O Conceito
Ah... Como eu poderia descrever o inferno? A maioria das pessoas diria que quente. Eu já acho que não. Ele seria suavemente mutável, para tornar o sofrimento sempre uma novidade e não cair na monotonia de ser queimado vivo todos os dias.Ele seria quente, sim, mas também seria frio.... Os 40ºC do verão e os -40ºC do inverno. A movimentação barulhenta e enérgica do dia para o fúnebre silêncio da noite, que te deixa sozinho com o seu pior inimigo: os seus próprios pensamentos.O inferno vai e volta, de um extremo ao outro, para conseguir perpetuar o sofrimento. Afinal, se ele estacionasse em uma coisa só, os seres que nele estão presos evoluiriam para deixarem de sofrer, tornando aquele cenário banal e longe de ser um tormento.Aqui, a felicidade estaria presente constantemente em pequenas doses. Sim, porque é preciso haver uma alegria, contentamento, deleite, júbilo e regozijo nos pontos altos para que você se decepcione e consequentemente se despedace com a inevitável queda para os lúgubres e solitários pontos baixos.Altos e Baixos: Este é o inferno. A inconstância e a imprevisibilidade é o que torna tudo tão mais angustiante. Afinal, hoje você dorme com a cabeça reclinada sobre um travesseiro de penas, amanhã você não tem o que comer, sendo a liberdade só um conceito para filósofo debater.As pessoas surgiriam neste lugar sem saber de onde vêm ou para onde vão. Sentiriam fome, sede, dor. Competiriam por espaço e território, comida, direitos e até conhecimentos. Trabalhariam e seriam obrigadas a trabalhar pelo resto de suas vidas, escravas da forme. E por falar em fome, os alimentos que mais seriam saborosos e apetitosos, seriam aqueles que lhes causam algum tipo de prejuízo para a saúde. Os que são saudáveis de verdade não lhe trariam prazer algum ao paladar.Neste lugar, as almas presas almejariam comprar coisas que se deterioram e só lhes geram dor de cabeça, mas o desejo seria tão grande que sempre que um objetivo fosse alcançado, um maior e mais alto seria formado. Nada seria suficiente. Você nunca estaria completo, almejando sempre mais e mais.Neste trânsito caótico, o consumismo te faz esquecer de apertar os freios para que a roda do capitalismo passe por cima de você e te prenda em um ciclo infinito de comprar, trabalhar para pagar e comprar de novo. Estes dois irmãos algozes andam de mãos dadas, em uma simbiose perfeita, e só não percebe quem está ocupado demais seguindo o sistema.Aqui, aquelas pessoas a quem você sempre amou podem, no mais inesperado momento de fúria ou de tristeza romper com os seus laços, abandonando-o. E muito embora todos os seres chegassem e partissem por contra própria deste mundo, isto é, cada vida sendo individual, as pessoas teriam uma necessidade absurda de convivência, não havendo sentido em existir sem a criação desses laços, sem a coexistência em grupo. Mas os laços que elas tanto amam também são facilmente quebráveis.O subconsciente das almas condenadas ao inferno tem uma inquietação inerente, uma busca incessante por conflito, mesmo que desnecessário. E esses conflitos DESTROEM aquilo que o seu consciente luta para manter: a paz.Em teoria, os animais irracionais seriam julgados como "selvagens", mas a sociedade na qual os seres humanos condenados ao inferno estariam presas, seria muito, mas muito mais selvagem que o mundo natural, devido à complexidade de suas leis para com as obrigações e deveres que cada indivíduo nasce destinado a desempenhar, como um fardo por simplesmente existir dentro de um sistema do qual ele não pediu para participar.Além disso, esses seres perdidos no báratro nunca estariam contentes com o próprio corpo ou condição. Perderiam anos e anos se submetendo às vontades, opiniões, normas e regras fictícias criadas por outrem, tentando seguir a beleza, algo que só existe em sua cabeça.Estariam inseridos em um Universo do qual nada saberiam sobre. E mais: O planeta ao qual chamam de casa, na verdade, seria sua prisão, pois muito dificilmente sobreviveriam fora dele.Essas almas estariam suscetíveis às mais terríveis patologias e vicissitudes, e por mais que pudesse haver uma cura, ela não chegaria sem sofrimento.Aqui, a aparência e o vigor da juventude seria como água escorrendo por entre os dedos, e a vida humana seria como uma eterna luta contra o tempo, almejando pausar o irrefreável.Ademais, as pessoas não saberiam que se encontram presas ao inferno, por isso elas se mantém sob tortura, submissas à falsa fé que acusa suas ações de as levarem justamente para lá: onde mal sabe elas, já estão. O que elas nem sequer desconfiam, porém, é que já estão no limbo. Nada que elas façam ou deixem de fazer, com medo das chamas eternas, as livrará do agouro infinito. No fim das contas, elas deixam de cumprir com as suas intenções por medo e aproveitam muito menos do que a vida teria a oferecer, já que o filtro moral que as impede de serem livres é também um filtro social e, acima de tudo, um filtro religioso.Logo, a ignorância disfarçada de opinião, seria usada para ferir. E desta forma, eis que o ser humano enclausurado no inferno mutável se encontraria preso em mais uma contradição: a opinião alheia.E para ajudar, seu cérebro e todos os seus instintos seriam automaticamente programados para temer e evitar a libertação, a única saída possível para esta masmorra cósmica de desconhecimento. Cada ser ali preso viveria com um medo constante da morte, lutando dia e noite para sobreviver, sem perceber que o fim da guerra reside a sete palmos.
Série "O Inferno Nosso de Cada Dia"
A Série de pinturas "O Inferno Nosso de Cada Dia" é baseada no conceito de que já estamos todos vivendo no inferno e nem sequer nos damos por conta. Cada obra apresenta um dos sofrimentos ao qual estamos condenados a passar enquanto transitamos por esta louca experiência chamada vida.
Código Morse
Todos os títulos das obras que fazem parte da Série "O Inferno Nosso de Cada Dia" foram criptografados em Código Morse.
O Código Morse é um sistema de representação de letras, algarismos e sinais de pontuação através de um sinal codificado enviado de modo intermitente. (...) Uma mensagem codificada em Morse pode ser transmitida de várias maneiras em pulsos (ou tons) curtos e longos. (...) Este sistema representa letras, números e sinais de pontuação apenas com uma sequência de pontos, traços, e espaços. (Código Morse - Wikipedia)
Em outras palavras, o Código Morse baseia-se em uma série de pulsos e interrupções na frequência em que estes pulsos são emitidos, de modo intermitente, tal como o sofrimento no inferno 'suavemente mutável'. Altos e Baixos constantes. Felicidade sendo substituída por Tristeza, eternamente, sem nunca se cansar.
Além disso, a codificação da linguagem também simboliza a dificuldade em que as pessoas presas ao inferno têm de "decifrarem" o enigma da vida, de identificarem que estão presas em um lugar de sofrimento, sendo um "idioma" não-claro e completamente indireto, que só pode ser desvendado por aqueles que se debruçam por um longo tempo sobre o mesmo.
Obras
Por motivo de tornar o conjunto, a série em si, mais interessante, nenhum dos títulos das obras presentes em "O Inferno Nosso de Cada Dia" será traduzido pelo autor.
Para ter uma melhor compreensão do que cada obra significa (baseada em seu real título), você pode utilizar tradutores de Código Morse online. Abaixo de cada obra está o título codificado. Basta copiar e colar o texto em uma ferramenta online (como por exemplo, o invertexto.com) para descobrir o significado oculto de cada uma das pinturas.
Ademais, clicando sobre cada imagem, você será redirecionado à página individual da obra, onde mais detalhes sobre a mesma são disponibilizados, como por exemplo, datas e material que foi utilizado.
2021:
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2022:
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