficaram muito contentes em me dizer isso hoje à noite, como se eu não tivesse espelho em casa e como se eu precisasse me lembrar que isso é "socialmente inaceitável". É... Talvez eu esteja mesmo caminhando em linhas tortas. Mas elas podem ser tortas para vocês, para mim... São linhas curvas. E quem disse que existe uma única maneira? Quem disse que o caminho para a felicidade é uma reta sem volta? Eu estou cansada desses joguinhos infantis que as garotas ricas que moram do outro lado da cidade usam para menosprezar os outros... Para nos fazer sentir inúteis... Incapazes... Para nos humilhar na frente de todo mundo. Vocês podem até achar... Ih, ela é louca! E daí? Eu não estou dando a mínima, porque eu me aceito do jeito que eu sou. Loucura mesmo é tirar o direito das outras pessoas se serem felizes porque elas simplesmente não seguem às diretrizes sociais doentias que vocês mesmos criaram! Isso sim é insanidade: Rebaixar os outros para só assim poder garantir alguma estatura! Sabe do que eu chamo essa pouca-vergonha? De falta de amor-próprio, de pobreza de autoestima! Quem faz isso é porque precisa diminuir os outros para poder se sentir maior! Então, me desculpem por isso, meninas... Desculpe-me, Sara, mas hoje à noite, vai ser a última vez que eu vou ser chamada de GORDA e me deixar que isso me afete, porque isso jamais vai ser um problema para mim. O meu nome é Luci, repetindo, e eu amo a mim mesma do jeito que eu sou!
Luci então tirou o sobretudo vagarosamente e deixou o látex cair no chão, revelando para todos estar apenas de lingerie por baixo: uma calcinha e um sutiã de renda, igualmente pretos. Ela estava realmente acima do peso: tinha estrias, celulites e até uns pneuzinhos, mas era isso: Uma mulher REAL, com um corpo real e problemas maiores para resolver. Ela não tinha tempo de ficar se sentindo para baixo por causa de megeras como aquelas amigas da Sara, então ela queria dar um fim naquilo da maneira mais épica o possível.
Ao virar-se de frente para o público, já seminua, Luci revelou que sua barriga, coxas peito, braços e rosto estavam escritos com batom vermelho (que por sinal, havia acabado depois daquilo tudo e ela jogado fora no lixo). Sua testa estampava, no topo de toda a obra, a palavra "Humana". Na sua bochecha direita, a sílaba "Gor" e na esquerda, a sílaba "da". E por toda a extensão de seu curvilíneo corpo, palavras como "mulher", "guerreira", "forte", "diva", "poderosa" e uma porção de outras qualidades a elevando a um outro status, escritas em seu abdômen por pouco fora dos padrões sociais. Luci estava furiosa, mas havia conseguido uma vingança.
— OH MY! — Exclamou Marjorie, que tirou o pirulito da boca (o qual utilizava para intensificar o efeito de entorpecentes), caso contrário, deixaria o mesmo cair no chão.
— É oficial! Luci Sabatina não é a Demi Lovato, mas "is over party"! — Comentou uma das gêmeas-sensação, tirando sarro da atitude da ruiva.
Sara deixou a taça que segurava na mão cair, estilhaçando-se em pedacinhos no chão, boquiaberta. Mateo parou tudo o que estava fazendo e a conversa com seus amigos esfriou, seu coração parou. As gêmeas ficaram abismadas e Marjorie parecia, por outro lado, ter gostado, assim como os atletas, que imediatamente começaram a tirar fotos.
— Eu estou CHO-CA-DA! — Disse Alice, que sinceramente, achava aquela atitude o máximo, mas não podia demonstrar na frente de suas amiguinhas esnobes movidas a drogas e dinheiro.
— Obrigado, seu DJ. Pode voltar a tocar. — Agradece Luci, entregando o microfone de volta ao DJ.
Assim que se vira, Sara estava à sua frente, lacrimejante.
— O que você pensa que está fazendo?! — Diz a menina, chocada. — GET OUT OF MY HOUSE!
Luci entendia perfeitamente o inglês da amiga, mas ela nem precisava ter dito aquilo. Ela já havia se sentido expulsa da casa muito antes de tudo isso ter acontecido.
— You don't need to say it twicemon amour! — Diz Luci, se aproximando do ouvido de Sara, com os dentes serrados, expressando sua raiva. "Nem precisa dizer duas vezes, meu amor".
Luci juntou o sobretudo do chão com uma mão, pegou o vestido completamente ensopado de bebida com a outra e saiu da residência assim mesmo: de sutiã e calcinha.
Toda a festa havia parado. Mesmo com a música retornando, o pessoal continuava boquiaberto, sem reação. O que eles deveriam fazer? Luci se tornara o assunto do momento. Pronto: Nunca mais passaria despercebida.
Ela passou por Mateo e disse-lhe:
— Desculpa, Mateo. Não se preocupe comigo, estou indo para casa.
E saiu, batendo a porta ao deixar a mansão.

Luci vestiu-se apropriadamente do lado de fora, colocando o sobretudo de novo e foi a pé para casa. Chegando lá, estava um silêncio total. Tia Marta e Lucas já estavam dormindo, então ela tomou um banho e foi dormir. Ela só não esperava ter que resolver mais problemas do outro lado. Bom, pelo menos ela já estava se sentindo empoderada o suficiente e só aquilo já bastava para ela dar um fim nessa aflição que a incomodava em ambos os mundos.
Luci adormeceu aqui e acordou lá. Estava em um lugar sombrio, naquele mesmo tom azul que ela se lembrava de ter sonhado. Era uma cidade, um bairro. Ela não reconhecia o lugar. Estavam do lado de fora, no asfalto, ela e a tia Marta demoníaca, com aquele cabelo mechado molhado, olhos cheios de pés de galinha, pele acinzentada e dentes de vampiro.
A ruiva, porém, ao ver aquela mulher ali parada, de repente despertou a consciência:
"Eu estou dormindo"! — Lembrou-se então que havia se deitado havia pouco e que aquilo certamente era consequência de um sonho.
Olhou para a tia Marta zumbi que gargalhava, dando risada da cara dela, fazendo escárnio.
Luci sentiu-se enraivecida. Já estava no limite. Correu na direção da vampira decidida a dar um fim em tudo isso. Estendeu seus braços para frente, na tentativa de empurrar a bruxa cadavérica que tomava a forma de sua tia, mas a desgraçada era pesada e ficava firme no solo.
"Grrrrrr"! — Luci empurrava com todas as suas forças, mas a bruxa estava no controle. Ela olhou para Luci com uma cara demoníaca e sorriu, mostrando-lhe os dentes sangrentos, do tamanho de pregos.
Luci se assustou e o medo apossou seu coração de espírito, tornando-a fraca contra a criatura. Com o pânico tomando conta, Luci correu pelas ruelas daquela cidadezinha desconhecida de tom azul marinho, banhada apenas por um fraco brilho lunar, enquanto era perseguida pela fera.
"Aaaaaahhhh!" — Ela se lembra de ter gritado enquanto fugia, correndo desesperadamente tentando despistar a tia, dobrando em cada esquina, na tentativa de fazê-la se perder.

E então, o sonho mudou.
Luci havia conseguido fugir. Estava cansada, muito cansada, mas havia conseguido se teletransportar para outro lugar. Era o pátio de sua casa, o fundo do pátio, mais precisamente. Era esse o local que Luci tinha a impressão de ser onde o tal espírito maligno estava alojado. Mas Luci, muito embora pressentisse o perigo e o mal se aproximando, estava sozinha.
Não demorou muito e o portão se abriu, Tia Marta adentrando o quintal. Mas essa era a tia que Luci sempre conhecera: de pele em tons normais, cabelo encaracolado, curto (e seco), totalmente normal. Era a tia que a acolhera após a morte de seus pais e que ela tanto amava.
Conforme Tia Marta ia se aproximando, Luci ia se sentindo mais pesada. Tinha alguma coisa errada. Ela sentia o mal emanando, a energia da criatura estava ali. Então ela percebeu... Aquela não era a tia, mas o puro mal tomando a forma da mesma para tentar enganá-la.
Luci, lúcida e acordada, como se não estivesse dormindo, fingiu propositalmente estar sendo iludida pela falsa tia Marta, que estendeu as mãos e acolheu as da menina, em um aperto firme.
A ruiva, porém, não deixou barato. Estava pistola e sabia que tinha alcançado o nível de fúria que ela precisava para deixar o medo de lado e ficar menos suscetível às trapaças do espírito maligno. Sem medo, ela tinha forças. Com medo, ela se deixava levar pelas ameaças espectrais da entidade e perdia o controle da situação, mas Luci estava sóbria e perfeitamente consciente, e esse era o momento perfeito para enxotar aquele agouro zombeteiro que a assombrava por dias, semanas!
Luci apertou a mão da falsa tia com força, prendendo-a e como que em um estalo, as mãos ficaram grudadas de um jeito que o espírito não podia se desfazer, mesmo tentando com todas as suas forças, escapar. Os olhos da falsa tia Marta se arregalaram e ela começou a gritar, em desespero, tentando fugir, mas Luci estava faiscando (literalmente) em tons de verde-folha que foram progredindo conforme a luz do sol chegava para iluminar aquele breu maléfico que a criatura havia instaurado no plano astral de Luci e como que um raio, a menina começou a gritar junto com o espírito, com muita força, fazendo-a tremer, no que tremeluzia a imagem da verdadeira tia Marta paralelamente à imagem da falsa, de cabelos mechados e caninos compridos. Luci eletrocutou-a de uma maneira que jamais imaginara. Sua luz interior brilhou e ela era verdinha, verdinha, como a natureza exuberante que a cercava no fundo de seu pátio.
Com muita força de vontade e fúria, Luci tremia, vibrando sua mão que estava colada à do espírito, emanando muita energia e muita luz, fritando o espírito que em um último grito de agonia e desespero, desapareceu por completo na vibração positiva que Luci emanava, sumindo de uma vez por todas daquela casa e da vida daquelas pessoas. Pronto. Luci havia acabado com seus tormentos, mas esse era só o começo.
A menina sentiu seu corpo etéreo do outro plano desfalecer e a partir daí, ela não se lembra mais do que sonhou... A partir daí, já eram sonhos mesmo, porque ela não tinha mais o controle. E foi só nesse momento que ela pode relaxar e sossegadamente descansar como as intenções de qualquer um que se deite sozinho à noite...

Tudo o que aconteceu a seguir, foi um borrão na mente de Luci. Ela simplesmente apagou, deixando o subconsciente falar mais alto, mas lá pelas tantas, perto de umas cinco da manhã... Ou melhor, da madrugada, afinal era escuro ainda, ela abriu os olhos.
Luci estava acordada e novamente, sentiu aquilo que tanto a aterrorizava: a mente estava desperta, mas o corpo, petrificado como se estivesse morta.
Mas Luci estava tonta, não sabia se pela bebida ou se pelo estado mental em que se encontrava. Tentou focar a imagem da janela, que se destacava em meio à escuridão devido às pequenas frestas da veneziana, que permitiam a entrada da luz dos postes do lado de fora e também do luar. Contudo, a janela parecia estar flutuando, girando. Era uma vertigem, Luci se sentiu tonta. Não conseguia parar de girar.
E então, sentiu alguém puxando seu braço, a chamando.
Mas não chamavam por seu nome, com palavras. Não era alguém que falava "Luci", pronunciando as sílabas com o articular da boca e da língua, soprando o ar através das cordas vocais. Alguém a chamava e ela sabia que estavam chamando, mas não com palavras, não com um código humano. Ela sabia disso em sua mente. Estavam-na chamando telepaticamente.
Ela se lembra de ter pensado naquele momento: "Ai, o que o Lucas quer me acordando a essa hora? Eu não quero. Quero dormir."
Luci não conseguia se mover e estava tonta tentando focar na imagem da janela, percebida por seus olhos carnais. Quando tudo parou de girar, com ela se concentrando para manter o foco, Luci conseguiu vagarosamente virar a cabeça para o lado e viu de pé, ao lado de sua cama, a imagem de um homem, mas não um homem qualquer. Um homem do além.
"Lucas, me deixa dormir". — Ela pensou, mas então observou que aquele não era seu primo. Era outra pessoa.
E por incrível que pareça, ao contrário da tia Marta vampiresca, desta vez, Luci não se sentiu amedrontada, mas pacificada. A forma do homem vestindo totalmente branco, de pele clara e cabelos castanho escuros, a deixava em paz. Uma paz que ela nunca sentira. Uma paz de outro mundo. Era como se ela, ao vê-lo, lembrasse-se do conceito de "lar". Era alguém que parecia parabenizá-la por algum feito.
Ele trajava uma camisa social com detalhes em renda muito alva, com calças também muito, muito brancas, sem nem um grão de sujeira. Parecia-se com um noivo. Em sua cabeça, uma coroa de pequeninas rosas brancas recém-apanhadas, formando um arco sobre seu exuberante cabelo, bem penteado e aparado. E sua gravata era, literalmente, uma borboleta, batendo as asinhas branquíssimas como mármore.
O único porém era que Luci conseguia vê-lo por completo, a imagem como um todo, mas não conseguia distinguir o seu rosto. Ele estava oculto. Não por uma sombra nem nada do tipo, mas um borrão que a impedia de reconhecê-lo muito embora ela soubesse que de uma forma ou de outra, ela o conhecia. Só não sabia dizer como.
Então, ainda olhando para o homem, percebeu que estava fitando o nada. Recuperou o movimentos do corpo e então percebeu que lá não havia ninguém. Estava olhando para o vazio em seu quarto, no meio da noite.
Aquilo a amedrontou. Como assim não havia ninguém ali? Ela estava olhando para aquele homem e de repente, ele não estava mais lá, como se tivesse evaporado, se dissolvido... Simplesmente de outro mundo.
O coração de Luci disparou e ela se arrepiou por completo, da cabeça aos pés. O que foi que ela viu?

Luci pegou o celular e se levantou. Foi até o quarto do primo Lucas e ele estava dormindo. Agarrou no braço do mesmo e fez uma pressão, chacoalhando-o.
— Lucas. Acorde. — Sussurrou ela.
— Hmmm? — Lucas estava completamente podre, ferrado no sono. Mas acordou ao ouvir a prima.
— Posso dormir aqui com você? Eu... Tive um pesadelo... — Ela pergunta, torcendo para que ele dissesse que sim, muito embora ele tivesse apenas uma cama de solteiro e mal coubesse os dois em cima.
— Quer falar sobre isso? — Pergunta ele, esfregando o rosto e virando-se para olhá-la nos olhos.
— Não. Amanhã eu conto.
E Luci, fingindo nada ter acontecido, alojou-se na cama do primo, quase que o expulsando de lá, e dormiu profundamente sentindo-se segura ao lado dele, deixando aquela promessa morrer, pois tamanho o medo que sentira, nunca mais tocou no assunto com ele.

Postar um comentário

0 Comentários